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TECNOLOGIA

Olho biônico

Sistema criado por americanos pode restaurar pelo menos parte da visão de pessoas que sofrem de doenças degenerativas da retina

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postado em 19/06/2013 18:00 / atualizado em 19/06/2013 12:39

Roberta Machado

Uma nova tecnologia desenvolvida na Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, traz esperanças para pacientes que sofrem de doenças degenerativas da retina. O projeto consiste em um pequeno conjunto de sensores fotovoltaicos (abastecidos por energia solar) que, depois de inserido no olho, mantém uma comunicação sem fios entre o órgão e um par de óculos equipado com uma câmera. O equipamento foi testado pela primeira vez em ratos e mostrou-se capaz de transmitir imagens para a área do cérebro responsável pela visão. Os resultados do experimento estão publicados na edição de hoje da revista especializada Nature Communitations.

Como outros tipos de olhos biônicos, o modelo proposto pelos norte-americanos substitui a visão pelas imagens registradas em uma câmera. O aparelho transforma a luz ambiente em sinais infravermelhos, que chegam até os sensores instalados atrás da retina. Os implantes, por sua vez, convertem a luz em pulsos de corrente elétrica, levados por meio de sinais neurais até o cérebro, onde a cena é interpretada como se tivesse sido observada naturalmente.

Segundo o especialista e pesquisador Anderson Gustavo Teixeira Pinto, que não participou do estudo, a combinação de câmeras com implantes de retina é comum e já existem projetos que conseguem restaurar parte da visão de pacientes com degeneração macular. “Há uma prótese já comercializada nos Estados Unidos e na Europa, utilizada por mais de 300 pessoas no mundo”, diz o professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e da Universidade Católica de Brasília (UCB).

Avanços
Os pacientes que usam esse tipo de equipamento, no entanto, ainda não conseguem ver normalmente. O investimento garante um tipo de percepção de padrões de luz, que exigem treinamento e servem principalmente para dar independência aos deficientes visuais. “Pessoas conseguem identificar objetos e letras grandes, assim como caminhar. Os pacientes para quem esse tipo de prótese é indicada são aqueles que não enxergam nada ou mal veem a luz”, descreve o pesquisador. O equipamento ainda usa um computador de bolso, conectado aos óculos por um cabo, responsável por processar a imagem antes de enviar o sinal ao olho.

Por enquanto, os criadores da nova tecnologia não sabem se a imagem gerada é de melhor qualidade. O projeto, no entanto, já garantiu alguns avanços. O grande diferencial é que a mesma luz usada para transmitir os dados também alimenta a energia do sistema. Os raios infravermelhos recebidos pelos sensores fotovoltaicos são interpretados e transformados em energia ali mesmo, atrás da retina, dispensando o uso de fios e computadores adicionais. “Ele usa o infravermelho, que não é captado pelo olho. Então, ele dá energia suficiente sem atrapalhar a visão que o paciente ainda tem”, destaca Daniel Lavinsky, médico brasileiro participnate da pesquisa e atualmente é professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

A cirurgia para implantação do equipamento compacto, de acordo com Lavinsky, também deve ser mais simples quando comparado aos procedimentos similares feitos hoje, que usam próteses compostas de receptor e eletrodos em separado. Como ele não usa energia externa, a quantidade de iodos em uma placa também pode aumentar, resultando em uma visão com maior resolução e menos calor gerado no processo, o que poupa a parte ainda funcional da retina do paciente.

Restauração
Para testar o equipamento, os pesquisadores usaram um grupo de ratos que sofriam de retinose pigmentar, uma doença sem cura caracterizada pela degeneração das células fotorreceptoras da retina, levando à cegueira. O mal genético afeta mais de 300 mil pessoas somente no Brasil, e causa uma cegueira gradual a partir dos 40 anos. A doença não tem cura e, até agora, conta apenas com uma terapia com células-tronco que apenas evita a perda completa da visão.

“A retina é como se fosse o filme de uma máquina fotográfica. As células dessa região vão produzindo pigmento fora do padrão normal, como pintinhas que surgem na pele. Elas vão se acumulando no fundo de olho e destruindo a retina”, descreve Marcos Ávila, professor da Universidade de Brasília (UnB) e ex-presidente do Conselho Brasileiro de Oftalmologia.

Sob a retina dos animais cegos, os cientistas inseriram um grupo de próteses de 1mm formadas por células sensíveis à luz. Os bichos foram então submetidos a clarões de luz comum e infravermelha, semelhantes aos estímulos que eles veriam se estivessem usando o par de óculos biônico. Os cérebros dos animais foram monitorados para qualquer sinal que pudesse indicar atividade relacionada à visão.

As respostas detectadas no córtex neural das cobaias eram similares às dos ratos com visão normal, indicando que os animais cegos podem ter visto alguma coisa a partir dos estímulos. “Até agora, nós confirmamos que os ratos cegos podem ‘ver’ o estímulo”, comenta Daniel Palanker, coautor do trabalho e pesquisador do Departamento de Oftalmologia de Stanford. Os sinais foram enviados pelos próprios neurônios da retina, por meio do canal tradicional do nervo ótico. “Agora, estamos desenvolvendo testes para saber a qualidade da visão proporcionada, verificando, por exemplo, a precisão visual e a sensibilidade de contraste proporcionadas”, adianta Palanker.

Para Marcos Ávila, os resultados da pesquisa norte-americana são animadores. “O problema maior que temos é a transformação de luz em energia elétrica e o envio para o cérebro. Parece que esse trabalho já tem uma solução inicial, pelo menos”, avalia o especialista brasileiro. Mas ele ressalta que os testes para averiguar a qualidade da imagem que está sendo processada pelos cérebros das cobaias são fundamentais para indicar o quão promissor é o estudo.
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