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A força da mobilização

Protesto que reuniu 10 mil pessoas no gramado do Congresso Nacional surgiu com uma velocidade impressionante na internet, a partir do desejo de brasilienses sem vínculos partidários. Estudante de 17 anos criou uma página e conseguiu atrair participantes

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postado em 19/06/2013 14:00 / atualizado em 19/06/2013 11:42

Ana Pompeu , Renato Alves

Ronaldo de Oliveira
A manifestação que reuniu 10 mil pessoas à Esplanada dos Ministérios na última segunda-feira surgiu nas redes sociais e se espalhou rapidamente a partir de um sentimento latente de indignação dos brasilienses sobre os problemas do país. Com isso, levou para as ruas pessoas sem ligação com partidos e políticos.
A ideia nasceu da cabeça de um adolescente de 17 anos. Jimmy Lima decidiu tomar uma atitude após ver pela tevê os confrontos entre manifestantes e policiais em São Paulo, na última sexta-feira, e participar do protesto contra a Copa das Confederações, em Brasília, no sábado.
Naquela noite, ainda cansado e chocado com as cenas de violência protagonizadas pela Polícia Militar do Distrito Federal, sentou à frente do computador e criou um evento em uma grande rede social. A Marcha do Vinagre começou a ser compartilhada entre internautas pelo próprio nome sugestivo. Em dois dias, 210 mil pessoas tinham sido convidadas e 15 mil confirmaram presença no ato na Esplanada. A maioria, jovens estudantes secundaristas e moradores do Plano Piloto, como ele.

Jimmy assistiu ao vídeo da prisão de um jornalista por portar vinagre durante cobertura do movimento na capital paulista. Acompanhou pela televisão a polícia jogar bombas de gás lacrimogêneo em pessoas que gritavam “sem violência”. Viu também os números de feridos e presos nas principais capitais do país. “Nunca organizei nenhum evento desse tipo. Mas depois de ver tudo o que estava acontecendo, percebi que não era mais possível ficar parado.”
Ele não tinha noção da dimensão do que estava fazendo e esperava reunir, na mais otimista expectativa, 3 mil pessoas no ato, com concentração no Museu Nacional. No entanto, como a concentração se deu ao lado da Rodoviária, muitos brasilienses que saíam da escola ou do trabalho aderiram ao protesto, que horas depois reunia cerca de 10 mil pessoas no gramado central da Esplanada. Centenas de manifestantes tomaram o teto do Congresso Nacional e 200 deles chegaram a ocupar a chapelaria, saguão que dá acesso ao interior do Legislativo.

Pacifista

Da militância, Jimmy deve se aproximar cada vez mais após o resultado que considerou “maravilhoso” na segunda. Já da política, quer distância. Se considera, no máximo, um pacifista praticante. Durante a manifestação, onde esteve presente das 15h30 às 22h, ficou atento a qualquer sinal de tumulto. “Quando ocuparam a pista toda, passei conversando de pessoa em pessoa, pedindo que retornassem para as duas faixas. Vi que havia ciclistas, então pedi que ajudassem nesse trabalho. Troquei telefones com os comandantes da Polícia Militar e conversamos o tempo todo. No fim, passei agradecendo um por um. Foi lindo”, ressaltou.

O garoto cursou o ensino fundamental em uma escola particular. Quando passou ao ensino médio, ingressou na rede pública de ensino e entrou no Centro de Ensino Médio Setor Leste, no fim da Asa Sul. Lá, ele começou a se interessar por questões sociais e a conviver com pessoas de perfis variados. “Conheci muita gente, vi a situação das escolas públicas e acabei entrando no grêmio estudantil”, conta. Saiu da entidade para se dedicar aos estudos no último ano da escola. Agora, quer cursar psicologia. “O mestrado, vou fazer em psicanálise”, garante.
Neste ano, o foco é o vestibular. A paixão pela música, no entanto, não foi deixada de lado. Jimmy tem quatro bandas. “Tocamos de MPB a heavy metal, como Black Sabbah. Depende do nosso momento e do público”, conta. Ele também participa de todos os eventos culturais promovidos pela escola.

Da ideia da publicação do evento na internet ao ato em si, Jimmy contou com a mãe, Janaína de Morais Carreiro, 37 anos, coordenadora do Centro de Ensino Médio Setor Leste. “No começo, achei que ele fosse juntar uma galera no Museu e não seria mais que isso”, diz. Mesmo assim, orientou o garoto sobre as consequências. “Disse a ele que poderia se machucar, apanhar da polícia, ser preso. Disse que o melhor seria não fechar a pista inteira para não ter a raiva dos motoristas e para não permitir quebra-quebra e agressões à polícia”, enumerou. No fim, restou o orgulho do feito do filho. “É bonito ver ele lutando pelo que acredita e por um país melhor. As pessoas estão alimentando essa indignação há tempos. E aí vem a Copa”, ressalta.
A mãe foi cara-pintada em 1992. O movimento levou ao impeachment do então presidente Fernando Collor de Mello. O evento foi marcante para Janaína. “Nunca fui engajada, mas, como mãe e professora, acredito na ética e tento passar os meus valores para meus filhos”, diz.

Denúncias
O primeiro presidente eleito pelo voto direto desde 1961 — quando Jânio Quadros saiu vencedor das urnas — foi denunciado pelo próprio irmão, Pedro Collor de Melo, de cumplicidade com seu tesoureiro de campanha, Paulo César Farias, acusado de cometer crimes, como enriquecimento ilícito, evasão de divisas e tráfico de influência.

Adesão foi imediata

Para tirar o protesto da rede social e colocá-lo na rua, Jimmy contou com a ajuda também de desconhecidos, como Georgiana Calimeris. Até a quinta-feira passada, o jovem e a mulher de 39 anos nunca haviam se falado nem se visto. O primeiro contato foi por mensagem eletrônica. “Vi um post dele sobre a passeata para sábado, até o Mané Garrincha, e perguntei como poderia ajudar. Quando soube que eu sou jornalista, ele pediu para ajudar na divulgação nas redações de Brasília. Passei a mandar releases”, conta Georgiana, que trabalha como assessora de comunicação autônoma para empresas e eventos.

No sábado, horas antes do jogo Brasil x Japão, Georgiana seguia para uma reunião de trabalho, quando decidiu mudar de direção. “Desviei de caminho e fui para lá (a porta do estádio). Estava de salto alto e maquiagem. Qual o problema teria, pensei. Tive de correr de gás”, conta. “Vi cenas que nunca havia visto antes. Fiquei bastante assustada com os policiais. Vi colegas jornalistas receberam gás na cara, meninos serem perseguidos por policiais. Havia visto manifestações até maiores aqui em Brasília, mas nenhuma com tal barbaridade”, comenta. A violência a levou a se dedicar ainda mais ao movimento.

Como Jimmy, Georgiana tem antipatia a partidos políticos, mas participou de marchas recentes contra a corrupção, como a que ela ajudou a organizar no último 21 de abril, na Esplanada. “Com uma multidão na rua por causa das comemorações do aniversário de Brasília, esperávamos reunir milhares de pessoas na marcha. Só apareceram 200”, lembra. O que ela não contava era com a quantidade de gente na manifestação de segunda-feira. “A expectativa era de 3 mil pessoas. Mas aí vieram 10 mil. Não acreditávamos quando víamos o povo vindo da Rodoviária (do Plano Piloto)”, ressalta.
Nascida em Brasília, filha de uma goiana de 70 anos e de um grego de 79, Georgiana não conta com o apoio dos pais. Eles também estão indignados com a situação do país, mas temem pela integridade física da filha. “Estão apavorados com a minha exposição e têm seus motivos para isso”, observa ela, pedindo para não publicar as razões. Por outro lado, Georgiana conta com a admiração do filho, de 13 anos. “Para ele, sou uma heroína”, ressalta a moradora do Lago Sul.

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