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Ciência

Ossos remodelados por proteínas

Estudo da PUC Minas é premiado pela principal publicação de ortodontia do mundo e busca compreender as influências celulares e moleculares no processo de formação óssea

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postado em 20/05/2013 19:00 / atualizado em 20/05/2013 12:32

Carolina Cotta /d


 (Arte Valf/EM/D. A Press) 
1- Força ortodôntica O aparelho exerce uma pressão mecânica que é transmitida para o osso  2- Força ortodôntica Para essa área de pressão, migram os osteoclastos, células responsáveis por destruir o osso e assim permitir que o dente se mova  2- Força ortodôntica Já para a área de tensão,  onde é preciso ser formado novo osso, migram os osteoblastos, células responsáveis por criar ossos 
1- Força ortodôntica O aparelho exerce uma pressão mecânica que é transmitida para o osso 2- Força ortodôntica Para essa área de pressão, migram os osteoclastos, células responsáveis por destruir o osso e assim permitir que o dente se mova 2- Força ortodôntica Já para a área de tensão, onde é preciso ser formado novo osso, migram os osteoblastos, células responsáveis por criar ossos

 

Belo Horizonte — Uma nova possibilidade de tratamento para a osteoporose e a artrite reumatoide pode vir da ortodontia. É de um grupo de dentistas e um médico a descoberta da importância de algumas proteínas na remodelação do tecido ósseo, constante processo de destruição (reabsorção) e formação do osso que ocorre em todo o organismo humano em função de ações da gravidade e de estímulos mecânicos ao corpo. Uma recente pesquisa desse grupo, fruto de uma colaboração entre a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e a Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas) foi eleita o melhor trabalho de 2012 na área e recebeu o prêmio Wayne G. Watson Award do American Journal of Orthodontics and Dentofacil Orthopedics, principal publicação de ortodontia do mundo.

Um dos autores do estudo, o mestre em ortodontia pela Marquette University (EUA) e doutor em biologia celular Ildeu Andrade Jr., estava na premiação e ministrou uma aula sobre o assunto no 113º Congresso Americano de Ortodontia, realizado no início do mês, na Philadelphia. A comunidade científica quer mais informações sobre a importância da ligação da proteína CCL2 ao seu receptor, CCR2, e sobre o impacto que o bloqueio dessa ligação pode causar na remodelação óssea. Segundo Andrade Jr., professor da PUC Minas, a descoberta aponta para a possibilidade da modulação do tratamento ortodôntico, com diminuição do tempo e maior estabilidade do resultado final. É grande também a contribuição para as doenças periodontais.

Instigado a compreender os processos celulares e moleculares envolvidos na remodelação do tecido ósseo desde o mestrado, o especialista já pesquisou várias proteínas que integram esse ciclo. Segundo ele, a remodelação é um processo constante que ocorre em todo o organismo, permitindo que o osso seja destruído e novamente formado. O mesmo ocorre no tratamento ortodôntico. “O aparelho exerce uma força mecânica sobre os dentes e esses a transmitem ao osso. Na área de pressão, o osso é destruído (reabsorção) e, na área de tensão, há uma nova formação de osso, a chamada neoformação. Assim, os dentes são movimentados, e o tratamento ortodôntico pode ser realizado.”

A reabsorção óssea é feita por células chamadas osteoclastos. Já os osteoblastos são as células responsáveis pela formação óssea. Andrade Jr. estuda as proteínas essenciais para o recrutamento, a diferenciação e a ativação desses dois tipos de células ósseas. “A maior parte dessas celulas circulam em nossa corrente sanguínea de forma primitiva e precisam ser tiradas dos vasos e atraídas paras as áreas do osso com necessidade de remodelação. Quando as células chegam nessas áreas, elas se diferenciam e se tranformam nessas células específicas, para serem, então, ativadas. Todo esse processo é realizado por proteínas, hormônios e fatores de crescimento específicos”, explica.

Tais proteínas, para exercerem suas funções, necessitam se conectar às células por meio de receptores. O da proteína CCL2 é o CCR2. No artigo premiado, Ildeu Andrade Jr., Silvana Taddei, Mauro Martins, Tarcília Silva, Celso Martins Júnior e Gustavo e Thiago Garlet mostram a importância dessa ligação para a remodelação óssea. Para que chegassem a essa conclusão, roedores foram modificados geneticamente para nascerem sem o receptor CCR2 da proteína CCL2. Esses animais formaram um dos grupos da amostra. O segundo recebeu um fármaco que bloqueia a atividade do CCR2. O terceiro grupo era composto por roedores normais.

Em todos eles, foi implantado um aparelho ortodôntico, aplicando assim uma força no osso ao redor dos dentes, gerando uma remodelação óssea. “Os resultados  mostraram que a ausência do receptor diminuiu o número de osteoclastos e sua função. Isso levou a uma redução drástica na remodelação do osso e, consequentemente, na movimentação do dente em que o aparelho foi colocado. Foi a primeira demonstração na literatura médico-odontológica da importância do receptor CCR2 durante a movimentação dentária”, defende o pesquisador.

» Palavra de especialista

Bons resultados clínicos

"O mecanismo de movimentação dentária em ortodontia é bastante complexo. Vários autores já estudaram a influência de medicamentos no processo de remodelação óssea que ocorre para que o dente se movimente. Porém, elucidações específicas como essa permitirão o desenvolvimento de meios para o profissional modular a adequada resposta sistêmica para a obtenção de bons resultados ortodônticos e a estabilidade desses a longo prazo."
Luciana Arcas, consultura científica da Associação Brasileira de Odontologia (ABO)

Esperança para doenças A descoberta extrapola a ortodontia e talvez seja essa sua maior contribuição. Mesmo tratando-se de uma pesquisa básica e ainda restrita ao modelo animal, a compreensão da ação da proteína e seu receptor traz uma perspectiva para o desenvolvimento de medicamentos que possam atuar em pacientes com doenças ósseas, como a osteoporose e a artrite reumatoide. Segundo Ildeu Andrade Jr., nelas, a taxa de reabsorção do osso pelos osteoclastos é muito maior que a taxa de formação óssea pelos osteoblastos. “O estudo mostra que, ao bloquearmos o receptor CCR2, há uma drástica diminuição na ativação dos osteoclastos e da perda óssea causada por essas doenças.”

São os benefícios para a ortodontia, no entanto, que mais chamam a atenção do especialista, afinal é essa sua área de atuação. Segundo ele, essa especialidade da odontologia tem buscado cada vez mais diminuir o tempo de tratamento com aparelhos fixos e móveis, hoje entre 18 e 24 meses, fazendo com que os dentes se movimentem mais rapidamente sem danos ao osso no qual eles estão inseridos e aos outros dentes que servem de suporte ou ancoragem (para um dente se movimentar, a força ortodôntica é apoiada em outro dente). Além disso, alternativas invasivas, como mini-implantes, são utilizadas para impedir a perda da ancoragem. A descoberta aponta para novas formas de chegar a esse mesmo efeito.

Futuro

“Hoje existe a possibilidade de injeção de citocinas para ativação de osteoclastos. Mas buscamos algo mais específico, que nos permita acelerar ou inibir o movimento dos dentes dependendo do planejamento. Quem sabe, em um futuro próximo, estaremos utilizando adesivos gengivais que liberam proteínas em locais específicos, recrutando mais osteoclastos ou impedindo sua diferenciação e sua ativação. Depois do tratamento ortodôntico, o paciente quer estabilidade, o corrigido não pode se modificar com o passar dos anos. Com novas abordagens baseadas na descoberta, poderemos diminuir o tempo de tratamento. Quem sabe, em cinco ou 10 anos, isso será uma realidade”, arrisca.

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