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Em defesa do pato-mergulhão

Programa criado em Minas Gerais busca evitar a extinção da ave na Serra da Canastra, onde vive a maior parte dos cerca de 250 exemplares que restam na natureza

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postado em 03/06/2013 18:00 / atualizado em 03/06/2013 12:23


A espécie vive apenas em rios d» Humberto Siqueira ( Jair Amaral/EM/D.A Press ) 
A espécie vive apenas em rios d» Humberto Siqueira


Belo Horizonte — Ele é tão raro que poucas pessoas se dão conta de sua existência. O pato-mergulhão (Mergus octosetaceus) já viveu na Argentina, no Paraguai e no Brasil, mas, hoje, os últimos 250 indivíduos da espécie se dividem entre a Serra da Canastra (MG), onde existem em maior quantidade, a Chapada dos Veadeiros (GO) e a do Jalapão (TO). Por isso, é considerado uma das 10 aves mais ameaçadas de extinção no mundo.

O que levou o animal a uma situação tão preocupante não foi a caça, mas a perda de hábitat, que acabou deixando-o encurralado nessas áreas do território nacional. Para evitar a extinção, a organização não governamental Instituto Terra Brasilis, com sede em Minas Gerais, criou o Programa Pato-Mergulhão, com estratégia ambiental específica para estudar a ave e sensibilizar a população e produtores rurais. Conforme explica a coordenadora do programa, Lívia Lins, a espécie vive apenas em rios de água corrente limpa. “Isso porque ela se alimenta basicamente de peixes. E precisa mergulhar com condições de enxergar a presa. Como boa parte dos rios brasileiros está poluída, o pato perdeu espaço”, explica.

Conscientizar a população que vive no entorno da Serra da Canastra quanto à importância da preservação dos recursos hídricos da região é um dos tripés do programa, que visa ainda ao estudo biológico e comportamental do pato e à orientação das melhores práticas de manejo de solo e recursos hídricos dos produtores rurais. Lívia esclarece que a pesquisa objetiva gerar conhecimento. “Temos poucos registros da espécie, até porque é um animal que vive solitário ou apenas com um parceiro. Nunca foi um animal fácil de ser encontrado”, afirma.

A primeira ação executada pelo Terra Brasilis foi diagnosticar onde havia a espécie na Serra da Canastra. O conhecimento anterior era da ocorrência em seis trechos de rios. Lívia diz que já foram diagnosticados cerca de 60 territórios onde a ave está na região. “É um trabalho muito desafiador, mas conseguimos avanços importantes. Nosso segundo passo foi acompanhar a rotina de vida das aves para entender melhor sua reprodução, seu convívio no hábitat e suas peculiaridades em geral”, acrescenta.

Ao localizar um ninho de pato-mergulhão, a equipe quebrou um tabu que perdurava desde 1951. O último a ser descoberto foi naquela época, na Argentina, em um tronco oco de árvore. Os biólogos também identificaram um novo ambiente onde a espécie deposita ovos — uma fenda num paredão de rocha. “Isso abriu uma nova perspectiva de busca de ninhos. Aprendemos como e onde procurar esses locais e começamos a estudar ainda os filhotes e as famílias inteiras do animal”, comenta Lívia, que trabalha ainda pela recuperação de áreas degradadas e proteção de mata ciliares, com o intuito de proteger as nascentes.

Radar

Com a captura das aves, implantação de anilhas e radiotransmissores nos indivíduos para monitoramento mais rigoroso, rastreamento e acompanhamento dos deslocamentos, foi possível identificar alguns hábitos do pato-mergulhão. “Um único casal demanda de 5km a 12km de rio para viver. Daí se percebe que, para aumentar a população, será preciso ter longas extensões de água corrente e limpa. Também pudemos constatar que eles reutilizam o ninho e chegam a ter até oito filhotes numa postura, com período de encubação entre 30 e 33 dias. Os patos já nascem aptos a nadar, mas, desses jovens, apenas dois ou três vão chegar à vida adulta”, lamenta. E o mergulhão é fiel ao parceiro. “Pudemos perceber que os casais sempre ficam juntos. Só mudam de parceiro se um dos dois morre.”

Buscando facilitar a vida dos casais e aumentar as chances de reprodução, o Terra Brasilis idealizou caixas-ninho para instalar na região. “Ainda não temos certeza se vai funcionar. Mas pensamos num ninho com características próximas às que eles buscam na natureza. Depois desse período de reprodução, que ocorre entre maio e setembro, é que saberemos a eficácia dessa estratégia.” Até os seis meses, os filhotes ficam com os pais. O que ocorre depois e para onde vão quando se dispersam são questões ainda a serem respondidas pelas pesquisas.

A condição de preservação da espécie, que precisa de água limpa, também é importante para os seres humanos. O trabalho se iniciou com a distribuição de calendários em estabelecimentos comerciais e produtores rurais, explicando o hábito de vida da espécie e a importância do auxílio da população no cuidado com as águas, o solo e a vegetação. “Procuramos mostrar nas escolas e comunidades essa relação de benefício mútuo. Mas, nem sempre, o saber gera um comportamento adequado. Temos pessoas completamente cientes dos cuidados necessários, mas que continuam levando gado até o rio. O convencimento é um trabalho longo”, afirma.

Nas escolas, mais de 1,5 mil crianças assistiram a teatros infantis e palestras de conscientização. “Fizemos oficinas e um material didático voltado para os professores para que o assunto pato-mergulhão estivesse também dentro de sala de aula”, ressalta Lívia.e água corrente limpa. Como boa parte dos rios está poluída, o pato perdeu espaço"


Lívia Lins, coordenadora do Programa Pato-Mergulhão


Características da ave
» Destaca-se o longo penacho nucal e os pés vermelhos; tem bico negro, longo, estreito e serrilhado nas bordas. Cabeça e pescoço escuros, com reflexos verde-metalizados.

» É uma ave delgada, com comprimento total entre 48cm e 55cm e peso médio de 800g.

» Alimenta-se principalmente de peixes e de invertebrados aquáticos. Na Serra da Canastra, seu principal alimento é o lambari.
Os peixes são capturados nos mergulhos,
que podem durar até 30 segundos.

» O pato-mergulhão é extremamente sensível à degradação e perda de seu ambiente natural. Por isso, é considerado um bom indicador da qualidade dos ambientes aquáticos.

» Entre as principais ameaças à espécie estão:

destruição de matas ciliares, perda de árvores de maior porte e degradação das margens e dos leitos dos cursos d’água;

uso de pesticidas nas pastagens e lavouras que são carregados para os cursos d’água;

a mineração, que impacta diretamente os cursos d’água e, consequentemente, a fauna associada;

construção de barragens, que modificam profundamente os ambientes aquáticos;

e atividades esportivas mal planejadas realizadas ao longo dos cursos d’água.

Fonte: Instituto Terra Brasilis





Três perguntas para
Daniel Vilela,veterinário e analista ambiental do Ibama

Existem muitas outras aves correndo o risco de ser extintas?
São mais de 170 aves ameaçadas de extinção no Brasil. Entre elas, algumas espécies de beija-flores, arapaçus, pica-paus, araras, papagaios e albatrozes. Dividimos a lista entre animais vulneráveis, ameaçados e criticamente ameaçados, que fatalmente serão extintos se nada for feito. Quando temos meios para agir, muitas vezes o resultado vem. Conseguimos, por exemplo, rebaixar a classificação da arara-azul-de-lear de criticamente ameaçada para ameaçada.

Qual é o impacto do tráfico de animais?
Depois da destruição do hábitat dos animais, essa é a maior preocupação. Para se ter uma ideia, o Ibama apreende entre 70 mil e 100 mil animais sendo traficados por ano. Considerando que essa amostra é pequena, e a grande maioria é traficada, dá para imaginar o prejuízo para a fauna brasileira. As aves são particularmente prejudicadas por serem mantidas em gaiola pela beleza, como a ararinha-de-peito-roxo, ou pelo canto, a exemplo do curió. O curió, aliás, está praticamente extinto na natureza. A população é maior em cativeiro.

Quais são os desafios para aumentar a população das espécies em risco?
O maior desafio é a proteção efetiva do hábitat das espécies. O que passa, entre outras medidas, pela criação de mais áreas protegidas e unidades de conservação. Na questão do tráfico, uma alternativa é a criação comercial legalizada. Assim, a pessoa que deseja muito ter o animal em casa pode comprá-lo de forma legalizada. A repressão aos traficantes também precisa aumentar. Até nas redes sociais são oferecidos esses animais retirados ilegalmente da natureza. Assim como conscientizar as pessoas de não comprarem os animais em hipótese alguma. Muita gente compra por dó. Mas o traficante sabe disso e usa desse apelo. Se você vir alguém vendendo, o melhor é ligar imediatamente para a polícia. Se os animais forem recapturados, poderão ser tratados e, em alguns casos, reinseridos na natureza. Quem já comprou e se arrependeu, precisa saber que pode ligar para o Ibama e agendar a entrega voluntária do animal que não será penalizado.
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