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A NOVA CARA DO BRASIL »

Pedalar era a luta de Carol

Atriz atropelada no Eixo Monumental, a caminho da Marcha do Vinagre, morreu na madrugada de ontem. A jovem, de 23 anos, que gostava de interpretar papéis cômicos, usava a bicicleta como uma manifestação diária de que é necessário repensar a mobilidade urbana

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postado em 20/06/2013 18:00 / atualizado em 20/06/2013 11:15

A atriz Carolina Scartezini Battisti, 23 anos, saiu de casa na Asa Norte, na segunda-feira à tarde, e seguiu para a Esplanada dos Ministérios a fim de participar da Marcha do Vinagre. Poderia ir de carro, mas resolveu pedalar até o centro da cidade. Para ela, locomover-se de bicicleta era uma manifestação diária de que é preciso buscar soluções para a mobilidade urbana. Assim como os milhares de jovens no protesto, queria um país melhor. Mas Carol não conseguiu chegar ao destino. Foi vítima do que lutava para não acontecer: o conflito entre ciclistas e carros.
Atropelada na Via N1 do Eixo Monumental, na altura da Torre de TV, por volta das 17h50, ela não resistiu aos ferimentos e morreu na madrugada de ontem. Segundo o Corpo de Bombeiros, Carolina sofreu traumatismo craniano e hemorragia interna, e foi levada inconsciente ao Hospital de Base do Distrito Federal. De acordo com a Divisão de Comunicação da Polícia Civil (Divicom), o motorista que a atingiu parou para prestar socorro à vítima. O laudo pericial sobre o acidente deve ser concluído em 30 dias.

Paula Ferrari , amiga da atriz, informou que o corpo será cremado amanhã e os órgãos doados. O engenheiro florestal Bruno Dourado, 34 anos, também conhecia a vítima e está inconformado com mais um acidente fatal envolvendo ciclistas na capital. “Fico triste em saber que o ato de andar de bicicleta pode resultar em morte. Ela era uma atriz com sorriso sereno. Buscava a simplicidade e, infelizmente, teve a vida interrompida”, disse.
A amiga Tina Carvalho, 34 anos, conheceu Carolina no palco, em um festival de palhaços na Funarte, em 2011. Nunca contracenaram, mas estavam sempre juntas nas apresentações. “Ela preferia o cômico, mas, como boa atriz, trabalhava o trágico muito bem.” Tina explica que a bicicleta era um protesto diário de Carol. “Eu também sou ciclista e, hoje, o meu sentimento é de revolta. Eu queria estar lá para protegê-la. Ela era uma pessoa incrível, uma ótima atriz, mas que teve pouca oportunidade de mostrar todo esse talento”, emocionou-se.

Homenagens

Nas redes sociais, dezenas de amigos manifestaram carinho e admiração por Carolina. Um texto intitulado “Uma morte como símbolo” foi compartilhado por vários internautas. Na página dela, um amigo escreveu: “Por onde passou, Carol cativou corações com sua doçura, leveza e sorriso. Ela viveu um ideal e ainda vive em nós, deixando boas lembranças e saudades... Aos familiares e amigos mais próximos, desejo força, luz e união neste momento. Deixo aqui meus sinceros sentimentos”, dizia uma das mensagens publicadas na rede social Facebook. Outro amigo escreveu: “Vá em paz, querida! Muita luz! Você é uma estrela!”.

Um grupo de ciclistas organiza um passeio de bicicleta para homenagear Carolina e pedir mais segurança no trânsito. A data ainda não foi divulgada. De acordo com o levantamento mais recente do Departamento de Trânsito do Distrito Federal (Detran), nos três primeiros meses de 2013, dois ciclistas perderam a vida em acidentes de trânsito. O ano passado foi o que menos teve mortes de pessoas em bicicletas no DF desde 2000. De janeiro a dezembro de 2012, 31 morreram em colisões enquanto pedalavam pelas ruas da capital. O número é 51% menor que os registros de 2003, o período mais sangrento para os ciclistas, com 65 óbitos. Em 2011, houve 35 mortes, uma a mais do que em 2010.

Perfil

Jovem consciente

No mundo que Carolina defendia, ciclistas e motoristas conviviam juntos sem disputar o mesmo espaço. Para ela, andar de bicicleta era a forma de protestar contra o modelo em que o carro é privilegiado. Era uma luta diária. Mesmo assim, ela apostou na bicicleta para se locomover por Brasília. O carro ficava na garagem. Carol levantava outras bandeiras. Ela sempre comparecia às manifestações em busca de um Brasil melhor. Na última Marcha das Vadias, os amigos contam que a atriz teve uma participação emblemática. Carol morreu indo para a Marcha do Vinagre e tinha confirmado presença em outros protestos desta semana. Na descrição de amigos, a jovem era doce, ativa e alegre. Trocou a graduação de ciências políticas por artes cênicas. No palco, preferia fazer as pessoas rirem. Mas, como boa atriz, também encenava as tragédias. Carol torna-se símbolo do que lutava: a necessidade de mudar o modelo de mobilidade na capital do país.

Memória

17 de maio

Um ciclista morreu atropelado na Via Estrutural por volta das 13h30. Silas Alves Cotrim, 29 anos, foi atingido por um VW Gol prata, quando tentava atravessar a rodovia na altura da Cidade do Automóvel. O motorista do carro relatou, em depoimento, que a vítima estaria conduzindo a bicicleta em ziguezague e, por isso, não conseguiu desviar. Silas morreu na hora. Segundo vizinhos do rapaz, ele trabalhava como vigia do Lixão da Estrutural e tinha se demitido do emprego, pois planejava voltar para a casa dos pais, no interior de Goiás.
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