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A cultura da guloseima

Pesquisa do IBGE mostra que 41% dos estudantes do país têm o costume de trocar comidas saudáveis por uma alimentação repleta de doces. Escolas contribuem para agravar o problema. O resultado é um elevado índice de obesidade e sobrepeso entre crianças e jovens

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postado em 01/07/2013 18:00 / atualizado em 01/07/2013 10:29

Julia Chaib

Gustavo Moreno
Enquanto o avanço da obesidade infantil preocupa especialistas, a pesquisa PeNSE, elaborada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostra que adolescentes de 13 a 15 anos, do 9º ano do Ensino Fundamental, não se alimentam bem. O estudo aponta que 41% dos estudantes consomem doces, balas e chocolates pelo menos cinco vezes na semana. A ingestão dessas guloseimas só perde para feijão, leite e hortaliças, à frente de frutas frescas, por exemplo. Membro do departamento de obesidade da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, Márcio Mancini diz que a quantidade de crianças e adolescentes fora do peso ideal vem crescendo no país. De acordo com o levantamento do IBGE Orçamento Familiar 2008-2009, 15% de crianças e adolescentes apresentavam obesidade ou sobrepeso em 2009. “Em 1974, essa taxa era inferior a 5%”, destaca o estudo.

A PeNSE considerou 100 mil estudantes de 13 a 15 anos de 2.842 escolas e constatou que boa parte desse grupo também não se alimenta adequadamente na escola. Do total de adolescentes entrevistados, apenas 10,8 % tinham frutas frescas ou salada de frutas ao alcance no colégio, enquanto 39,2% deles tinham disponíveis salgados de forno. Diante da oferta, 35,1% dos estudantes comem salgados e 33,2% tomam refrigerante cinco ou mais vezes na semana.

A diretora da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso), Maria Edna de Melo, considera a alimentação escolar um importante fator que contribui para o aumento da obesidade infantil que, segundo ela, tem crescido expressivamente. “Se a gente imaginar que a criança deve ficar mais de 12 horas acordada, em um terço do dia, ela vai ficar na escola. Isso contribui decisivamente para o peso que a criança vai apresentar, principalmente porque é algo que a criança repete todos os dias”, diz.

Na casa da médica Maria Alice Reis Pacheco, a família passou por uma restruturação alimentar depois que o filho dela, Bruno, hoje com 15 anos, apresentou taxas elevadas de colesterol e triglicerídeos, ocasionadas pelo sobrepeso, aos nove anos. “Não nos alimentávamos mal, mas procurei uma nutricionista que elaborou um cardápio. Hoje, só temos alimentos orgânicos em casa. Nada de bolachas ou refrigerante, por exemplo”, detalha.

O costume da família se refletiu nos hábitos de Bruno e da irmã Maria Carolina, 13 anos, longe dos pais. “Na maioria das vezes, trazemos lanches para a escola, mas quando não, opto por um sanduíche natural”, conta Maria Carolina. Ela confessa que vez ou outra sucumbe aos desejos por chocolate, assim como o irmão faz com o “enroladinho de salsicha”, mas ainda assim, mantém uma alimentação saudável. “Tomo refrigerante uma, duas vezes na semana”, conta Bruno.

O colégio onde estudam não serve frituras nem refrigerante, mas tem guloseimas e salgados assados. A dona da cantina, Lurdinha Guilherm, conta que, embora façam um esforço para oferecer um cardápio equilibrado, sob supervisão do marido, que é nutricionista, os alunos preferem mesmo o que apetece as papilas gustativas. “A maioria opta por salgado e refrigerentes no lugar da salada de frutas”, afirma. Eduardo de Carvalho, 14 anos, se encaixa nesse grupo de alunos. “Acho que tomo refrigerante umas 15 vezes na semana. Meu pai conversa sobre a alimentação saudável, mas confesso que gosto de besteira”, admite.

Na avaliação de Márcio Mancini, as escolas deveriam investir em informação aos adolescentes e aos pais. “Nas estantes das cantinas, é desproporcional a oferta de alimentos industrializados das coisas saudáveis. E, se o aluno estiver com dinheiro para comprar, ele vai pelos alimentos com mais sal, ricos em gordura, porque são mais palatáveis. Então, o certo é ensiná-los”, justifica.

Já na rede pública, o que deve ser trabalhado é a merenda. “Nas escolas públicas, os alunos praticamente almoçam às 10h e comem macarrão, cachorro quente, comidas carregadas. A alimentação deixa a desejar do ponto de vista de equilíbrio nutricional, e as crianças acabam predispostas à obesidade”, avalia Mancini. “Para muitas crianças, a merenda é a principal refeição do dia. Tem que ter o envolvimento de nutricionistas para dar um suporte ao que vai ser oferecido. E não adianta comprar um monte de legumes e verduras se não souber ajustar as proporções adequadas de cada alimento”, observa Maria Edna de Melo. Os especialistas defendem que na rede pública haja um empenho governamental para melhorar a alimentação, com a ajuda de nutricionistas.

IMC


A especialista da Abeso alerta para o fato de que, com adolescentes, não deve ser usado o método de Índice de Massa Corporal para avaliar se a pessoa está obesa ou com sobrepeso. O cálculo do IMC envolve uma divisão entre o peso do indivíduo pelo dobro da altura e, se der um resultado acima de 25, significa que o sujeito não está com o peso ideal. “Nos mais novos, esse cálculo subestima o sobrepeso. Às vezes, uma criança com IMC abaixo de 25 está obesa, mas não tem como saber. É necessário jogar o valor em uma curva da Organização Mundial de Saúde.” Na página da Abeso na internet (abeso.org.br), é possível acessar a curva e descobrir a condição da criança ou do adolescente.

Alimentação infantil

Crianças e adolescentes obesos ou com sobrepeso:

  • » Em 2009: 15%
  • » Em 1974: 5%
  • » Dos 100 mil estudantes de
  • 13 a 15 anos entrevistados na pesquisa PeNSE, do IBGE:
  • » 70% - comem feijão cinco ou mais vezes na semana
  • » 51,5% - consomem leite cinco ou mais vezes na semana
  • » 43% - comem hortaliças cinco ou mais vezes na semana
  • » 41% - consomem guloseimas cinco vezes
  • na semana
  • » 35,1% - comem salgados de forno cinco ou mais vezes na semana
  • » 33,2% - tomam refrigerante cinco ou mais vezes na semana
  • » 30,2% - comem hortaliças cinco dias na semana
  • » 21% - nunca comem frutas
  • » 11% - nunca comem hortaliças
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