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Em busca de independência

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postado em 24/06/2013 12:35 / atualizado em 24/06/2013 12:36

Janine Moraes
Sair da casa dos pais, antes, era um reflexo de independência que a maioria dos jovens buscava. Ao assumir as rédeas da própria casa, experimentavam todos os dissabores dos conselhos maternais, batendo de frente com suas crenças anteriores de que sempre existiria alguém que lavaria as louças do jantar. Os tempos são outros. A geração de pais que saiu cedo de casa agora urge para que os filhos se mantenham em seus quartos o tempo que eles precisem. Por isso, ouvir de um jovem de Brasília que preferiu sair do conforto — e imposições — do lar para se aventurar em uma experiência de república surpreende não só pela coragem, mas pela confiança em si mesmo que os fazem arriscar.

“Essa é a minha primeira experiência em repúblicas. Nasci em Brasília e saí da casa dos meus pais no início do ano. Decidi isso para ter uma experiência nova, para ter um contato com uma independência diferente, até porque estar na casa dos pais te dá algumas regalias. E acho que a relação que todos têm com os pais vai caminhando para a hora em que é preciso sair de casa”, garante a fotógrafa Emília Silberstein, 24 anos.

A amiga e universitária Ana Maria Ultra, 26 anos, escolheu as repúblicas para saber de que forma a vida se estrutura fora do ambiente familiar. Sem maiores traumas, além daqueles que envolvem o susto dos pais com a decisão, as duas se uniram a outros amigos que não são da cidade e decidiram morar juntos em janeiro. “Foi por uma questão de querer um espaço e independência. Ter minha casa, receber as pessoas que eu quiser sem problemas, entrar e sair de casa na hora em que quiser”, conta Ana Maria.

Primeiro, ela viveu com um grupo de meninas, das quais era mais íntima apenas de uma. Não deu certo. Descobriu que toda aquela liberdade que ansiava esbarrava na que os outros moradores também queriam. “Tive um estranhamento muito grande de morar com muitas pessoas, de descobrir como respeitar o espaço delas, as manias, as preferências. Essa descoberta aconteceu e foi preciso um pouco de calma para repensar o que eu queria dessa experiência.”

Quando passou a viver com os amigos, a tensão amainou e, como consequência, ela pôde enxergar melhor os seus limites e os dos outros. A comunicóloga Maria Vitória Canesin, 26 anos, é de São Paulo e, desde que chegou a Brasília para estudar, vive em repúblicas. Para ela, essa forma de moradia é a melhor para quem precisa desenvolver laços afetivos quando se está longe de casa. “Laços que são diferentes até que os de amizade, por conta das contradições que envolvem o viver junto. No final, você volta para casa e lá estão as pessoas que moram com você. Acorda e elas estão lá também. Se está ruim, há os amigos, claro, mas quem está mais próximo são as pessoas que moram com você.”

Desde que saiu da faculdade, disse já ter ouvido várias vezes dos colegas de trabalho perguntas sobre os motivos que ainda a levam a morar com muitas pessoas. Dá uma resposta simples: “Gosto de viver assim porque, quando cheguei aqui, não tinha ninguém”. Sua primeira experiência foi em uma república com outras nove pessoas, todos calouros de diversos cursos da Universidade de Brasília, com gostos tão díspares quando a juventude é capaz de produzir.

A sensação inicial foi de estranheza. Fazendo uma avaliação hoje, Maria Vitória percebe o quanto o comodismo familiar faz com que as pessoas não consigam entender as necessidades do outro, algo que é testado à exaustão quando você faz parte de uma república. “Isso cria um vínculo de responsabilidade com você mesmo, que te faz reavaliar as liberdades que espera ter. Quando você muda para uma casa que não é a da sua família, assume responsabilidades que antes não tinha. A maior é a de manter o bom convívio, que nem sempre existe em casa.”

Hoje, vivendo com cinco pessoas no apartamento e não tendo mais que depender financeiramente dos colegas de casa para manter um imóvel, a escolha de viver junto se torna mais calma. O lar é, notadamente, um ambiente para quem gosta de plantas. A tevê da sala fica em cima de um grande móvel de tempos antigos do Senado Federal, achado por R$ 100 em uma feira de Taguatinga. Nos vidros da varanda, frases que celebram o amor e a liberdade. Não há mais aquela pressa universitária em viver intensamente, mas uma sensação de juventude que começa.

“Eu teria dificuldades em morar sozinha agora. Isso está sendo diferente para mim porque sou filha única e meus pais são bem mais velhos. Agora, morando com pessoas da minha idade, posso dividir as coisas de forma mais horizontal. Não tinha problemas de convivência com meus pais, mas é diferente. Gosto de chegar em casa e ter esse movimento”, garante Emília.

Moradores: cinco pessoas
Regra maior: ainda em construção
Tempo de existência: desde janeiro de 2013
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