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Violência inerente ao protesto

Estudiosos condenam as agressões e as depredações, mas afirmam que elas fazem parte desse tipo de movimento. O individualismo do discurso dos manifestantes e a diversidade de temas são características marcantes

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postado em 24/06/2013 08:00 / atualizado em 23/06/2013 16:38

Adriana Bernardes , Renato Alves

Breno Fortes
Por envolver grandes multidões e muitos jovens, a violência desencadeada na Esplanada dos Ministérios na noite de quinta-feira e em outras cidades do país é inerente a esse tipo de movimento, apesar de totalmente condenável. Os estudiosos que fazem tal avaliação ressaltam que a repressão policial, principalmente a abusiva, só alimenta a fúria dos vândalos e faz crescer a insatisfação dos demais manifestantes. Dessa forma, as cenas protagonizadas por policiais militares na frente do Estádio Mané Garrincha, na abertura da Copa das Confederações, contribuíram para a proliferação dos protestos no Distrito Federal.

O sociólogo Elimar Pinheiro do Nascimento, professor do Centro de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Brasília (UnB), é um dos defensores de tal tese. “As ações dos governantes de desclassificar as manifestações e orientar as polícias a reprimi-las, em vez de contribuir para arrefecer o movimento, tiveram efeito contrário. Com as insatisfações, a pauta reivindicativa e de protesto ampliou-se”, afirma.

Ele, no entanto, não tem opinião formada sobre o futuro das manifestações. “A opção dos governantes de estigmatizá-las como ações de vândalos, de reprimi-las e de ameaçar os ‘organizadores’ de responsabilização jurídica pelas depredações poderá ou não surtir efeitos de acelerar o arrefecimento das manifestações. No entanto, se nada for feito e as insatisfações persistirem, um novo palco estará armado em 2014. E com riscos de os protestos serem ainda mais intensos”, alerta.

Individualismo
O também sociólogo Edmilson Lopes, professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, tem uma visão pessimista dos protestos e da consciência de boa parte de quem marchou nas ruas. Ele lembra que política pública para pobres historicamente tem abrangência menor e com fonte de recursos limitados. “Duvido muito que parte dos mobilizados por tarifa zero no transporte público seja favorável à cobrança de estacionamento público e de pedágio urbano com restrição ao automóvel. Porque esse é o caminho para se conseguir recursos e investir no transporte público de qualidade, que beneficia toda a cidade”, destaca.

Além disso, Lopes destaca o tom “individualista” do discurso que ganhou as ruas. “É muito ‘eu’. ‘Eu’ não fui consultado. ‘Eu’ pago impostos, ‘eu’ tenho direito. Essa é uma parcela de jovens educados sem ouvir ‘não’. Os que depredam o patrimônio não são somente os marginais. Também é o mesmo jovem da academia, que sempre teve tudo e que, vez ou outra, agride pessoas e nada acontece”, diz. Na avaliação do especialista, a insatisfação da sociedade com os serviços públicos é um fato, mas lembra os riscos da negação dos partidos. “Facismo é a rejeição dos partidos e instituições”, ressalta.

Marca histórica
Para o professor de Ciência Política José Álvaro Moisés, da Universidade de São Paulo (USP), os protestos entraram para a história por várias características. “Não é como nas Diretas Já, em que as pessoas lutaram contra a proibição de eleições diretas imposta pelo regime militar. O alvo era específico e isso facilitou a unidade. Os caras-pintadas tinham uma conexão com o Congresso, para por meio dele conseguir o impeachment do então presidente Fernando Collor de Melo. Esse movimento tem diversidade de temas que vão crescendo na pauta: começou com a redução da tarifa, os gastos com a construção das arenas para a Copa, questões relativas aos serviços de saúde”, observa.

Ele, porém, diz que o movimento tem um enorme desafio: ser capaz de transformar cada um dos temas em reivindicações específicas. “O Ficha Limpa, por exemplo, tem um ponto concreto. Não aceitamos candidatos condenados pela Justiça. Se os manifestantes não encontrarem um foco para as bandeiras levantadas, vai ficar muito genérico e corre o risco de a mobilização perder pulso”, afirma.


"O Ficha Limpa, por exemplo, tem um ponto concreto. Não aceitamos candidatos condenados pela Justiça. Se os manifestantes não encontrarem um foco para as bandeiras levantadas, vai ficar muito genérico e corre o risco de a mobilização perder pulso”
José Álvaro Moisés, professor de Ciência Política da Universidade de São Paulo


"É muito ‘eu’. ‘Eu’ não fui consultado. ‘Eu’ pago impostos, ‘eu’ tenho direito. Essa é uma parcela de jovens educados sem ouvir ‘não’. Os que depredam o patrimônio não são somente os marginais. Também é o mesmo jovem da academia, que sempre teve tudo e que, vez ou outra, agride pessoas e nada acontece”
Edmilson Lopes, sociólogo
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