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Diferentes estudos mostram que, quando usado com moderação, o Facebook pode fortalecer amizades iniciadas fora do ambiente virtual e elevar a autoestima. O excesso, contudo, é prejudicial

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postado em 29/05/2013 18:00 / atualizado em 29/05/2013 11:52

Roberta Machado


 
"Deixo de ver tevê ou de fazer outra coisa para ver o Facebook. Acho que relaxa" Ludmila Honorato, concurseira

Poucos sites merecem tanta atenção como o Facebook. Pessoas no mundo inteiro são capazes de passar até algumas horas conectadas à rede social, trocando mensagens com amigos, vendo fotos e comentários postados por familiares ou acessando links sugeridos por colegas do trabalho. No Brasil não é diferente. Levantamento feito pela Serasa Experian, durante o mês passado, cada internauta do país passou, em média, 28 minutos explorando o espaço virtual. Tempo maior do que o dedicado a outros campeões de audiência on-line, como o YouTube (22 minutos aproximadamente).

Tanto interesse faz com que o portal mereça a atenção de cientistas, decididos a decifrar o impacto da rede na vida das pessoas. E o que estudos recentes mostram é que o Facebook é uma ferramenta que precisa ser manejada com cuidado. Não são raros os casos de pessoas que têm dificuldade de passar um tempo sem entrar no site ou se sentem mal ao comparar a vida com a dos outros (leia mais abaixo). Mas a criação de Mark Zuckerberg pode também ser benéfica para aqueles que a utilizam com moderação. Pesquisadores acreditam que, sem excessos, o portal pode aumentar a autoestima, ajudar a relaxar e fortalecer as amizades iniciadas na vida real.

“O Facebook dá às pessoas um senso de pertencimento, de comunidade, de ser socialmente incluído”, enumera Kevin Johston, autor de um estudo conduzido com estudantes da Universidade da Cidade do Cabo, na África do Sul. Depois de aplicar questionários em alunos da instituição, Johston verificou que a rede social se tornou essencial para manter contato com pessoas mais distantes e fortalecer os laços de amizade mais próximos. As pessoas que usam a rede, conclui a pesquisa, tendem a ter relações mais fortes com seus amigos, com quem podem trocar mensagens e compartilhar informações com frequência.

É principalmente para manter contato com as amigas que a comunicóloga Marianna Domenici, 25 anos, usa o espaço on-line. “É uma forma de comunicação. A gente, hoje em dia, não tem tempo para telefonar, mas todo mundo trabalha na frente do computador. Fica mais fácil mandar mensagem”, explica. A página fica aberta o dia todo no computador de Marianna, pronta para ser acessada sempre que um número vermelho acusa uma novidade. Dessa forma, ela já coleciona mais de 1,2 mil amigos na rede — todos conhecidos de verdade, ela garante. Na lista, estão pessoas que ela vê regularmente, familiares e até mesmo gente com quem conviveu anos atrás.

Relaxamento
Amiga de Marianna, Ludmila Honorato, 27 anos, perde a conta de quantas vezes confere o perfil virtual diariamente, à procura de novidades sobre os amigos. Além disso, acessar a rede é, para ela, uma atividade reservada para as pausas de lazer. “Deixo de ver tevê ou de fazer outra coisa para ver o Facebook. Acho que relaxa”, diz Ludmila.

Esse sentimento positivo descrito pela concurseira foi traduzido em termos mais precisos por pesquisadores italianos que tentaram medir os efeitos da comunidade virtual no humor de jovens. Um grupo de 30 estudantes teve os sinais das pupilas, da pele, da respiração, das ondas cerebrais e das batidas cardíacas medidos enquanto acessavam seu perfil na rede, e os resultados foram comparados com sessões de relaxamento e de estresse. Em apenas três minutos, o uso do Facebook provou ser um gatilho que ativa uma série de emoções positivas semelhantes ao uso de um videogame ou a um programa cativante.

As atividades cerebrais mostraram que o uso do site atraía um alto nível de atenção dos usuários, mas sem exigir grande esforço. Ao mesmo tempo, outros sinais corporais acusavam um estado de excitação agradável — os sensores ligados ao rosto, por exemplo, mostraram que a atividade era tão agradável como o momento de relaxamento. “Em geral, é um benefício. O uso do Facebook causa emoções diferentes, e isso é uma experiência positiva que leva pessoas a querer repeti-la”, explica o psicólogo Maurizio Mauti, do Instituto de Ciências Ambientais, Humanas e de Linguagem da Universidade de Línguas e Comunicações de Milão (IULM, na sigla em italiano).

Imagem positiva


 
"É um tipo de aproximação. Acho que todo mundo se sente bem. Se muita gente curtiu a foto e comenta, a gente gosta" Jessica de Almeida, publicitária
Construir uma imagem na rede também tem efeito em como a pessoa vê a si mesma. Uma pesquisa conduzida na Universidade de Georgia mediu os níveis de autoestima de estudantes que editavam a página no MySpace (rede social centrada principalmente em conteúdo musical) e de jovens que dedicavam alguns minutos acessando o Facebook. Enquanto a primeira página pareceu ativar níveis maiores de narcisismo nos internautas, o site de Zuckerberg alimentou os voluntários com doses de autoestima. Na época, o MySpace limitava-se à exibição de informações pessoais, com uma interação bastante limitada entre as páginas.

Para a autora do trabalho, Brittany Gentile, os comentários e o botão curtir do Facebook têm um papel importante nesse processo de imagem positiva. Isso significa que a página não seria de grande ajuda para internautas com tendências antissociais, mas um reforço para as relações agradáveis construídas fora da rede. “Pessoas que já gostam de si mesmas têm uma tendência a ser positivas, provocando uma resposta melhor dos outros. Se você posta um status e ninguém comenta, isso manda uma mensagem bastante específica sobre o conteúdo que você gerou”, compara Brittany. Para aqueles que se incomodam com as boas notícias alheias ou estão insatisfeitos com a própria vida, a página certamente causaria mau humor.

Outro estudo, que será publicado no Journal of Consumer Research do próximo mês, também ressalta que não há felicidade virtual que não esteja fundamentada em uma vida real igualmente positiva. As pessoas que ganham mais autoestima no site, aponta a pesquisa, são os que cultivam fortes laços de amizade fora da rede. “Acho que o efeito ocorre porque pessoas são expostas a coisas positivas que seus amigos próximos estão fazendo e dizendo no Facebook. Isso os faz sentir mais socialmente conectados de uma forma positiva com bons amigos”, avalia o professor da Universidade de Pittsburgh Andrew Stephen, autor do estudo. As curtidas e comentários seriam equivalentes, de acordo com o especialista, a elogios ou realizações ocorridas em interações com amigos off-line.

O impulso positivo acaba ganhando força na internet devido à seleção das coisas que vão parar na rede, que filtram conteúdos negativos. O que costuma sobrar no Facebook são elogios, boas lembranças e frases de apoio que fazem as pessoas se sentirem bem. A publicitária Jessica Morgana de Almeida, 26 anos, escolhe com cuidado as fotos que posta na rede social e aprecia os comentários sobre suas qualidades, mas acredita que a autoestima não está apenas em mostrar imagens de si mesma, mas em usar esse recurso para se relacionar com os amigos pela internet. “Dependendo do que posto, eles comentam, dizem que ficou legal, ou bonito, e eu respondo. É um tipo de aproximação. Acho que todo mundo se sente bem. Se muita gente curtiu a foto e comenta, a gente gosta”, resume
Os perigos de bisbilhotar os outros

O grande atrativo do Facebook está em oferecer a alegria daquela festa ou o papo da mesa de bar com as pessoas mais queridas de uma forma instantânea, sem a confusão de marcar encontros diários. Mas acompanhar a vida dos colegas o tempo todo, em qualquer lugar, pode ser uma armadilha perigosa. Um cientista social do Reino Unido se dedicou a explicar como a curiosidade pela vida alheia se torna uma compulsão e criou o termo fear of missing out (expressão que ele denomina de Fomo e pode ser traduzida como “medo de perder”). Para Andy Przybylski, da Universidade de Essex, a principal força que leva ao uso das mídias sociais é a vontade incontrolável de saber o que os outros estão fazendo, não por bisbilhotagem, mas por temer a exclusão das atividades que acabam indo parar na internet.

O Fomo, aponta o cientista, é mais grave em pessoas que sentem falta da conectividade com os outros e acaba se manifestando com força em jovens. Se não for controlado, o problema resulta em emoções exageradas, como ondas de grande alegria ao se sentir incluído em uma conversa no site ou uma terrível frustração ao ver que os amigos foram para aquela festa sem você. “Pergunte a si mesmo se você usa a mídia social por que você quer ou por que você precisa. Se você sentir que o uso da mídia social é uma coisa compulsiva, que não é divertida, é um sinal de aviso”, aconselha Przybylski.

A compulsão pode acabar afetando de forma negativa a produtividade, o humor e até mesmo a vida social dos internautas. A boa notícia é que, quando isso acontece, muitos internautas encontram uma forma de diminuir o ritmo. Um estudo realizado na Universidade de Cornell, nos Estados Unidos, mostra que um terço dos usuários tiram férias da rede ao desativar suas contas. Um décimo ainda tenta cortar definitivamente os laços com o site ao deletar seus perfis, mas o questionário feito com alunos universitários mostra que 15% deles acabam criando uma nova página para voltar ao Facebook. “Muitos fizeram isso por pressão da família ou amigos”, explica Eric Baumer, autor do trabalho.

Baumer ainda conta que as pessoas que tentavam dar uma pausa nas relações virtuais tinham de recorrer a métodos agressivos para se manter longe da página. Alguns passavam a senha para amigos, outros usavam browsers que bloqueavam o site. Tudo para evitar desentendimentos com amigos, contato com ex-parceiros ou problemas no ambiente de trabalho. “Mas muitas das pessoas que retornaram ao Facebook disseram que passaram a usar o site de forma diferente, frequentemente removendo dúzias e até centenas de amigos”, ressalta. (RM)

 
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"Pergunte a si mesmo se você usa a mídia social por que você quer ou por que você precisa. Se você sentir que o uso da mídia social é uma coisa compulsiva, que não é divertida, é um sinal de aviso”

Andy Przybylski,

pesquisador da Universidade de Essex

 

 
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