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Um violino para chamar de seu

O garoto com glaucoma que se destaca nas aulas de música no Gama ganha um instrumento próprio e conquista a solidariedade de mais gente disposta a ajudar

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postado em 05/07/2013 18:00 / atualizado em 05/07/2013 10:27

Mariana Laboissière

Monique Renne
Ontem, o Centro de Ensino Fundamental (CEF) 11, no Gama, parou para ver Luan Calisto de Oliveira, de 12 anos, nas páginas do jornal. A história do garoto, parcialmente cego, em busca do sonho de ser violinista, foi contada na edição de quinta-feira do Correio Braziliense e mobilizou leitores interessados em fazer doações, tanto ao estudante quanto à escola.

Nas primeiras horas da manhã, o telefone do professor de música Thiago Francis, responsável pelas aulas de violino na instituição, não parava de tocar. Até o fechamento desta edição, o menino sonhador e a escola pública tinham conseguido muito além do que esperavam. Pessoas de vários cantos do DF se mostraram solidárias. Prometeram violinos, aparelho de televisão e até ajuda em dinheiro.

No novo encontro com o pequeno, ele estava radiante. Satisfeito por ter conseguido atrair olhares até então distantes. Garantiu que se dedicará ao máximo para conseguir chegar ao patamar de um grande empresário do ramo musical, mas admitiu ter consciência de que, sem persistência, não sairá do lugar. “A música está mudando a minha vida. Até agora, abriu muitas portas para mim. Sei que acontecerá o mesmo aos meus colegas”, afirmou o menino. Assim que estiver craque nas quatro cordas, ele planeja fazer uma apresentação na igreja evangélica onde a família frequenta. Fantasia, inclusive, tocar para um grande público no futuro. “Por enquanto, não conheço ninguém tão importante a esse ponto, mas claro que quero poder chegar lá”, exclamou.

Entre as doações, o primeiro violino encaminhado à escola veio por meio de um empresário. O objeto, no entanto, ainda é grande para as mãos de Luan. Por isso, ele continua treinando no fornecido pela Secretaria de Educação. Isso até que outros de tamanho menores — também fruto de doações — apareçam ou até que a idade lhe dê a estrutura necessária para dominar o arco e o corpo do aparelho.

Diagnóstico

Ao falar em amadurecimento, os olhos de Luan se perdem no horizonte. Segundo ele, nos primeiros anos de vida, deram-lhe o triste diagnóstico de que ele ficaria completamente cego aos 18 anos, em função da progressão do glaucoma congênito. “Acredito que, se continuar me tratando com remédios, poderei controlar a doença. Mas sei que tudo tem sua hora”, ponderou a criança.

Para manter o quadro clínico estável, Luan precisa pingar dois colírios em um dos olhos. Mas as soluções custam caro, algo em torno de R$ 130 — dinheiro que a família não dispõe. As seis pessoas que moram na casa do garoto são sustentadas por um benefício dado a portadores de deficiência, definido anteriormente por Luan como uma aposentadoria. A assessoria do O Instituto Nacional do Seguro Social (Inss) esclareceu, por meio de nota, que se trata do Benefício de Prestação Continuada da Assistência Social (Suas), assegurado por lei e pago pelo Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. O auxílio possibilita a pessoas enquadradas nesse perfil (idosos e deficientes) “condições mínimas de uma vida digna”.

Sobre a doença de Luan, o oftalmologista Ricardo Castanheira de Carvalho explicou ser indispensável a administração de colírios. As misturas têm a função de manter a pressão do olho em níveis aceitáveis. “O glaucoma é a maior causa de cegueira tratável do mundo. Então, a falta de acesso acaba resultando nessa consequência irreversível”, alertou. “Em adultos, a cegueira pode ocorrer a longo prazo, mas, em crianças, dependendo da idade, ela pode vir em dois ou três meses”, acrescentou (veja Palavra de Especialista).

Olhos fechados

Para espantar as lembranças e o nervosismo durante os ensaios, Luan prefere manter os olhos fechados. Assim, tenta se esquecer do mundo e se deixa levar pelas delicadas notas do violino. Para o professor Thiago Francis, essa, realmente, é a melhor maneira de o garoto se concentrar no som produzido pelo instrumento. “Alunos iniciantes, como ele, precisam de muita coordenação para direcionar o arco no percurso correto e acertar o ângulo de inclinação a fim de não esbarrar nas cordas erradas. Ele, curiosamente, já faz isso muito bem”, opinou.

Até o fim do ano, Thiago acredita que o pequeno esteja apto a prestar uma prova para ingressar na Escola de Música de Brasília. Até lá, contudo, o professor alerta haver um longo percurso, cheio de desafios. “Não é fácil, e disso ele já está ciente. Nas próximas aulas, por exemplo, os treinos se intensificam e ele trabalhará mais os dedos. Será preciso ainda mais força de vontade”, antecipou.

Enquanto a história de Luan é projetada num livro em branco, o pequeno se agarra ao dom de memorizar a sequência das notas repassadas pelo professor. A ajuda das partituras ainda não é possível, pois os papéis precisam ser adaptados para a leitura do garoto. Ontem, quando a reportagem visitou o CEF 11, Luan fez questão de mostrar o que sabe. Acompanhado do professor, tocou uma melodia, e a maestria na execução rendeu-lhe elogios do mestre. “A partir de agora, vou dar o meu máximo. Estou muito entusiasmado, pois sei que estou fazendo algo produtivo”, finalizou.

Palavra de especialista

Nervo ótico comprometido

“O glaucoma congênito é uma má-formação ocular em que a área de drenagem do líquido do olho, chamado humor aquoso, não fica completa. O olho acaba por ter uma pressão mais alta, e isso ocasiona a destruição do nervo ótico. Uma forma fácil de entender a doença é imaginar uma caixa d’ água. A mesma quantidade de líquido que entra sai. Se você obstrui a saída, a pressão dentro dessa caixa vai subir. O nosso olho é como a caixa d’ água. Ele tem um sistema que produz o líquido, e outro que drena. Tendo uma produção excessiva, a pressão aumenta e, no caso do glaucoma congênito, a área de drenagem não se forma adequadamente. Então, há essa dificuldade de escoamento, portanto, a pressão sobe, e as células deixam de receber nutrição. Se não controlada, é uma doença progressiva. Usualmente, o tratamento do glaucoma congênito é cirúrgico. Depois, são usados colírios para manter a pressão do olho controlada, mas eles têm alto custo. Se não houver acompanhamento adequado, a tendência é a cegueira.”

Ricardo Castanheira de Carvalho, oftalmologista

Colírios

Para ajudar Luan a comprar medicamentos,
os interessados podem ligar para o professor
Thiago Francis, pelo telefone (61) 9113-4696.
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