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Ciência

Férias no formigueiro

Segundo estudo norte-americano, formigas podem se beneficiar da pausa no trabalho. Ao investigar espécie que vive no deserto, especialistas concluíram que a interrupção da busca por alimentos em períodos quentes e secos ajuda a formar colônias mais numerosas

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postado em 18/05/2013 10:00 / atualizado em 17/05/2013 12:29

Publicação: 17/05/2013 04:00

As formigas-cortadeiras, observadas no estudo: habitantes do deserto do Novo México (Revista Nature/Divulgação) 
As formigas-cortadeiras, observadas no estudo: habitantes do deserto do Novo México

Quem diria que até as formigas dão uma pausa no serviço para curtir sombra e água fresca? E que o pretexto para a folga não é nada mais do que o calor fora do formigueiro? Pois essa é a conclusão de um estudo publicado na edição desta semana da revista Nature. Após observar o comportamento de uma espécie desses insetos, a bióloga Deborah Gordon, da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, constatou que a redução do ritmo da coleta de alimentos durante os períodos de temperatura mais alta beneficia a colônia, que pode se reproduzir mais e expandir o território. Em outras palavras, as formigas também têm seus dias de cigarra (leia Para saber mais) e o descanso é uma importante estratégia para a sobrevivência do formigueiro.

Gordon começou o trabalho em 1986, no deserto próximo à cidade de Rodeo, no estado do Novo México (EUA). Observando colônias da espécie Pogonomyrmex barbatus, conhecida como formiga-cortadeira, a biológa e sua equipe mediram periodicamente a frequência com que os insetos faziam suas coletas e compararam com a taxa de reprodução e com a expansão territorial da comunidade. As análises, finalizadas no ano passado, mostraram os benefícios da pausa no trabalho. “Colônias mais bem-sucedidas tendem a realizar menos a forragem (coleta) durante a seca e mostram atividade estável de forrageamento quando o tempo é mais úmido”, detalha a bióloga no estudo.

A pesquisa também mostrou que, ao regular essas atividades, os bichos se reproduziam mais. “Pode parecer surpreendente que o sucesso reprodutivo não esteja associado com alta atividade de colheita. Em grande parte da teoria de forrageamento, sempre trabalhamos com a premissa de que a quantidade de alimentos arrecadados está associada com alto sucesso reprodutivo”, ressalta a pesquisadora.

Gordon acrescenta que uma das explicações encontradas para o comportamento das formigas do Novo México é a necessidade de adaptação para dar continuidade à espécie. As pequenas operárias estariam buscando se preservar para permanecer no ambiente, e os resultados indicariam que a seleção natural está moldando o comportamento coletivo que regula a atividade de forragem.

Tropical
Para Odair Correa Bueno, biólogo da Universidade Estadual Paulista (Unesp), que não participou do estudo, o comportamento das formigas pode ser justificado pelo clima em que vivem. “Quando elas têm de sair para coletar alimentos, ficam expostas a situações extremas. Precisam voltar rapidamente. Ao se preservar, elas podem deixar mais descendentes”, avalia. Segundo Bueno, esse comportamento seria diferente em espécies das regiões tropicais. “Nesses lugares, elas trabalham muito por conta do clima, que é mais benéfico. Com a umidade, é mais fácil de se conviver” , destaca.

O pesquisador explica ainda que essas mudanças observadas podem ser justificadas por uma herança genética. “Durante o processo evolutivo, elas apresentaram essa capacidade de regular a atividade da sociedade. O comportamento que os insetos demonstram tem uma grande influência genética, que pode passar para os descendentes”, diz.

Carlos Arturo Navas, ecossociologista da Universidade de São Paulo (USP), explica a importância da observação dos pesquisadores de Stanford: “É difícil para as colônias se expandirem demograficamente. Elas precisam de muita energia. Por isso, o estudo de Gordon mostra algo relevante, que é a capacidade dessas formigas de se perpetuarem. Há uma seleção acontecendo. As que deixam mais descendentes permanecerão”.

Apesar das constatações científicas, a autora do estudo destaca que outros trabalhos ainda são necessários para garantir cientificamente que as formigas fazem poucas coletas por conta da temperatura e que esse hábito permanecerá por um período maior. “A seleção natural não está favorecendo o comportamento das colônias que enviam o maior número de formigas para obter o máximo de alimentos. Ela está regulando o forrageamento enquanto as condições são ruins. Acreditamos que isso possa prevalecer, mas precisamos seguir com os trabalhos”, escreve a pesquisadora, segundo quem muitas questões importantes foram levantadas. “O que está em evolução são as regras simples de como as formigas participam de uma rede, que regula os hábitos da colônia. Vamos continuar a estudar a evolução desse comportamento coletivo.”


"Colônias mais bem-sucedidas tendem a realizar menos a coleta durante a seca e mostram atividade estável quando o tempo é mais úmido”

Deborah Gordon,
bióloga da Universidade de Stanford

 

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