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Ciência

Cheiro de proteção

Pesquisadores da Universidade de São Paulo trabalham em uma vacina que dispensa o uso de agulhas e é aplicada diretamente na mucosa do nariz. Testado com sucesso em ratos, o método deve dar origem a imunizações em forma de spray ou nebulização

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postado em 22/05/2013 18:00 / atualizado em 22/05/2013 11:14

Se você tem medo de agulhas e sofre quando vai ao médico só de pensar nelas, uma boa notícia está por vir: a vacina nasal. Isso mesmo, uma forma de imunização que dispensa as seringas e protege com um simples jato de spray no nariz. O método está sendo desenvolvido por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e se mostrou viável em camundongos. Agora, os autores do trabalho pretendem realizar mais testes com animais e, depois, com humanos, para validar a eficiência e a segurança da nova forma de aplicação.

A vacina está sendo desenvolvida pelo biólogo Jony Yoshida e pelo professor da Faculdade de Ciências Farmacêuticas Marco Antônio Stephano. O segredo do método está na quitosana, um polímero feito a partir da quitina, substância abundante na casca de crustáceos. A quitosana faz com que a vacina grude na mucosa nasal e o antígeno (principal componente da imunização) seja absorvido pelo organismo.

“Tudo começou quando conheci o trabalho de uma professora que usava a quitosana como colírio. Vi que a substância é mucoaderente, biodegradável e ainda funciona como uma boa coadjuvante, pois induz a ação de medicamentos. Pensei que podíamos pegar esse material e criar uma forma de entrega ao sistema imunológico pela mucosa. Testamos e deu certo”, conta Stephano.

Para verificar a viabilidade do projeto, os dois aplicaram uma vacina contra a hepatite B em ratos, que foram divididos em grupos. Uma parte dos animais foi imunizada com injeções, enquanto outra recebeu uma primeira forma de vacina nasal. Ao analisar as cobaias, após 14 dias de espera (tempo necessário para que os anticorpos do organismo reajam à vacina), os pesquisadores constataram que o novo método teve o mesmo efeito protetor que as agulhadas.

“Manipulamos essa partícula para que ela ficasse suspensa em uma solução, que foi aplicada nas narinas dos ratos. Como a quitosana mergulha também na mucosa e gruda no nariz, ela cumpre com o efeito prometido, evitando que seja expelida por espirros ou engolida, o que geraria interferência dos ácidos do estômago”, detalha Yohsida.

Os resultados positivos abrem as portas para a pesquisa continuar. O próximo passo será desenvolver uma vacina contra a bactéria estreptococos tipo A, em conjunto com o Instituto do Coração (Incor). “Esse parasita é muito comum em casos de crianças com infecção de garganta. Quando desencadeado por essa bactéria, o quadro pode causar reumatismo. Queremos combatê-la com essa partícula de quitosana”, destaca Stephano. Outra etapa futura é a regulagem da dosagem da vacina. “Pretendo transformar a partícula em forma sólida, em pó, mais precisamente, já que essa seria a melhor forma de controlar a dosagem. Acredito que mais experimentos em animais, por uns dois anos, serão o suficiente, depois pretendemos começar os testes com seres humanos, em parceria com alguma empresa”, destaca o professor.

A partícula feita de quitosana possui algumas vantagens para o uso médico. A primeira é a mais óbvia: dispensar o uso de agulhas. Os autores do trabalho acreditam que ela poderia ser aplicada na forma de spray ou nebulização. “Queremos que esse método seja usado também em outras vacinas, já que muita gente tem medo de injeções. Fora que as agulhas possuem um risco de transmissão de doenças alto se não forem utilizadas da maneira certa. Essa forma de aplicação acabaria com esse problema”, detalha Yohsida. Além disso, o custo de produção é baixo, pois a quitosana é facilmente extraída a partir do exoesqueleto de animais como camarões e caranguejos.

Tendência

A médica infectologista Sylvia Lemos Hinrichsen, professora da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), explica que já existem pesquisas, fora do país, com vacinas contra a gripe e a pneumonia também aplicadas por via nasal. Para ela, a tendência é que o Brasil siga essa linha de desenvolvimento, mas é necessário aumentar o número de cientistas envolvidos na área. “Pela importância de sua estrutura científica e tecnológica, o Brasil deve aumentar a participação nos processos de desenvolvimento de novas vacinas e na avaliação de sua eficácia, envolvendo maior número de pesquisadores e tecnologistas. Porém, o desenvolvimento de novas vacinas constitui um investimento elevado e exige a participação de equipes multidisciplinares, desde os níveis de bancada à avaliação no campo”, destaca.

A pesquisadora também ressalta que a possibilidade de associar o maior número possível de antígenos a serem aplicados em uma única dose de vacina vem sendo avaliada por todos os grandes produtores. “O crescimento demográfico e a dificuldade de se repetirem vacinações sucessivas nos mesmos segmentos populacionais têm levado a diversas propostas com o objetivo de se chegar a uma vacina multivalente, incorporando na mesma dose todos os antígenos protetores utilizados na imunização básica”, complementa a infectologista.

 

Tudo começou quando conheci o trabalho que usava a quitosana como colírio. Vi que a substância é mucoaderente, biodegradável e ainda funciona
como uma boa coadjuvante, pois induz a ação de medicamentos. Testamos e deu certo”


Marco Antônio Stephano,
professor da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP

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