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Correio Braziliense

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Sob a farda, um professor Pardal

Policial militar do Gama ganhou o nome do personagem de Walt Disney pela capacidade de produzir peças com resíduos descartados no lixo. Agora, ele promete colocar no Lago Paranoá um barco-bicicleta, construído com PET

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postado em 04/06/2013 11:41 / atualizado em 04/06/2013 11:44

A cabeça do policial militar Francimar Barbosa, 42 anos, fervilha de criatividade. Nas horas vagas, ele troca a farda pelo avental de torneiro mecânico e pelos óculos de segurança, hábito que já lhe rendeu o apelido de professor Pardal do Gama, em alusão ao personagem da Walt Disney que tinha paixão por inventar. A diversão do inventor do cerrado é produzir bicicletas estilizadas e esculturas em ferro e madeira. Seu mais recente projeto, ainda em fase de execução, é um barco feito de garrafas PET. Assim que estiver pronto, o homem pretende colocar a embarcação para navegar pelo Lago Paranoá.

Ao contrário das lanchas luxuosas que circulam pelas águas do Paranoá, o modelo imaginado pelo PM usa a força das pernas dos dois tripulantes para se mover, como se pedalassem uma bicicleta. Cada pedalada equivale a nove voltas na hélice localizada na parte posterior do barco. Ele estima que a engenhoca atinja uma velocidade de até 15km/h. Além da coroa, da catraca e da corrente, a estrutura consiste também de uma base em que são fixados os bancos — duas cadeiras de escritório — e o compartimento em que serão colocados os cerca de 100 recipientes de plástico.

A fragilidade do veículo é apenas aparente. Francimar explica que cada PET suporta cerca de 49kg. “O barco tripulado deve pesar 90kg, e o projeto prevê capacidade para suportar até 4,9 toneladas. Temos aí uma boa margem de segurança”, conta. A ideia nasceu da vontade constante de se superar, segundo Barbosa. “Eu tô sempre em busca de desafios. Como já domino as bicicletas terrestres, pensei em um projeto para a água. É minha primeira tentativa”, diz.

Toda a técnica exigida na empreitada foi aprendida em cursos. Com equipamentos de oficinas de serralheria, marcenaria e tornearia em casa, o que não falta a ele são motivos para colocar os conhecimentos em prática. “Estou sempre mexendo com alguma coisa”, afirma. Trata-se de um hábito cultivado desde criança. “Na escola, a melhor época era quando tinha feira de ciências. Não havia nada melhor do que me envolver em um projeto do início ao fim, pensar em todos os detalhes”, lembra.

O interesse parece estar nos genes e foi plenamente transmitido ao filho mais velho de Francimar, Mairon Barbosa, 14 anos. O estudante revela que seu sonho é trabalhar com mecatrônica, caminho que está traçando desde já. “Gosto muito de robótica e estou começando a participar de competições do ramo”, alega. Tímido, o garoto muda totalmente de expressão quando fala dos protótipos feitos pelo pai, da produção na qual teve participação ativa. As poucas palavras de antes são substituídas por explicações completas e claras sobre cada modelo.

A escolha dos materiais também não foi aleatória. A proposta do morador do Gama é dar vida ao que é considerado lixo. Por isso, a parte metálica do protótipo foi reaproveitada de tubos descartados na vizinhança. Barbosa recolhe os insumos em terrenos baldios e em ferros-velhos da cidade. Ele é o primeiro a dar exemplo e reutiliza tudo aquilo que usa para dar forma a seus inventos. Com Barbosa, nada se perde.

Reciclagem
Não à toa, a sustentabilidade virou sua marca registrada. O quadriciclo de 4,62m — que lhe rendeu o prêmio de maior bicicleta construída no Brasil — e os rostos de artistas, como Amy Winehouse, Slash e Marilyn Monroe, esculpidos em MDF, são exemplos disso. “Eu quero passar a mensagem de que é importante reciclar para proteger o planeta. Nós temos responsabilidade sobre tudo aquilo que descartamos na natureza”, afirma.

Quanto ao barco-bicicleta aquático, além da mensagem de sustentabilidade, Francimar ainda tem a intenção de dar uma leve cutucada nos grã-finos donos de iate. “Eu quero colocá-lo para andar ao lado das embarcações ricas. Quero fazer uma brincadeira com eles”, diz. Ciente de que cada um trabalha com os recursos que tem, o criativo PM é pé no chão. “Eu não posso competir com o dinheiro deles, mas posso com a criatividade. Quero instigá-los com minha capacidade imaginativa”, brinca.

“Eu tô sempre em busca de desafios. Como já domino as bicicletas terrestres, pensei em um projeto para a água. É minha primeira tentativa”
Francimar Barbosa, 42 anos, policial militar
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