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Em Brasília, apertos e progressos

Jovens que chegam à capital para estudar ou trabalhar contam os desafios de viver na cidade. Especialistas alertam que algumas peculiaridades, como o preço da moradia e o tipo de transporte, exigem cuidados especiais

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postado em 18/06/2013 11:11



 
"Sempre que eu tinha alguma dificuldade, levava meu violino para um canto da cidade e tocava, até que consegui um trabalho e me estabilize" Washington Pereira, músico


Para muitos jovens, deixar a casa dos pais e morar em outra cidade é o primeiro passo de uma fase de aprendizagem e dificuldades. O choque cultural, as dificuldades financeiras e a distância dos familiares são alguns dos problemas geralmente enfrentados por quem decide abandonar o conforto da moradia familiar à procura de outros caminhos. Brasília é destino de muitas dessas pessoas que chegam em busca, principalmente, de qualificação educacional e de novas oportunidades profissionais.

A professora do Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília (UnB) Regina Lucia Pedroza acredita que a capital de República é uma cidade peculiar e, por esse motivo, quem chega precisa de apoio. “É fundamental que eles sejam acolhidos. As pessoas precisam entender que eles estão passando por um momento de adaptação, de chegar a um lugar muito diferente de onde viviam antes. Precisam ser compreendidos e ajudados”, afirma a psicóloga.

Um dos fatores que mais causam sustos é o financeiro. A inexperiência para lidar sozinhos com a renda aliada ao alto custo de vida na cidade são frequentemente motivos de transtornos. O músico Washington Pereira, de 25 anos, passou por essa dificuldade logo nos primeiros dias em que chegou a Brasília, em setembro de 2010, para cursar bacharelado em composição e regência na UnB.

Os pais de Washington Pereira não tinham condições de mantê-lo na cidade. Sem dinheiro, o músico, sergipano de Aracaju, tentou vender coleções de revistas em quadrinhos para pagar despesas com alimentação. “Os primeiros dias foram difíceis. Eu saí procurando quem quisesse comprar meus gibis. Ninguém queria, acabei vendendo por um preço muito baixo para um senhor que ficou com pena da minha situação”, lembra.

Em uma tarde, o estudante teve uma ideia que o ajudou a se manter com mais conforto em Brasília nos meses seguintes. Ele foi para a saída da estação de metrô da Praça do Relógio, em Taguatinga, colocou aberta sobre o chão a caixa em que transportava o violino e começou a tocar. Depois de uma hora, as doações de quem passava e o ouvia chegaram a R$ 60 “Quando eu vi que tinha R$ 10, já estava muito feliz porque, com aquele dinheiro, conseguiria me alimentar melhor. A primeira coisa que fiz quando saí de lá foi passar em um restaurante e comer uma comida decente”, lembra. “Depois disso, sempre que eu tinha alguma dificuldade, levava meu violino para um canto da cidade e tocava, até que consegui um trabalho e me estabilizei.” Agora, Washington toca em eventos e dá aulas de música.

Há cinco anos, o mineiro Augusto foi morar no Itapoã: a ida ao cursinho na Asa Sul durava uma hora e meia 
Há cinco anos, o mineiro Augusto foi morar no Itapoã: a ida ao cursinho na Asa Sul durava uma hora e meia


Locomoção
O transporte pela cidade é outra dificuldade relatada pelos jovens que se mudam para Brasília. Quando chegam, a maioria deles ainda não tem carro e precisa se locomover pela capital utilizando o sistema público de transporte. Desconforto, atrasos e dificuldade para chegar a alguns endereços são problemas comuns. O professor de inglês Augusto Sticca, 25 anos, saiu da cidade mineira de São Sebastião do Paraíso para morar em Brasília em 2008.

Primeiro morou na casa de parentes, que o receberam no Itapoã. Depois, mudou-se para um pensionato na Asa Norte. “Eu me acostumei a todos os outros fatores, ao clima, à cultura da cidade, ao jeito de ser das pessoas. Mas o transporte foi uma questão que permaneceu me incomodando durante todo o tempo que precisei dele”, explica Sticca.

Para estudar em um cursinho pré-vestibular na Asa Sul, o professor saía do Itapoã às 5h30 e levava cerca de uma hora e meia usando o transporte coletivo. Segundo Sticca, os dias chuvosos eram os mais complicados. “Nesse período, os ônibus estão sempre lotados e a dificuldade para pegá-los aumenta muito. Já esperei uma hora e quarenta até passar algum para o destino que eu queria”, relata. “Também era muito comum chegar atrasado a compromissos.”

A falta de informação sobre o modo como funciona o sistema de transporte público em Brasília foi um dos fatores que dificultaram a adaptação de Sticca. “As pessoas com quem eu tinha contato não precisavam usar ônibus. Elas não sabiam me indicar o que fazer, quais itinerários pegar”, conta. Apesar das adversidades, o professor aproveitou o tempo para conhecer novas pessoas. “Fiz muitos amigos. Como estávamos todos reclamando do mesmo problema, a gente acabou se conhecendo melhor. Foi um lado interessante da situação”, diz.

Para a professora de antropologia da UnB Lia Zanotta, quem chega à cidade precisa ampliar as redes de relacionamento com pessoas que possam ajudar nos momentos de dificuldade. “É preciso buscar produzir relações sociais, que são importantíssimas para o processo de adaptação. Além disso, nesse momento de certa ruptura com o estilo de vida anterior, não se recomenda o isolamento. Tentar resolver todos os problemas sozinho não é adequado, melhor procurar apoio”, alerta. A fase da vida, diz a especialista, facilita essa interação. “A juventude é o momento em que, naturalmente, se faz o processo de construir novas amizades, de se integrar a outros meios sociais. Por isso é mais fácil para um jovem se adaptar à mudança do que para alguém mais velho que já tenha passado por essa etapa e precise se readaptar.”



Inflação

Segundo dados do IBGE, o Índice Nacional de Preços do Consumidor Amplo (IPCA), que mede a inflação, apresentou variação acumulada de 2,89% em Brasília até maio de 2013. Das regiões analisadas, a capital federal teve a quinta maior variação acumulada do país, depois de Recife (4,30%), Fortaleza (4,11%), Belo Horizonte (3,49%) e Belém (3,15%).





Mudança traz amadurecimento

Estudante da UnB, Nathan optou por morar em um pensionato 
Estudante da UnB, Nathan optou por morar em um pensionato


Apesar dos desafios, especialistas acreditam que a mudança é um momento de passagem fundamental para o desenvolvimento dos jovens. “Essa é uma época de investimento para eles e para os familiares. Investimento que tem custos, mas que, em geral, são muito recompensados pelos retornos futuros”, afirma o economista da Universidade de Brasília (UnB) Carlos Alberto Ramos.

Obrigatório, o gasto com moradia costuma comprometer boa parte do dinheiro disponível dos jovens. Segundo Carlos Alberto Ramos, é preciso analisar a relação de custo e benefício entre os locais disponíveis. “Às vezes, dividir moradia pode sair mais barato, mas a tranquilidade para estudar, por exemplo, pode ser menor do que quando se mora sozinho. A pessoa precisa ponderar o que é mais importante para ela e o que está de acordo com as condições que tem”, explica. Independentemente da escolha, Ramos ressalta que é fundamental que o jovem seja consciente no uso dos recursos e evite dívidas.

O universitário Nathan do Nascimento Pereira, 22 anos, fez as contas e recorreu a um pensionato. O estudante mudou-se para Brasília em outubro de 2012 e teve problemas para encontrar um local em que pudesse morar. “Saí pesquisando lugares e muitos estavam ocupados. Antes de me mudar, precisei pagar um adiantamento para garantir a vaga que queria em um pensionato”, afirma o ex-morador de  Pirassununga (SP). Para o estudante, o valor do aluguel foi um choque. “Em Brasília, é muito alto, bem maior do que na minha cidade. Com o preço que se paga para alugar um quarto aqui, eu poderia alugar uma casa inteira lá”, afirma.

Saudades
A distância da família é outro desafio comum para jovens que se mudam para longe dos pais. “Você se vê sem referências, sem ter em quem se apoiar e isso é muito difícil”, afirma o músico Washington Pereira. O professor de inglês Augusto Sticca sente falta dos momentos de reunião da família. “Tenho saudades das manhãs de domingo, em que todos se reuniam para conversar, comer o pão de queijo mineiro que a minha mãe faz”, conta. Para diminuir a saudade, as conversas telefônicas com os pais são frequentes. “Eu falo com minha família quase todos os dias. Não é a mesma coisa que conversar pessoalmente, mas ajuda muito”, afirma Nathan.

“As pessoas pensam que sempre que o jovem sai de casa está em busca de uma independência total, de ficar longe da família. Na verdade, em muitos casos, eles sentem falta da convivência familiar, do apoio que recebiam e até dos conflitos”, explica a psicóloga Regina Lucia Pedroza. Segundo Pedroza, para facilitar a adaptação, o jovem necessita encontrar o sentido dessa mudança. “É preciso buscar a razão de se estar aqui. Focar nos objetivos, dar um novo significado à vida e olhar possibilidades. Estar aberto ao que a cidade tem a oferecer é fundamental. Estar sozinho não é, necessariamente, se isolar”, explica.
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