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Ciência

Passado sequenciado

Pesquisadores decifram o DNA de um cavalo selvagem que viveu há 700 mil anos. A tecnologia usada abre caminho para o estudo detalhado de ancestrais do homem

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postado em 27/06/2013 18:00 / atualizado em 27/06/2013 11:48

Paloma Oliveto


Crânio do animal estudado: de acordo com a pesquisa apresentada na Nature, os ancestrais dos cavalos surgiram há 4,5 milhões de anos (D.G. Froese/Divulgação) 
Crânio do animal estudado: de acordo com a pesquisa apresentada na Nature, os ancestrais dos cavalos surgiram há 4,5 milhões de anos


Quando as teorias evolucionistas começaram a se popularizar, o martelo e o cinzel eram as únicas ferramentas à disposição dos caçadores de fósseis. Cento e cinquenta anos depois da primeira edição do livro A origem das espécies, de Charles Darwin, os tesouros não estão saindo apenas do interior das rochas. Agora, eles são extraídos de máquinas poderosas, parecidas com uma impressora. Foi com uma dessas que cientistas dinamarqueses conseguiram obter o mais antigo sequenciamento genético já realizado até hoje: ele pertence a um cavalo selvagem que viveu há 700 mil anos na região onde hoje fica o Arquipélago Ártico Canadense.

Em uma entrevista coletiva organizada pelo grupo Nature, que publicou o resultado do estudo, os pesquisadores do Museu de História Natural da Dinamarca anunciaram que dois pedaços de osso do animal do Período Pleistoceno forneceram informações detalhadas sobre o cavalo, um ancestral tanto das espécies selvagens quando das domesticadas. Para a ciência, contudo, a informação mais relevante não é tanto a história evolutiva dos equinos: “O que realmente nos impressionou e nos deixa bastante empolgados é ter conseguido sequenciar o DNA de uma criatura tão antiga. Isso abre possibilidades para o estudo de fósseis dos ancestrais humanos”, disse Eske Willerslev, um dos autores do artigo.

Até agora, o animal mais antigo com genoma completamente sequenciado era um exemplar de Homo sapiens de 70 mil anos. “O que esses cientistas conseguiram foi um salto extraordinário no tempo. Eles provaram que a tecnologia permite investigar o passado ainda mais a fundo. Usando uma técnica semelhante, pelo menos em teoria, poderemos sequenciar o DNA de ancestrais como o Homo erectus”, avaliou David M. Lambert, professor de biologia evolutiva da Universidade de Griffith, na Austrália, em um comentário publicado na Nature.

O especialista lembrou que a genética poderia, também, esclarecer importantes questões sobre os neandertais, primos próximos do homem moderno que ainda provocam muita polêmica no meio científico. Embora o DNA desse hominídeo já tenha sido estudado, não se obteve, até agora, o sequenciamento completo da espécie. Há muito debate, por exemplo, sobre a possibilidade de neandertais e Homo sapiens terem se misturado. “Acho que podemos retroceder até 1 milhão de anos nesse tipo de pesquisa. Acabamos de mostrar que a análise de 500 mil anos é possível, então por que não tentarmos mais e mais?”, questiona Ludovic Orlando, principal autor da pesquisa publicada na Nature.

Desde a década de 1980, há tecnologia disponível para o sequenciamento genético. Um entrave para o avanço do estudo de ancestrais é que o DNA animal se perde com o tempo. Dependendo da qualidade do fóssil, só é possível analisar algumas cadeias de aminoácidos, insuficientes para fornecerem informações confiáveis e definitivas sobre determinada espécie. Outro problema é com a contaminação: mesmo pequenos fragmentos podem conter micro-organismos, e já aconteceu de informações divulgadas como sendo do espécime estudado terem vindo, na verdade, do DNA de bactérias e fungos.

Orlando e Willerslev garantiram que, com a abordagem usada na pesquisa dinamarquesa, pela qual investiga-se o genoma em nível molecular, foi possível identificar e isolar todo material que não pertencia ao cavalo. Orlando contou que os cientistas precisaram praticamente “pinçar” o DNA: das 12 bilhões de moléculas que havia nos 15cm de osso estudado, somente 40 milhões pertenciam ao animal. “Era um pedaço de cavalo no meio de um oceano de bactérias”, disse.

Gelo
Os cientistas analisaram até agora mais antigo exemplar conhecido do gênero Eqqus em 2004. A ossada, muito bem preservada, estava no permafrost (camada de solo congelada) do ártico canadense. Nos últimos três anos, a equipe do Museu de História Natural da Dinamarca se debruçou sobre o fóssil, que, a começar pela aparência conservada, dava sinais de que poderia ser um objeto de estudo revelador. “O material era tão bom que foi possível estudar as proteínas do sangue do cavalo”, contou Willerslev. Quando conseguiram sequenciar os primeiros peptídeos do DNA, os cientistas perceberam que estavam diante de um tesouro.

Ter encontrado o fóssil no permafrost tem um lado bom e outro não tão animador. Se o gelo foi essencial para garantir a conservação do material genético, a origem africana do homem pode ser um problema na hora de tentar analisar o DNA dos fósseis existentes. Pesquisas paleoclimáticas indicam que já fazia calor no continente há 3,5 milhões, época em que Lucy, o ancestral humano mais antigo até agora, existiu. Mesmo reconhecendo esse obstáculo, Willerslev está otimista. “Temos tecnologia de ponta atualmente e, à medida que os problemas aparecerem, acredito que poderemos encontrar soluções. Lá fora, há muitos outros fósseis esperando ser encontrados”, afirmou.

Além de provar que é possível sequenciar o DNA de 700 mil anos, a pesquisa dos dinamarqueses trouxe novas pistas sobre a origem de cavalos, assim como à de burros e zebras, que fazem parte da família dos equídeos. Ao comparar o material genético ancestral ao de espécimes modernos, os cientistas constataram que a origem desses animais é duas vezes mais antiga do que se pensava: eles já habitavam a Terra 4,5 milhões de anos atrás.
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