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Ciência

De olho nas explosões solares

Brasil integra grupo de monitoramento do fenômeno, que, dependendo da intensidade, pode afetar o funcionamento de sistemas eletrônicos, meios de comunicação, aeronaves e aparelhos de GPS

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postado em 10/06/2013 18:00 / atualizado em 10/06/2013 10:41

Celina Aquino


 


Belo Horizonte — Foi em 1859 que ocorreu a explosão solar considerada a maior da história. O fenômeno, porém, passou desapercebido por grande parte da população mundial, já que, na época, não havia vida tecnológica. Se outra tempestade magnética daquela magnitude viesse novamente em direção à Terra, a realidade poderia ser bem diferente. Estima-se que a radiação afetaria os satélites em órbita e prejudicaria a comunicação, tanto do piloto no comando de uma aeronave quando do cidadão comum na internet. Para que seja possível minimizar os impactos de uma explosão solar, entrou este ano em funcionamento o Centro de Previsão do Clima Espacial (Embrace), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em São José dos Campos, interior de São Paulo, único da América Latina. “Daqui a 10 anos, saber se existe uma área ativa no Sol ou uma nuvem magnética a caminho da Terra vai ser tão corriqueiro quanto buscar informação de chuva”, antecipa o cientista do Inpe Clezio Marcos De Nardin.

As explosões solares são fenômenos naturais bastante comuns. Registra-se pelo menos uma, sem maiores consequências, a cada semana. O que a ciência ainda não conseguiu concluir é se há um ciclo de superexplosões, como a ocorrida no século 19. “Alguns cientistas acreditam que elas podem se repetir, apesar de a história passada não ser garantia de futuro, cientificamente. Mas acho bastante provável que venha a ocorrer de novo, pois as características do Sol realmente se repetem”, pontua De Nardin, que preside a Associação Brasileira de Geofísica Espacial e Aeronomia (estudo da física e da química da alta atmosfera neutra e ionizada). Inglaterra e Estados Unidos desenvolvem estudos para avaliar os impactos de uma possível explosão como a de 1859 e criar um plano de ação. A preocupação é com o efeito das partículas arremessadas pelo Sol nas linhas de transmissão, o que pode provocar um apagão, como ocorreu no Canadá, em 1989. Naquele ano, uma tempestade magnética queimou transformadores e deixou Montreal sem energia elétrica por quase um dia inteiro, causando grande prejuízo econômico.

Por enquanto, o Brasil investe em tecnologia para monitorar as explosões solares. Desde 2007, foram incorporados ao programa de previsão do Embrace equipamentos em 80 cidades brasileiras e, mais recentemente, construiu-se em São José dos Campos (SP) o prédio que reúne uma equipe de 50 especialistas, doutores nas áreas de astrofísica, geofísica espacial e informática. “O centro tem que ser encarado como um plano de saúde: você tem, mas não quer usar. Se realmente ocorrer uma grande explosão, temos que ter alguém que saiba dizer o que fazer”, explica De Nardin. O Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) liberou R$ 30 milhões nos primeiros quatro anos, e, a partir de agora, o Inpe receberá R$ 6 milhões por ano para manter e ampliar a estrutura.

Centros de alerta
Em uma sala de 200m², 44 monitores que formam uma tela gigante geram imagens em tempo real do Sol, da Terra e do espaço interplanetário. A cada 10 minutos, os profissionais divulgam mapas da movimentação solar e, sempre às 12h, disponibilizam um boletim que pode ser visto por qualquer pessoa do mundo no site www.inpe.br/climaespacial. São registrados mais de 100 acessos ao site por dia. Além disso, há troca simultânea de dados com os 14 países onde estão instalados centros de alerta, incluindo China, Índia, Austrália, Bélgica e África do Sul, cada um responsável por sua área. Na América, apenas Brasil, Estados Unidos e Canadá integram o consórcio internacional. O centro de São José dos Campos funciona em horário comercial (durante a noite, as máquinas ficam em modo automático), mas De Nardin informa que o plano é mantê-lo 24 horas ativo.

O acompanhamento da movimentação solar interessa a vários setores econômicos, especialmente os que dependem do sistema de posicionamento global (em inglês, GPS), pois as explosões aumentam a margem de erro do aparelho. A informação pode alterar a data de uma colheita, já que muitos agricultores usam máquinas com a tecnologia, assim como a operação das plataformas de petróleo em alto-mar, que não estão mais ancoradas no fundo do oceano, para que a referência não seja perdida em caso de explosão solar. O pesquisador do Inpe acredita que, em uma década, os pilotos não decolarão sem antes checar se não está prevista a chegada de uma tempestade magnética.

Com isso, um plano de voo poderá ser alterado para não haver risco de perder a comunicação com a torre. De Nardin acrescenta que a internet usa dados de satélite para manter sua sincronia. Ou seja, os internautas podem ficar sem rede por um simples problema espacial. “O estrago econômico por trás disso é gigantesco, mas também existe prejuízo para o cidadão. No fim das contas, todo mundo sofre”, observa.

No Centro de Rádio Astronomia e Astrofísica da Universidade Presbiteriana Mackenzie (Craam), em São Paulo, o Sol é monitorado diariamente por meio de uma antena parabólica que fica no Complexo Astronômico El Leoncito, na Argentina, a 2,5 mil metros de altitude. De acordo com a coordenadora de pós-graduação em ciências e aplicações geoespaciais, Adriana Valio, com a observação é possível dizer se há alguma região com probabilidade de explodir, mas a previsão ainda é incerta. O que dá para adiantar, explica a pesquisadora, é a informação de que, para este ano, não se espera uma atividade muito intensa do astro, o que pode ser uma boa notícia para todo o mundo. “Como estamos cada vez mais dependentes de tecnologia, a sociedade fica cada vez mais vulnerável aos efeitos da atividade solar”, destaca.

Sem risco à vida
As explosões solares não oferecem risco à vida na Terra, já que a atmosfera protege o planeta. O fenômeno afeta apenas os homens que estão no espaço, fora da estação espacial, que é toda blindada. “Se, por um acaso, um astronauta estiver fora do laboratório realizando um conserto, terá menos de oito minutos para se proteger, pois a dose de raios X pode ser fatal”, conta Adriana Valio. É esse o tempo para a radiação liberada pelo Sol chegar à superfície terrestre. Já as partículas levam até quatro dias para se aproximar.

Com o aumento do número de voos internacionais que passam pelos polos (regiões por onde as partículas atravessam com mais facilidade), surge a preocupação com pilotos e comissários, que podem fazer o mesmo trajeto várias vezes por semana. Existe a suspeita de que a exposição cumulativa aos raios X provoque, anos depois, doenças como câncer e catarata, mas a especialista diz ser complicado fazer essa correlação sem estudar uma parcela grande da população, pois o problema pode surgir por predisposição genética. Diferentemente da tripulação, os passageiros recebem, durante a explosão solar, uma dose de raios X equivalente a uma chapa do pulmão, o que não compromete a saúde.



Satélites em pareceria
O Brasil será parceiro da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA, em inglês), dos Estados Unidos, no lançamento de seis satélites para monitoramento da atmosfera ionizada, região vulnerável à atividade solar, em 2015, 2016 e 2018. Os dados serão enviados diretamente para o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que, assim como o NOAA, poderá gerar mapas apontando os erros de GPS. Outros seis satélites deverão ser lançados a partir de 2020. Também faz parte dos planos do Inpe ampliar a cobertura nacional de instrumentos que possam monitorar o campo magnético da Terra, posicionando pelo menos mais 10 equipamentos em pontos estrategicamente escolhidos no Brasil e na América Latina. Com os investimentos, a vida tecnológica poderá ser mais segura.

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