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TECNOLOGIA

Basta se mexer

Sistema usa tecnologia wi-fi para criar ambientes totalmente controlados por gestos corporais. A nova técnica permite ligar e desligar aparelhos mesmo quando eles estão em outro cômodo da casa

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postado em 01/07/2013 18:00 / atualizado em 01/07/2013 10:23

Roberta Machado

Entregue-se à preguiça. Basta um simples aceno de mão para ligar a televisão, aumentar o volume do aparelho de som ou diminuir a temperatura do ar condicionado — e tudo sem precisar ir até o cômodo onde estão os equipamentos. Um novo sistema de reconhecimento de movimentos desenvolvido nos Estados Unidos promete tornar real o sonho de uma casa controlada por gestos, usando uma tecnologia que já está presente na maioria das residências: o wi-fi. Além de dispensar sensores sofisticados, o método, desenvolvido pela Universidade de Washington, permite o controle de equipamentos através de portas e paredes, de acordo com o alcance do sinal da internet sem fio. Assim, se você se esqueceu de desligar a luz da sala, mas já está deitado na cama, pronto para dormir, não precisa se chatear. O sistema atende seu comando mesmo com você no quarto.

Batizada de WiSee, a tecnologia usa o wi-fi como um radar, que monitora os movimentos das pessoas. Quando alguém se move, a frequência do sinal wireless sofre uma pequena mudança, quase imperceptível. Os pesquisadores norte-americanos desenvolveram um algoritmo capaz de detectar essas variações e interpretar gestos pré-programados. Segundo os autores do projeto, para que gestos a distância passem a controlar os equipamentos, basta adaptar o roteador da casa e instalar o programa de reconhecimento. Os sinais podem partir de um computador ou smartphone comuns, deixados em algum canto da casa. “Isso redefine sinais wireless que já existem de novas formas. Você pode realmente usar o sistema sem fiopara reconhecimento de gestos sem necessidade de instalar novos sensores”, descreve Shyam Gollokota, professor de ciências da computação e um dos criadores do WiSee.

“A grande vantagem é a facilidade de instalação da tecnologia nos dispositivos móveis sem a necessidade de câmeras, como, por exemplo, em pontos de acesso e roteadores sem fio”, aponta Luiz Henrique Andrade Correia, do Grupo de Redes de Computação Ubíqua (GRUBi) na Universidade Federal de Lavras (UFLA). “(O sistema) ainda possui maior usabilidade, já que não é necessário apontar um controle remoto para o dispositivo a ser manipulado”, ressalta o especialista.

Para Correia, a diversidade de aplicações do invento ainda é imprevisível. Mas a tecnologia parece ser mais uma solução em direção à computação ubíqua, aquela que dispensa botões ou controles. “Somente no futuro é que teremos a real dimensão do uso desse tipo de tecnologia. Ela pode nos proporcionar uma interação com dispositivos em vários ambientes da casa e contribuir muito com a popularização de ambientes inteligentes”, aponta o professor.

Testes
O modelo foi testado por cinco usuários em um escritório e em um apartamento de dois quartos, com uma precisão de 94%. Os pesquisadores testaram nove diferentes gestos que são facilmente reconhecidos pelo sistema wi-fi, que vão desde um simples empurrão ao movimento que simula uma jogada de boliche. O usuário poderia programar as posições de sua preferência para cada aparelho e para ativar o próprio sistema. Um giro com o braço, por exemplo, acionaria o programa, e um soco seria o comando para desligar o televisor.

O gesto adicional é necessário para evitar falsos comandos. Sem essa combinação específica de movimentos, qualquer passo em falso seria o suficiente para desligar a luz ou acionar a cafeteira por acidente, o que poderia ser perigoso. Portanto, a combinação de posições não deve ser natural — no vídeo que mostra como a tecnologia funciona, algumas das escolhas chegam a ser cômicas, com pessoas girando o braço e espalmando o ar de uma forma despojada. O movimento de acionamento pode ainda servir como um tipo de senha, que protege os eletrônicos das caminhadas do vizinho e até mesmo da ação de hackers.

Outro cuidado para evitar a confusão do roteador é instalar mais de uma antena na máquina. Cada dispositivo sintoniza os movimentos de uma pessoa, permitindo que todo mundo possa usar os comandos de movimento ao mesmo tempo sem interferências. O limite para o equipamento é de cinco antenas funcionando simultaneamente. Os pesquisadores estudam agora a possibilidade de comandar vários dispositivos de uma só vez, além da fabricação de um roteador, que já venha equipado com a tecnologia.

A invenção, contudo, está sujeita aos mesmos problemas que interferem no funcionamento de dispositivos sem fio, como a poluição do espectro em áreas com muitas outras redes. Outro problema é que ela exige algum treinamento para lidar com os gestos programados, além de ao menos uma mão livre para os comandos, o que não acontece com os comandos de voz.

Kinect
A ideia tenta simplificar uma tecnologia surgida há três anos com o sensor de movimentos Kinect, da Microsoft. Em pouco tempo, notou-se que o acessório teria grande utilidade fora dos jogos Xbox, e hoje o aparelho é usado como modelo para pesquisas de automação em todo o mundo. “O Kinect tem um sistema altamente complexo que consegue identificar uma ou mais pessoas em um ambiente e também os seus movimentos de corpo”, explica Regina Borges de Araújo, professora do Centro de Ciências Exatas e de Tecnologia do Departamento de Computação da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

“Muitas aplicações têm sido desenvolvidas por programadores, desde jogos de tênis até aplicações mais sérias, como fisioterapia para reabilitação de movimentos”, enumera a especialista. O número de usos deve crescer ainda mais a partir do fim do ano, quando a Microsoft lança o novo sensor de movimentos que vai acompanhar a última geração do console Xbox.

O aparelho foi aperfeiçoado para detectar com mais precisão a força, o equilíbrio e a profundidade do jogador, além de agora funcionar em ambientes escuros, detectar o simples girar de um pulso e até mesmo monitorar batimentos cardíacos. Mas a versão de fábrica do Kinect deve funcionar apenas como controle para televisores e videogames. O sensor da Microsof também não funciona com comandos vindos de outros cômodos, e exige que o usuário esteja posicionado em frente à câmera.

Isso redefine sinais wireless que já existem de novas formas. Você pode realmente usar o sistema sem fio para reconhecimento de gestos sem necessidade de instalar novos sensores”
Shyam Gollokota, coautor do WiSee


Somente no futuro é que teremos a real dimensão do uso desse tipo de tecnologia. Ela pode nos proporcionar uma interação com dispositivos em vários ambientes da casa e contribuir muito com a popularização de ambientes inteligentes”
Luiz Henrique Andrade Correia, pesquisador da Universidade Federal de Lavras (UFLA)

 

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