SIGA O
Correio Braziliense

Com a luz da alma

À margem das partituras, garoto quase cego se encanta com o violino, dedilhado há pouco tempo durante as aulas em uma escola pública do Gama. Sem ler braile, ele se ampara na audição e na memória musical

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 04/07/2013 18:00 / atualizado em 04/07/2013 10:57

Mariana Laboissière

Monique Renne
Dizem que ele toca com o coração. No caminho da música, os dedos de Luan Calisto de Oliveira, de 12 anos, se equilibram nas cordas de um violino. Aluno de uma escola pública do Gama e morador da cidade de Valparaíso de Goiás — localizada no Entorno do Distrito Federal —, o garoto teve de recorrer à força de vontade para superar uma barreira fisiológica e, assim, aprender a dominar o instrumento.

Desde o nascimento, a cegueira tomou conta de um dos olhos. Do lado esquerdo, uma janela sem imagens dá lugar a uma prótese. Do direito, embora entre luz, a visão é parcial, comprometida pelo glaucoma — doença que leva à atrofia progressiva do campo visual. Mesmo assim, há um mês e meio, Luan se arrisca a construir melodias. Ainda não sabe reproduzir uma música completa, mas se aproveita da grande habilidade que tem em decorar pequenos trechos de memória, sem a ajuda privilegiada das partituras.

Como ele, 29 alunos do Centro de Ensino Fundamental (CEF) 11, do Gama, têm aulas duas vezes por semana. Muitos, de baixa renda, desvendam um universo desconhecido até então, cheio de timbres e harmonias novas. As primeiras turmas nasceram no início deste ano, integrando um projeto-piloto da instituição. Antes do violino, os estudantes tiveram contato com violão e com aparelhos de percussão e de sopro.

Luan, por exemplo, havia se arriscado nas seis cordas, sem muito êxito. Por isso, a relação com o novo objeto musical começou sem pretensão nem futuro. Após o convite do professor de música Thiago Francis, o menino, curioso, compareceu a um dos ensaios na escola. “Ele poderia ter escolhido qualquer instrumento, mas logo tomou um violino nas mãos e se propôs o desafio”, contou o mestre.

Monique Renne
Coordenação


Segurar o arco na posição correta ainda é complicado para o garoto franzino. Ele mesmo admite. “É preciso muita flexibilidade. Não é fácil. Mas sei que as aulas me ajudam a melhorar a coordenação. Já estou me acostumando e quero me aperfeiçoar”, planejou Luan. A visão, embora não seja essencial para um músico, é um facilitador importante, como lembra o professor Thiago. “Para executar a música, é necessária a leitura da partitura, e ela fica comprometida nesse caso. Ainda não fiz a adaptação para ele, mas pretendo aumentar as letras”, adiantou. O braile não chega a ser uma opção, pois Luan não domina essa linguagem.

Esperto, o jovem muitas vezes surpreende pela forma culta de se expressar e pelas frases inesperadas para a pouca idade. Após o contato com o violino, Luan revelou ter construído um novo sonho. “Quero ser um grande empresário da música. Quem sabe até abrir uma escola?”, imaginou. “Antes, eu não tinha qualquer acesso a esse universo clássico. Não o conhecia, mas gostei muito do violino. O som é diferenciado”, emendou.

O desejo dele se mistura à vontade de outros alunos do CEF 11 da mesma faixa etária — 12 anos —, que idealizam seguir carreira profissional. É o caso de Pedro Henrique Galvão, um apaixonado por rock e que descobriu Beethoven nas aulas; e de Giuliana Holanda, que pediu à mãe para economizar a fim de comprar-lhe um violino. Matheus Lima e Rubens Moura almejam o mesmo. O primeiro tem dificuldades para tocar, mas treina sozinho para chegar ao nível dos colegas, enquanto o segundo tira letras de ouvido e quer ser professor de violino.

Orquestra

O diretor da instituição, Luiz Antônio Fermiano, é outro apaixonado pela música. Ele toca violão por diversão, mas alimenta a ideia de montar a primeira orquestra sinfônica em escola pública do DF. Para isso, falta incorporar aulas de coral à grade escolar e adquirir novos instrumentos. “Faltam recursos. Principalmente, os de sopro têm custo muito elevado, chegando a R$ 4 mil cada um. Temos vários (instrumentos) fornecidos pela Secretaria de Educação, mas não são suficientes para o que estamos nos propondo”, elucidou.

Os objetos disponíveis não podem ser levados para o treinamento em casa. Luan ainda vê distante a simples possibilidade de ter violino próprio. A família humilde, segundo ele, dá pouca importância para o fato de ele tocar violino. “Eles acham normal. Não entendem muito bem. É como o vento, que vai e vem”, comparou. Na narrativa do garoto, três irmãos mais novos, a mãe e um amigo dividem dois barracos com poucos recursos. Todos são sustentados pelo salário mínimo da prematura aposentadoria do garoto. “Seria um luxo comprar um violino. Temos sempre arroz e feijão na mesa, mas, às vezes, falta o pão”, relatou.

Enquanto o sonho é apenas delineado (veja Para ajudar), um dos únicos passatempos do garoto é a televisão — aparelho o qual mal enxerga, a não ser quando se senta bem próximo a ele. “Não tenho internet e, como não gosto de ficar na rua, sei de cor toda a programação dos canais”, detalhou, citando o nome de cada um de acordo com o horário de transmissão. Se tivesse um violino, Luan garante que trocaria o lazer pela tarefa de dominar as cordas. “Seria mais uma forma de me entreter e também poder treinar”, observou.

Participação

Desde 1999, o Centro de Ensino Fundamental (CEF) 11 possui uma banda marcial. No feriado de 7 de Setembro, 12 alunos integrarão o grupo musical do DF durante as apresentações cívicas.

Para ajudar
Os interessados em colaborar para que Luan tenha o próprio violino e uma televisão de tela grande podem entrar em contato com o professor Thiago Francis, pelo telefone (61) 9113-4696. O Centro de Ensino Fundamental (CEF) 11 também precisa de doações de instrumentos para montar uma orquestra sinfônica.
Tags: