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A VIDA PELO CONHECIMENTO »

Fuga de cérebros ainda é realidade

A vivência no exterior é importante para a carreira científica. No entanto, muitos pesquisadores temem voltar e enfrentar dificuldades

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postado em 15/05/2013 18:00 / atualizado em 15/05/2013 10:48

Carolina Cotta /d


 

Maximiller Costa faz pós-doutorado na Califórnia:  
Maximiller Costa faz pós-doutorado na Califórnia: "Ciência sem Fronteiras está funcionando bem, mas é só um pontapé inicial"

Belo Horizonte —
Aos 38 anos, o paulista Alysson Muotri é professor de medicina na Universidade da Califórnia em San Diego. Conseguiu aquilo buscado por muitos brasileiros que investem em formação no exterior: fazer pesquisa com a melhor estrutura possível. Estudioso de células-tronco e neurociência, o especialista expatriado convive com pessoas de todo o mundo, inclusive outros brasileiros. San Diego, “reformulada” para ser um polo de pesquisa, respira ciência. Muotri saiu do Brasil em 2008 para fazer o pós-doutoramento. Segundo ele, não há massa crítica em células-tronco no Brasil. “É uma área nova. Precisamos gerar mão de obra especializada.” Mas, em termos de financiamento, acredita que o nosso país está melhor que os Estados Unidos neste momento. “Entretanto, faltam verbas para infraestrutura e importação, o que dificulta a pesquisa.” Apesar de adorar a possibilidade de voltar, ele acha que sua contribuição lá fora é mais forte. “Mas voltaria se tivesse no Brasil as mesmas condições que tenho aqui.”

Diogo Magnani, 30, escolheu a Universidade de Wisconsin para seu doutorado, sete anos atrás. Atualmente, é pesquisador na Universidade de Miami, onde investiga vacinas contra a dengue e o HIV. São boas as perspectivas por lá, mas ele considera voltar um dia. “Sinto que posso contribuir muito com minha experiência para desenvolver a ciência e a biotecnologia brasileiras”, afirma. A internacionalização é inerente à pesquisa e base de um dos mais audaciosos programas do governo federal brasileiro. Iniciativa conjunta dos ministérios de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e da Educação (MEC), o Ciência sem Fronteiras, lançado em 2011, prevê a emissão de 101 mil bolsas até 2015. Até agora, foram quase 40 mil, a maior parte delas para a graduação no exterior.

Hoje, muitos cientistas que vão para uma temporada no exterior retornam ao Brasil. Outros, contudo, ficam, e só vêm em visitas anuais à família e para matar saudade do boteco, da comida caseira e do calor brasileiro. A fuga de talentos ainda é uma realidade. O MCTI não tem dados sistematizados de quantas pessoas saem e não fazem o caminho de volta. Segundo o secretário executivo da pasta, Luiz Antonio Rodrigues Elias, o país está aberto e quer construir um programa para mostrar a esses pesquisadores expatriados a ambiência que o país tem hoje. “Mas mesmo esses pesquisadores que passam por uma universidade de excelência no exterior e acabam ficando mantêm rede de colaboração com o Brasil”, defende Elias.

É o caso de Alysson Muotri. O laboratório onde ele atua treinou praticamente toda a primeira geração de pesquisadores em células-tronco pluripotentes humanas no Brasil. “Formamos mais de 30 pessoas, que estão espalhadas pelo país, tentando fazer pesquisa de ponta. Só conseguimos isso porque meu laboratório tem um vínculo positivo e parceria com o Brasil”, explica.
 

 
"Posso contribuir com minha experiência e desenvolver a ciência brasileira" Diogo Magnani, que pesquisa dengue e HIV na Universidade de Miami e está fora do país há sete anos
 
"Faltam verbas para infraestrutura e importação, o que dificulta a pesquisa" Alysson Muotri, professor de medicina na Universidade da Califórnia em San Diego, está fora do Brasil desde 2008


Meritocracia
Lucas Pinto, 29 anos, engrossa o time de cientistas que, por enquanto, se mantêm nos Estados Unidos. Ele nasceu lá, durante o doutorado do pai, mas foi na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) que iniciou sua formação. A escolha por um doutorado no exterior teve vários motivos, entre eles o fato de acreditar que, na área de neurociência, teria um aprendizado mais sólido e mais oportunidades.

Terminando o quarto ano de doutorado na Universidade da Califórnia, em Berkeley, considera o mecanismo de fomento norte-americano mais meritocrático. “O sistema brasileiro desfavorece os pesquisadores no começo de carreira. A distribuição de verbas para pesquisa precisa ser reformulada para ser mais baseada nos méritos científicos das propostas de financiamento e menos no nome dos pesquisadores”, sugere.

A mesma crítica vai para os indicadores de produtividade. Pinto vê com preocupação o fato de no Brasil o número de artigos publicados ter mais peso que a qualidade e o impacto das publicações. “Para financiamento, os pesquisadores são forçados a publicar artigos em grande quantidade, o que inevitavelmente dilui a contribuição de cada trabalho para a ciência. Outra diferença é a massa crítica de cientistas, muito maior nos EUA. Isso gera maior colaboração, ventilação de ideias e inserção na comunidade científica, o que é essencial, dado que a ciência é um esforço comunitário.
Valores criticados

O doutorado sanduíche, segunda modalidade mais atendida pelo Ciência sem Fronteiras, levou Matheus Pereira Porto, 30 anos, a uma das instituições de ensino mais consagradas do mundo: a Universidade da Califórnia, onde está desde outubro e se dedica a estudar refrigeração e armazenamento de energia renovável. Doutorando em engenharia mecânica pela UFMG, ele se impressiona com o empreendedorismo. “Aqui, há toda uma estrutura para fazer pesquisa ganhando dinheiro. Infelizmente, o Brasil ainda não está preparado para isso.” Ele e colegas veem falhas no programa, como a falta de plano de saúde para os beneficiados.

Em pós-doutoramento no Salk Institute for Biological Studies, na Califórnia, Maximiller Dal-Bianco Costa, 31 anos, reclama dos valores das bolsas. “Recebemos abaixo do mínimo exigido por lei para trabalhar aqui. Somos contratados com funções diferentes da que desempenhamos e aceitamos por ser uma oportunidade única. Está na hora de parar de justificar o ‘investimento na carreira’ como forma de pagar pouco. Como é que um profissional desenvolve experimentos caríssimos e recebe uma porção ínfima para seu sustento? Está errado”, desabafa Maximiller, doutor em ciências biológicas pela Universidade de São Paulo (USP).

Pessoalmente, ele quer voltar para o Brasil — exigência do Ciência sem Fronteiras —, profissionalmente, não. “A perspectiva aqui é muito melhor. É difícil pensar em voltar para um lugar com estrutura inferior. No entanto, existem o investimento colocado em nossas carreiras pelo governo e o retorno que podemos levar para o nosso país. O modelo do Ciência sem Fronteiras está funcionando bem, mas é só um pontapé inicial. O país terá que abrir mercado para abrigar essa nova geração de cientistas”, diz.

Em 2012, a aluna de farmácia Marina Santos, 24 anos, estudou na Universidade de Missouri, nos EUA, e fez um estágio na Amgen, uma das maiores empresas de biotecnologia do mundo. Constatou que as pesquisas nos Estados Unidos ocorrem de forma mais rápida e contam com muito mais recursos. “No Brasil, o processo ainda é burocrático e demorado. Se, por um lado, isso dificulta o desenvolvimento dos trabalhos, por outro, os brasileiros desenvolvem a ‘técnica do improviso’: saber se virar frente às dificuldades é essencial em um contexto de inovação. Percebi que os brasileiros têm maior experiência com relação à pesquisa do que um americano com o mesmo nível de escolaridade. A questão aqui é onde e como esse trabalho está sendo empregado”, acredita a bolsista de iniciação científica.

 
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