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Dois estudos independentes concluem que a capacidade cognitiva de primatas é maior quando os animais vivem em grupos sociais numerosos

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postado em 03/07/2013 18:00 / atualizado em 03/07/2013 11:03

Paloma Oliveto


 

Lêmures, comuns em Madagascar: sociabilidade não tem relação com tamanho do cérebro, indica pesquisa (David Haring/Divulgação) 
Lêmures, comuns em Madagascar: sociabilidade não tem relação com tamanho do cérebro, indica pesquisa


Elie é colega de Cali, que conhece Yendi, que se relaciona com Roca, um velho amigo de Loko, companheiro de Salvador e Maya, que, por sua vez, conta com Verde, Djuan e Tatu em sua ampla rede social. Mesmo sem Twitter nem Facebook, esses macaquinhos de apenas 30cm também têm seus contatos e, quanto maior a quantidade de “seguidores”, mais espertos eles são. Dois estudos publicados na semana passada em diferentes revistas científicas e realizados com macacos-de-cheiro e lêmures indicaram que um grande círculo de relacionamentos está associado a incrementos em habilidades cognitivas nos primatas.

Embora as redes sociais não deixem ninguém mais inteligente, a capacidade de resolver problemas é maior quando um animal vê outros da espécie fazendo o mesmo. “O que os dois estudos mostram são os benefícios de participar de um ambiente onde há interações sociais”, diz Evan MacLean, pesquisador da Universidade de Duke que liderou a pesquisa sobre os lêmures. O trabalho, publicado na revista Plos One, investigou a habilidade desses animais endêmicos da ilha de Madagascar de roubar comida quando achavam que não estavam sendo vigiados pelos cientistas. O outro artigo, que saiu na Current Biology, também mexeu com o estômago dos primatas: macacos-de-cheiro, comuns na América do Sul, aprendiam a abrir uma lata para ter acesso a alimentos.

No estudo de Duke, os lêmures de seis diferentes espécies foram submetidos a dois testes, sendo que o primeiro avaliava a performance dos animais em tarefas que exigiam habilidades sociais. O segundo experimento relacionava-se à capacidade de tomada de decisões individuais, não dependendo do restante do bando. MacLean explica que a escolha desse tipo de macaco foi proposital por duas importantes questões. A primeira é que ele vive em grupos grandes, que podem ultrapassar 10 indivíduos. A segunda é o fato de os lêmures não serem antropoides, ou seja, pertencem a um grupo diferente ao dos humanos. “Um tema que ainda desafia os cientistas é a evolução do processo cognitivo nos primatas. Temos algumas hipóteses, mas nenhuma conclusão”, admite o biólogo. Uma dessas teorias é a do cérebro social: nos ancestrais do homem moderno e dos grandes primatas (chimpanzés, bonobos, gorilas e orangotangos), esse órgão foi crescendo ao longo de milhares de anos, em sintonia com a característica de sociabilidade dos antropoides.

A equipe de MacLean quis testar se as habilidades cognitivas associadas à interação com outros indivíduos da espécie, como a execução, em grupo, de tarefas que exigem determinados conhecimentos, dependiam do tamanho do cérebro. Lêmures são pequeninos como um todo e, diferentemente de homens e chimpanzés, por exemplo, têm o tamanho da cabeça proporcional ao do restante do corpo. O mesmo ocorre com os macacos-de-cheiro, utilizados na pesquisa da Universidade de St. Andrews, na Escócia, e publicado na Current Biology.

Em laboratório, os bichos percebiam quando os cientistas não podiam vê-los  
Em laboratório, os bichos percebiam quando os cientistas não podiam vê-los "roubando" a comida


Percepção
Em contradição à ideia de que o cérebro expandiu para acompanhar as atividades sociais, os pesquisadores constataram que esses macacos podem desempenhar tarefas complexas dentro de um grupo, mesmo com seus cérebros diminutos. O fator que mais interfere no resultado não é tamanho do órgão, mas a quantidade de indivíduos com os quais se relacionam. Quanto mais interações com o restante do bando, melhor eles se saem. “Nós acreditamos que a capacidade de ser social e de evoluir no sentido da execução de tarefas complexas independe do tamanho do cérebro”, defende.

Já o número de integrantes do grupo parece fundamental. Para testar as habilidades sociais dos lêmures, os pesquisadores, incluindo dois alunos de graduação, investigaram o comportamento de 60 indivíduos pertencentes a seis espécies de lêmures que vivem em um centro da Universidade de Duke. Nos experimentos, havia três situações, sempre envolvendo um par de cientistas, dois pratos de comida e grupos formados pelos pequenos primatas. Na primeira, os monitores humanos vigiavam o alimento; na segunda, se sentavam de costas e, na terceira, ficavam frente à frente com os lêmures, mas usavam máscaras nos olhos.

“As dicas sociais fornecidas pela nossa equipe foram bem interpretadas pelas espécies que se organizam em grandes bandos. Quanto maior o tamanho do grupo, mais apurada era essa percepção”, explica MacLean. Lêmures como os da espécie Lemur catta, que vivem em populações de 15 indivíduos, eram mais propensos a pular na mesa e roubar a comida quando os pesquisadores estavam de costas, enquanto resistiam à tentação ao perceber que estes os vigiavam. Já os do tipo Eulemur mongoz, que se relacionam, no máximo, com outros cinco espécimes, não compreendiam tão bem as deixas dos cientistas. Nenhuma espécie pareceu entender o significado das vendas nos olhos.
O estudo conduzido pela Universidade de St. Andrews chegou a resultados semelhantes. Os macacos-de-cheiro foram divididos em grupos: um com 22 animais e outro com apenas seis. Os pesquisadores identificaram o macho dominante de cada um deles e os treinou para conseguir abrir uma embalagem de frutas usando duas técnicas diferentes. Foram realizadas 30 sessões até que os macacos já tivessem intimidade com o procedimento. Enquanto eles “quebravam a cabeça” com a tarefa, os outros do bando podiam observá-los e até mesmo tentar fazer igual. Ao fim dos experimentos, os cientistas constataram que no grupo de 22 primatas, os métodos que possibilitaram a abertura das latas se espalharam muito mais rapidamente.

Macaco-de-cheiro: capacidade de aprender aumentada quando está em grupos maiores (Nicolas Claidière/Divulgação) 
Macaco-de-cheiro: capacidade de aprender aumentada quando está em grupos maiores


Desinteresse
“Como ocorre entre humanos, as inovações têm uma chance muito maior de se popularizarem quanto maior o tamanho da rede social”, diz o neurocientista evolutivo Andrews Whiten, coautor do estudo. Ele conta que a organização das redes foi mapeada conforme o posicionamento dos animais em relação ao líder do grupo. Também de forma semelhante à que acontece com o Homo sapiens, a novidade chegava mais rápido para aqueles que ficavam mais próximo do macho alfa e ia se espalhando até as extremidades. “Dentro da organização social dos macacos, os que se situam perto do líder têm maior status. Isso nos parece verdadeiro também para os homens, quando pensamos em indivíduos populares e as pessoas que os cercam”, afirma. Segundo o psicólogo, o bando composto por seis animais não se interessou tanto pela tarefa: no fim, apenas o líder continuava abrindo as embalagens.

Assim como Evan MacLean, o pesquisador da Escócia afirma que, além de mostrar que a extensão da rede de contatos é um estímulo para a disseminação de habilidades complexas, o estudo indica que o tamanho do cérebro não é o mais importante quando se trata de cognição. “As duas técnicas que ensinamos são difíceis,  as frutas ficam bastante escondidas. Ainda assim, eles aprendem tarefas complexas em grupo”, diz.

Para John Flynn, biólogo do Museu Americano de História Natural, não é possível explicar a evolução do comportamento social dos primatas apenas sob um aspecto. “O cérebro social é uma teoria interessante e que pode ser observada em diversos grupos. As pessoas geralmente ficam bastante entusiasmadas com a esperteza de seus cachorros e de outros carnívoros. Nesses casos, houve, ao longo do tempo, um aumento do tamanho do cérebro”, afirma. Contudo, ele ressalta que os resultados de estudos recentes estão demonstrando que esse fenômeno ocorreu em diversas espécies independentemente da sociabilidade. “Fósseis nos indicam que houve variações significativas da caixa encefálica de ursos e doninhas, e eles não são bons exemplos de animais sociais. Porém, as hienas têm um cérebro pequeno e podem se organizar em bando.”
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