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Ciência

Anestesia sem agulha

Unicamp desenvolve método de aplicação que pode, no futuro, eliminar as injeções dadas por dentistas antes de procedimentos complexos

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postado em 11/06/2013 19:00 / atualizado em 11/06/2013 11:50

Paula Takahashi

Publicação: 11/06/2013 04:00

 
 (Arte: Valf/EM/D.A Press) 


Belo Horizonte — Reduzir o incômodo e a dor da anestesia pode ser o primeiro passo para que os dentistas ganhem mais simpatizantes. Com medo da picada da agulha inevitável em procedimentos mais complexos, muitos correm da cadeira do profissional a todo custo. Para os mais receosos, a anestesia indolor e sem agulha está mais próxima de virar realidade. Pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) buscam opções de anestésicos para uso odontológico que, além de apresentarem melhores efeitos, devem significar a aposentadoria das agulhas.
A pesquisa faz parte do projeto temático Novas formulações de anestésicos locais de liberação sustentada: do desenvolvimento ao teste clínico odontológico, apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). “O grande desejo é de termos um anestésico que não precise ser injetado, o que gera mais medo no consultório. Hoje, o que há no mercado é uma versão tópica suficiente apenas para que seja realizada a picada depois”, observa Eneida de Paula, chefe do Departamento de Bioquímica do Instituto de Biologia da Unicamp.

E os estudos vão além. Associadas ao alívio da dor no momento da aplicação, as pesquisas estão em busca de uma versão menos tóxica e que tenha maior durabilidade, para que, em procedimentos longos, não seja necessária a reaplicação da substância. “A intenção é prolongar a atividade anestésica e diminuir a toxicidade ao coração e ao sistema nervoso central. Quando cai na corrente sanguínea, o anestésico pode causar taquicardia, convulsões e até levar a pessoa à morte”, explica Eneida.

A proposta inicial, contudo, não é produzir novas moléculas — o que poderia representar mais de 10 anos de desenvolvimento e testes clínicos — e sim potencializar os efeitos das já existentes. Para isso, os trabalhos foram direcionados para a definição do carreador ou de nanopartícula ideal para transporte dos sais anestésicos. Esses carreadores funcionam como uma cápsula que carrega o composto até o local desejado. “A boca é muito vascularizada, e isso faz com que o anestésico seja varrido mais rapidamente da área onde deveria atuar”, explica a pesquisadora da Unicamp. “Para que ele fique mais tempo no local, é comum associar um vasoconstritor como a adrenalina, que será responsável por reduzir a circulação sanguínea. Mas a adrenalina também tem efeitos colaterais, podendo causar parada cardíaca”, avalia.

A ideia é que o carreador elimine a necessidade da adrenalina e reduza os riscos do procedimento. “Observamos que, usando lipossomas como carreadores, há o mesmo efeito que o uso do vasoconstritor”, observa a professora. Os lipossomas são vesículas formadas de lipídeos muito parecidas com as presentes naturalmente nas membranas celulares do nosso corpo. Eles já são, inclusive, empregados pela indústria farmacêutica em antivirais, antifúngicos e no desenvolvimento de vacinas e medicamentos anticâncer. Por serem semelhantes às membranas biológicas, os lipossomas não causam reações adversas ao organismo.
 
Liberação lenta
 Constituído de uma membrana recoberta por água dentro e fora, os lipossomas funcionam como verdadeiros reservatórios para os anestésicos. Isso porque o composto prefere ficar na membrana do que migrar para a água. Como toda a membrana é envolta em ambiente aquoso, a anestesia fica presa, sendo liberada lentamente para se ligar a uma proteína da célula nervosa e impedir a transmissão do impulso nervoso. Atualmente, não é isso que ocorre. Sem uma barreira de contenção, o anestésico se liga a essa proteína e é rapidamente levado pela corrente sanguínea. “Como alternativa para prolongar a atuação anestésica, o nervo precisa ser ‘encharcado’ com composto anestésico, e é aí que os lipossomas ajudam”, observa Eneida.

A associação do anestésico ao seu carreador foi um passo importante, mas ainda insuficiente para eliminar a agulha do processo. Isso porque são muitas as barreiras que o anestésico deve vencer para bloquear a condução do impulso nervoso. Além da mucosa, o composto deve passar pelo osso compacto da boca, o que não aconteceu com os géis estudados, embora tenha havido avanços importantes no alívio da dor pré-injeção. Eneida explica que o estudo continua. “Temos explorado novas abordagens, que incluem modificação do tipo de lipídio que compõe os lipossomas; preparo de lipossomas com gradiente iônico interno; associação de anestésicos com outros fármacos, como opioides; e associação de mais de um carreador”, enumera.

Gel mais eficiente

A equipe de pesquisadores da Unicamp já conseguiu desenvolver uma versão do gel que utiliza 10% de benzocaína em sua composição, contra 20% dos produtos já disponíveis no mercado. A versão criada na Unicamp ainda permanece mais tempo no local sem derreter ou perder a atividade. Os resultados já foram apresentados para dois fabricantes, e uma delas já demonstrou interesse em comercializar o produto. “Estamos na fase de propostas. Das pesquisas que fizemos até agora, esse gel é o que tem mais tendência de ir para o mercado”, diz Eneida de Paula.
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