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Entre a aflição e o orgulho

A preocupação com a segurança dos filhos faz com que muitos pais proíbam a participação deles em manifestações. A angústia aumentou após as cenas de vandalismo praticadas, na última quinta-feira, na Esplanada dos Ministérios

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postado em 24/06/2013 08:00 / atualizado em 23/06/2013 16:44

Sheila Oliveira

Zuleika de Souza
Em casa, a televisão ligada, diante de imagens de bombas de gás lacrimogêneo e de 35 mil pessoas amontoadas. Na Esplanada dos Ministérios, pânico entre os manifestantes, e o sinal fraco dos celulares. Durante as manifestações, quem acompanha de longe sofre ao imaginar onde e como estão os parentes no meio da multidão. Muitos pais e mães apoiam a decisão dos filhos de participarem dos protestos que tomam conta do país, mas a angústia de não saber detalhes do que está acontecendo leva muitos a proibirem os adolescentes de irem nas próximas marchas.

A designer de interiores Andréa Avelino, 50 anos, fica apreensiva. Na última quinta-feira, ela permitiu que a filha, Maria Clara Avelino, 16, participasse dos atos na área central de Brasília. “Eu acho importante escutar o jovem e ver o papel que ele tem nessa sociedade. Eles estão buscando melhorias, direitos que lhe são devidos. A princípio, acho tudo legítimo”, opina. Durante a manifestação de quinta-feira, a garota manteve o celular ligado, mas o sinal ruim prejudicou a comunicação com a mãe. Quando houve a invasão do Itamaraty, ela e as amigas decidiram ir embora. “Falei com a minha mãe na hora em que estávamos saindo. Ela ficou um pouco brava, mas foi tranquilo”, assegura.

Todos os problemas gerados nessa noite fizeram com que Maria Clara ficasse ainda mais disposta a seguir marchando. “Estou mais animada para ir à próxima manifestação, porque as pessoas estão vendo que a violência não resolve nada. Essas pessoas não nos representam”, argumenta Maria Clara. A autorização para ir, no entanto, pode não chegar tão facilmente. “Apesar de achar que o jovem deve participar, vou pensar 10 vezes antes de deixá-la ir para a próxima”, avisa a mãe.

Os irmãos Kennedy Antônio de Almeida e Luca de Araújo, de 15 e 13 anos, participaram da última manifestação. A mãe deles, Alice de Araújo, 50, só permitiu a presença dos adolescentes com a condição de que eles ficassem longe dos atos violentos. Além disso, o mais velho deveria proteger o caçula. “Achei que não ficariam até tão tarde. Quando cheguei em casa do trabalho e vi as imagens na televisão, entrei em pânico. Eu e o meu marido (também Kennedy) resolvemos buscá-los, mas paramos no Eixinho, que estava fechado”, lembra a comerciária. Nesse momento, os garotos avisaram que voltavam para casa.

Apesar da apreensão, o casal estimula os filhos a participarem dos atos. Na passeata de segunda-feira, Alice os levou para a Esplanada. Mas, na noite da invasão do Itamaraty, o clima em casa era de proibição. “Eles ficaram aliviados, porque puderam nos ver, falar com a gente. Disseram que fizemos a nossa parte e não devemos ir mais. Mas quero ir na próxima passeata, a escola inteira está combinando”, pressiona Kennedy Antônio. “Se eu tiver condições de ir, vou permitir. Caso contrário, eles não vão. O clima está ficando pesado, não posso deixar os meus filhos correrem esse risco”, diz a mãe.

Muitos adolescentes participaram dos eventos: permissão sob condições (Arquivo Pessoal) 
Muitos adolescentes participaram dos eventos: permissão sob condições
Injustiças sociais

O aposentado Marcelo Constantino, 60 anos, conta que apoia o engajamento do filho, o estudante da Universidade de Brasília (UnB) Breno Uriel Constantino, 19 anos. “Admiro essa atitude dele. Ele luta por seus ideais e por uma mudança na sociedade, mas é uma mistura de sentimentos que envolve orgulho e angústia por não saber se ele estará em segurança”, explica.

Desde o ensino médio, Breno se envolve em grupos e manifestações políticas e sociais. A demissão de uma professora, por exemplo, foi motivo para que o jovem organizasse uma greve de alunos. “O objetivo era pressionar a diretora a rever a decisão de mandar para a rua uma das melhores educadoras. O plano deu certo”, comemora. Hoje, o estudante participa do Centro Acadêmico de Artes da UnB. Ele desenvolve atividades como discussões para melhorias no curso e a tentativa de conseguir um espaço físico para o CA. “Não consigo ver as injustiças sociais e ficar quieto. Acho que a mudança que todos querem depende da atitude individual”, pontua.

A servidora pública Maria Lúcia Sigmaringa, 48 anos, segue na contramão dos pais que apoiam a participação dos filhos nesses atos. A presença do filho, o aluno da UnB Caio Sigmaringa, 18, nas últimas passeatas desencadeou um atrito entre eles. “Já fui cara-pintada (leia Para saber mais) e não o proíbo de participar desse tipo de evento. No entanto, o movimento não é organizado e não há um objetivo claro do que esses jovens pretendem. Por isso, ocorre o vandalismo. Temo pela segurança dele”, admite Maria Lúcia.

O estudante discorda da opinião da mãe e promete continuar no engajamento social. “Concordo com a minha mãe quando ela diz que não há uma pauta clara, mas a luta de quem vai às ruas é justamente para estruturar as reivindicações e mudar a realidade social atual”, argumenta Caio.

Para saber mais

Caras-pintadas

O movimento estudantil dos caras-pintadas aconteceu ao longo de 1992 e tinha como objetivo principal o impeachment do ex-presidente Fernando Collor de Melo. O grupo se organizou após as diversas denúncias de corrupção do então comandante do país e as polêmicas medidas econômicas adotadas na ocasião, como o confisco da Poupança. Milhares de jovens de todo o país saíram às ruas com Bandeiras do Brasil e os rostos pintados em verde e amarelo, exigindo a saída imediata de Collor do poder.

Conflito de gerações As manifestações da última semana que levaram às ruas milhares de pessoas, principalmente jovens, desencadearam divergências nos lares brasilienses. Essa situação é fruto do conflito de gerações entre pais e filhos, de acordo com análise do diretor do Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília (UnB), Hartmut Gunther.

A tentativa de proibir a presença dos garotos nos eventos, por exemplo, é descrita pelo especialista como conflito de ideias e interesses. “Os pais que trabalham em instituições públicas e políticas não desejam ver os seus filhos ligados a esse tipo de manifestação. Eles estão menos propícios a apoiar a escolha dos jovens e se sentem ameaçados pelo sucesso que os movimentos podem desencadear nas suas vidas”, explica o psicólogo.

Identidade
Segundo Gunther, a participação dos jovens em movimentos políticos e sociais não depende da idade. “Essa vontade de lutar e de mudar é inerente ao comportamento dessa faixa etária. A partir do momento que a pessoa está na posição de pai, a situação é encarada de uma forma diferente, porque está em xeque a segurança do filho”, analisa. “A participação é a tentativa desses jovens em encontrar a própria identidade”, completa o psicólogo.

Por sua vez, pais que não enxergam ameaça no envolvimento dos filhos em manifestações públicas são mais participativos e engajados. “Isso provoca uma série de conflitos dentro de casa. O melhor caminho é o diálogo”, aconselha o especialista. (SO)

 

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