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Tecnologia

O celular quebrou? Conserte

Especialistas alertam que o consumo desenfreado de telefones acarreta prejuízo imenso ao meio ambiente. Para ser fabricado, cada aparelho consome 75kg de matéria-prima

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postado em 27/05/2013 18:00 / atualizado em 27/05/2013 12:06

Roberta Machado

Quanto tempo dura um telefone celular? Se bem cuidado, pode funcionar por até uma década. O problema é que, enquanto a tela quebrada ou a bateria viciada são problemas facilmente contornáveis, frear a vontade de adquirir o último lançamento parece ser uma questão bem mais difícil. Para muitas pessoas, por exemplo, a satisfação de portar um iPhone 4S durou exatamente 13 meses, período que se passou entre o lançamento do modelo e o da geração seguinte do smartphone.

Uma pesquisa encomendada pela ONG Consumer Reports, nos Estados Unidos, apontou que 40% dos usuários de celular trocam de aparelhos por ano. Um quinto deles aponta como motivo da substituição a bateria ineficiente do modelo antigo. Já um terço admite que procura funções mais modernas nos gadgets. Esse hábito faz com que o tempo médio de uso de um telefone despenque para 18 meses, um período que praticamente acompanha os lançamentos dos principais fabricantes.

Quem perde com o troca-troca, obviamente, não são as empresas, que conseguiram vender 1,75 bilhão de equipamentos somente no ano passado. Para o consumidor, o prejuízo não é tão grande. Logo ele descobre que é mais fácil (e satisfatório) gastar alguns tostões extras para comprar um novo telefone do que correr atrás do conserto. A conta, portanto, fica com o meio ambiente, que fornece a matéria-prima para a fabricação de todos esses aparelhos e termina com toneladas de lixo eletrônico contaminando o solo de aterros.

Esse impacto negativo poderia ser muito menor se consumidores e fabricantes investissem na reparabilidade dos celulares. A constatação é dos especialistas do Instituto de Engenheiros Eletricistas e Eletrônicos (IEEE), que apontam mudanças de design que podem facilitar o processo de fabricação desses aparelhos e garantir uma durabilidade muito maior. O dano à natureza, afirmam os engenheiros, pode ser reduzido em 40% se cada pessoa mantiver o celular funcionando por quatro anos.

Um dos problemas dos aparelhos atuais, apontam os especialistas do IEEE, está no design fino e clean, que esconde peças coladas, parafusos inacessíveis e baterias incubadas — um desafio para usuários e até mesmo técnicos que queiram manter a máquina funcionando quando uma parte para de funcionar. “O design é uma desculpa para os fabricantes. Um dispositivo perfeito seria aquele relativamente barato de reparar, fácil de desmontar e com um manual de serviço disponível”, explica Kyle Wiens, membro do instituto e fundador da iFixit, empresa que cria manuais de reparo não oficiais.

Reciclagem
Mesmo que o aparelho seja devidamente reciclado, o impacto causado pela fabricação de um smartphone é dificilmente reversível. Cada dispositivo consome 75kg de matéria-prima, além de poluir o ar com gases resultantes do transporte e do uso do produto (veja infografia). De acordo com Kyle Wiens, um aparelho gasta mais energia durante a produção do que nas recargas que recebe durante toda a vida útil. “Produzir eletrônicos consome uma quantidade tremenda de recursos, e é crítico que façamos o maior uso possível deles para minimizar o impacto ambiental”, alerta.

Outra opção é recorrer ao comércio de aparelhos usados, seja na venda para reparo ou reciclagem ou na aquisição de modelos antigos ainda em funcionamento. A organização norte-americana ReCellular recebe anualmente 2 milhões de telefones usados, conserta os que estão em bom estado e os devolve ao mercado. Nem todos estão quebrados quando chegam à empresa. “Quando estão, costuma ser dano causado por água  ou a tela de LCD quebrada”, enumera o presidente da companhia, Steve Manning.

Os proprietários originais vendem como lixo equipamentos que podem ser recuperados facilmente. O reparo, aponta ele, usa partes novas e usadas, dependendo dos suprimentos disponíveis e do custo da operação.  Assim, a empresa consegue vender equipamentos com tecnologia atual por um preço menor que uma promoção de fast-food, graças a alguns arranhões.

O maior obstáculo para o conserto dos telefones móveis está no bolso. Programas de fidelidade escondem o preço dos aparelhos em mensalidades ou até mesmo entregam o celular de graça, enquanto a compra de uma simples bateria é um desafio. Uma rápida busca nos sites de venda oficiais da Samsung e da Apple revela que a carga padrão do Galaxy S custa um quinto do preço do aparelho, enquanto a empresa da maçã nem ao menos comercializa a peça em sua página virtual.

Vida curta
“Fabricantes usam artifícios, porque a evolução tecnológica é muito grande na área de eletrônicos. Os produtos se modernizam a cada dia, e o que não está modernizado se perde”, avalia José Fernando Jucá, especialista em resíduos sólidos e professor de Engenharia Civil da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). “Celulares são feitos para descarte rápido. Os materiais são concebidos para ter uma meia-vida muito curta”, critica. E a tática funciona. Estima-se que o mercado de telefonia móvel continua a crescer 1,4% ao ano, um ritmo que deve resultar até o fim do ano num volume de celulares maior do que a população mundial. Se cada um dos 6 bilhões de aparelhos já fabricados estivesse em uso, alertou a Organização das Nações Unidas em março, haveria mais gente falando ao telefone do que as 4,5 bilhões de pessoas com acesso ao saneamento básico.

O número talvez surpreenda, mas especialistas apontam que ele pode ser ainda maior, se forem contados os dados da indústria pirata, que não estão no ciclo rastreável. A especialista Maria Vitória Ferrari, coordenadora do Núcleo da Agenda Ambiental da Universidade de Brasília (UnB), avalia que a bola de neve de consumo (pirata ou oficial) pode ser freada com novas leis, políticas públicas, iniciativas dos fabricantes e atitudes dos consumidores. “Enquanto houver alguém vendendo alguma coisa e alguém disposto a comprar, vai existir uma relação comercial”, resume a professora de engenharia de energia da UnB. “Se as pessoas têm mais informações e começam a pressionar os fabricantes, a mudança é iniciada. Não é fácil, exige amadurecimento”, observa.
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