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Ciência

Fogo à vista

Satélite americano consegue, pela primeira vez, captar as queimadas sub-bosque, chamas rasteiras que consomem a floresta abaixo da copa das árvores. Com isso, sistema de previsão dos incêndios na Amazônia deve se tornar mais preciso

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postado em 12/06/2013 18:00 / atualizado em 12/06/2013 09:26

Roberta Machado


Queimada na Amazônia: clima seco e temperatura mais alta no Oceano Atlântico aumentam a probabilidade de incêndios  (Rickey Rogers - 23/9/03) 
Queimada na Amazônia: clima seco e temperatura mais alta no Oceano Atlântico aumentam a probabilidade de incêndios

Nos últimos anos, os cientistas conseguiram desenvolver métodos que ajudam a prever o risco de queimadas nas florestas. Para isso, eles usam dados como a situação atual das matas e a temperatura em terra e nos oceanos. Esse conjunto de informações, fornecido por satélites, permite traçar projeções sobre quais regiões estarão mais secas e quentes nos meses seguintes, logo mais suscetíveis às chamas. O problema é que essas técnicas ainda são muito imprecisas, e tentativas de melhorá-las são constantes.

Uma boa notícia nesse sentido acaba de ser divulgada pela Nasa. Pela primeira vez, a agência espacial dos Estados Unidos conseguiu registrar, na Floresta Amazônica, o fogo sub-bosque, um tipo de incêndio lento e rasteiro que consome a vegetação e, geralmente, passa longe das vistas dos satélites, porque não ultrapassa a copa das árvores. Como a situação presente ajuda muito a projetar o que ocorrerá no futuro, o feito deve tornar as estimativas mais próximas da realidade.

Os sensores do satélite Terra conseguiram registrar a duração dos incêndios rasteiros e o tempo que a mata levou para se recuperar. A Nasa estima que esse tipo de fogo tenha atingido 85,5 mil quilômetros quadrados da floresta entre 1999 e 2010, o equivalente a 2,8% de toda a região, incluindo a de países vizinhos (de 3 milhões de quilômetros quadrados).

A área atingida é maior do que o desflorestamento causado pela agricultura: 4,5 mil quilômetros quadrados entre agosto de 2011 e julho do ano passado, de acordo com dados do Inpe. “A Florestas Amazônica é muito vulnerável ao fogo, devido à frequência de focos de desmatamento e de manuseio de terra na fronteira da floresta, mas nunca soubemos a extensão regional ou a frequência desses incêndios sub-bosque”, afirmou Doug Morton, do Centro de Vôo Espacial Goddard, da Nasa.

Para que um incêndio tenha início, basta uma fogueira mal apagada ou uma ponta de cigarro acessa jogada no chão coberto pela vegetação. “Você pode olhar para uma reserva indígena onde não há desflorestamento e ver enormes incêndios sub-bosque. A presença humana na fronteira com os desflorestamento leva a um risco de incêndios quando as condições do clima são apropriadas para as queimadas”, explica Morton. A queimada de lixo, a presença de carros e a agricultura também são fatores que contribuem para a formação das labaredas.

O satélite Grace vai ajudar a estimar o risco de queimadas: capacidade de medir a umidade do solo (JPL/Nasa/Divulgação) 
O satélite Grace vai ajudar a estimar o risco de queimadas: capacidade de medir a umidade do solo

Dados conflitantes
Atualmente, para prever o risco de incêndios, a agência espacial utiliza, além do Terra, o satétile NOAA (sigla em inglês para Administração Atmosférica e Oceânica), que mede a temperatura dos oceanos. Como foi registrado um calor maior no Atlântico recentemente, os especialistas acreditam que as queimadas no Brasil devem ser mais intensas no fim deste ano. Dos estados que comportam parte da Amazônia, apenas o Maranhão deve sofrer menos com o problema. Segundo a Nasa, Pará e Mato Grosso serão os mais atingidos pelas chamas, seguidos por Rondônia, Amazonas e Acre. Isoladamente, Mato Grosso é responsável por mais de 40% de todos os focos registrados pelo sistema da Nasa desde 2000: a média do estado é de quase 50 mil pontos de queimada por ano.

No Brasil, o monitoramento fica por conta do sistema Aqua, um conjunto de seis instrumentos, também da Nasa, que coletam informações sobre as nuvens, a evaporação dos oceanos, o vapor d’água na atmosfera e a precipitação no planeta. De acordo com o levantamento feito pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o número de focos em 2013 deve ser um pouco abaixo da média esperada para a região amazônica.

A diferença nos números não é surpreendente, de acordo com Alberto Setzer, responsável pelo monitoramento de queimadas do Inpe. “Existe um método que eles usam para fazer essa previsão, assim como há dezenas de grupos no Brasil e no mundo fazendo o mesmo”, compara o brasileiro. A margem de erro do modelo norte-americano, ressalta Setzer, é bastante grande. “Se o método deles ou qualquer outro funcionasse muito bem, as pessoas os usariam para se preparar. Mas essa ciência de fazer previsão do tempo com meses de antecedência ainda é muito incerta”, lamenta o especialista.

Apesar de as pesquisas apontarem o clima como um fator que facilita muito a ocorrência de queimadas na Amazônia, os incidentes não são expontâneos. A seca pode ser o combustível que mantém as chamas acesas, mas o gatilho dos focos tem origem humana. “Um modelo nunca vai conseguir prever quando um maluco vai começar a queimar. Isso não tem nada a ver com o clima, é uma coisa imprevisível”, aponta Setzer.

Nos próximos anos, o modelo da Nasa também deve incluir dados do Experimento de Clima e Recuperação de Gravidade, ou simplesmente Grace, como é chamado outro satélite. Os sensores desse equipamento produzem estimativas sobre a umidade no solo com meses de antecedência. A ferramenta pode tornar as previsões sobre as queimadas mais precisas. “As medições do Grace proporcionam informações precisas e únicas sobre o nível de água na terra, o que muda completamente o modo como olhamos para a previsão de incêndios”, assegurou em um comunicado à imprensa Isabella Velicogna, pesquisadora da Universidade da Califórnia.
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