TECNOLOGIA

A escrita e o cérebro

Especialistas da Universidade de Washington criam sistema de baixo custo que permite monitorar o funcionamento do órgão enquanto as pessoas escrevem e leem. O dispositivo deve ajudar na compreensão de desordens como a dislexia e a disgrafia

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postado em 03/07/2013 18:00 / atualizado em 03/07/2013 11:05

Uma caneta esferográfica vazia, dois fios de fibra óptica, um papel impresso com cores em degradê e um pequeno suporte feito com material similar ao MDF (derivado da madeira muito usado em móveis). Com esses componentes, uma equipe da Universidade de Washington (UW) criou um dispositivo que permite gravar a escrita dos pacientes durante um exame de ressonância magnética, uma ideia simples que deve ajudar a compreender melhor desordens como a dislexia e a disgrafia.

Desenvolvido desde 1995 pela equipe de Todd Richards, professor de radiologia da UW, a tecnologia foi apresentada recentemente na reunião anual da Organização para Mapeamento do Cérebro Humano (OHBM, na sigla em inglês) no mês passado nos Estados Unidos. Também foi descrito em um artigo na revista on-line Sensors. “Os cientistas precisavam de uma ferramenta que permitisse ver em tempo real o que uma pessoa está escrevendo enquanto um escaneamento acontece no seu cérebro”, diz Thomas Lewis, diretor do Laboratório de Desenvolvimento de Instrumentos do Centro para Desenvolvimento Humano e Deficiência da UW.

Além de permitir a façanha, o sistema tem a vantagem de ser extremamente barato: custa cerca de US$ 100. “Ele faz o mesmo que outros dispositivos por um preço 10 vezes menor”, comemora Frederick Reitz, engenheiro responsável pelo desenvolvimento eletrônico do sistema. Ele acrescenta que os outros aparelhos não têm um software que grave as ações de forma sincronizada com os estímulos e consiga medir o tempo de resposta durante os testes. Todd Richards lembra que o equipamento pode ser levado para outros hospitais e centros de pesquisa. “Ele é facilmente adaptável, porque os componentes são conseguidos com facilidade e o software usado é simples, embora possa exigir treinamento”, explica.

Um primeiro uso da ferramenta pode ser a análise do funcionamento cerebral de pacientes com dislexia e disgrafia, o que deve levar a tratamentos mais eficazes para esses problemas. “É possível observar quais áreas cerebrais são acionadas no momento da escrita e da leitura e identificar padrões neurais. (A tecnologia) Contribui bastante para a ciência e pode ajudar os profissionais a oferecerem um treino cognitivo específico para cada criança”, avalia a psicóloga especializada em neurociência e cognição da Universidade Federal do ABC (UFABC) Rosimeire Oliveira, que não participou do desenvolvimento do sistema.

Além do estudo das desordens de aprendizagem, a caneta de fibra óptica e o quadro têm outras aplicações possíveis. “Eles podem ser usados para comparar os padrões da atividade cerebral durante a escrita em indivíduos saudáveis e pacientes com doenças neurológicas, como a esclerose múltipla e a doença de Parkinson”, aponta o neurologista do Hospital Universitário de Brasília (HUB) Kauê Lopes.

 

Funcionamento
Para utilizar o sistema, os especialistas levam o paciente a uma máquina de ressonância magnética. Deitada, a pessoa segura uma caneta esferográfica comum que teve a carga removida e substituída por dois fios de fibra óptica, com 2mm de espessura e 10m de comprimento cada. Ela, então, deve simular a escrita em um papel impresso em degradê de cores, que fica apoiado no suporte.

O segredo está nos fios de fibra óptica. Um deles possui uma luz de LED, que ilumina o papel colorido, e o outro tem um sensor de cor responsável por recolher a luz refletida e transformá-la em pulsos de onda, captados por um aparelho de medição. Por meio de um mapa de cores, um programa de computador consegue ler as informações obtidas pelo sensor de cor e localizar em quais pontos do papel multicolorido a pessoa escreveu.

Simples e barato, o sistema garante resolução suficiente para mostrar os comportamentos da escrita durante os testes. O maior obstáculo enfrentado pela equipe foi descobrir uma maneira de transformar as informações coletadas pelo sensor em posições que pudessem ser interpretadas e depois vistas na forma de letras na tela do computador. “Foi surpreendentemente complicado inventar uma boa maneira de transformar cores em coordenadas de localização. Existem muitas maneiras de imprimir cores em um papel e também várias formas matemáticas para transformar a medição de vermelho, verde e azul em coordenadas de posição x e y. Nós precisamos de algumas tentativas para achar a combinação certa”, explica Frederick Reitz. O software registra o tempo que o paciente leva para escrever as letras e os momentos em que a caneta sai do papel. Todas as informações podem ser gravadas em tempo real e arquivadas. Rosimeire Oliveira ressalta a importância dessa função.

A equipe da UW realizou testes com crianças de 11 a 14 anos, sendo que algumas delas tinham sido diagnosticadas com dislexia e disgrafia. Durante os procedimentos, as crianças olhavam para instruções que apareciam em uma tela posicionada em frente aos olhos e usavam a caneta de fibra óptica para escrever. Cada uma passou por tarefas de leitura e escrita que duravam 4 minutos. Os voluntários precisavam pensar em escrever uma redação e completar palavras. “Imaginar a produção de um texto já provoca muitas respostas cerebrais similares às da escrita em si. Se você se imagina escrevendo uma letra, tem uma parte do cérebro que se ilumina como se você estivesse realmente escrevendo”, explica Richards.

Os resultados da pesquisa realizada ainda estão sendo avaliados, mas o pesquisador ressalta algumas conclusões preliminares: “Existem certos centros e caminhos neurais que nós não esperávamos ver ativados. Nós conhecemos bem as áreas neurais relacionadas à linguagem, mas como elas se conectam com os movimentos da mão é uma questão que ainda precisa ser entendida”.

Cuidados
Para a psicóloga especializada em distúrbios de aprendizagem e de comportamento Sabrina Gasparetti, a pesquisa neurológica é importante para entender a dislexia e a disgrafia, mas ela destaca que não se pode esquecer o contexto cultural e pedagógico da aquisição da linguagem e da aprendizagem da escrita. “É preciso analisar a linguagem em seu contexto dialógico. Não como uma questão de codificação e decodificação de sinais, pois ela envolve mais do que isso”, afirma.

A caracterização da dislexia e da disgrafia como doenças neurológicas é questionada, e grande parte dos psicólogos as entende como dificuldades de aprendizagem. Para Sabrina Gasparetti, é preciso lidar com os diferentes modos de aprender sem classificá-los como uma doença. “A gente tem que sair do âmbito eminentemente médico e neurológico, pois a dislexia é uma questão pedagógica. O mais importante é entender a história do processo de cognição da criança”, aconselha a especialista.

Dificuldade

A dislexia é uma dificuldade de aprendizado que afeta de 0,5% a 17% das pessoas no mundo de acordo com dados da Associação Brasileira de Dislexia (ABD). Ela pode se manifestar em pessoas com inteligência normal ou mesmo superior à média e persistir na vida adulta. Já a disgrafia é caracterizada por uma falta de habilidade ou um atraso no desenvolvimento da linguagem escrita, percebida por meio do excesso de erros ortográficos, inversões de letras, sílabas e números e pela falta ou troca de letras.

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