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>> entrevista José Geraldo de Sousa

Construção da cidadania

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postado em 05/07/2013 12:05 / atualizado em 05/07/2013 12:07

Leilane Menezes

As seguidas manifestações de jovens pelas ruas de Brasília e do país trouxeram uma nova motivação para José Geraldo de Sousa. Ex-reitor da Universidade de Brasília com extenso trabalho na mediação de conflitos sociais, ele defende a abertura do pensamento jurídico, que, de acordo com ele, precisa se flexibilizar para traduzir os anseios do povo.
Na avaliação do ex-reitor, a maioria dos jovens engajados do DF tem ligação com o quadro de alunos ou professores da universidade mais importante do Centro-Oeste. José Geraldo é uma das vozes ressonantes da academia.
Assumiu o principal cargo administrativo da UnB em 2008. Ocupou a vaga após a crise na gestão de Timothy Mulholland, acusado de improbidade administrativa e absolvido pela Justiça. Em 2012, deu lugar ao atual reitor. Estudioso de movimentos populares, José Geraldo defende a teoria de que o direito deve ser fruto de transformações sociais.

A UnB contribuiu para a recente mobilização social?
Uma grande parte dos manifestantes vem aqui desse território. Gente que já viveu a experiência da ocupação da reitoria (que pedia a saída de Mulholland) e sempre participa de assembleias. Eles têm experiência em reivindicar. Naquela relação estapafúrdia que a Secretaria de Segurança Pública do DF estabeleceu entre alguns jovens de Brasília, querendo criminalizar o protesto, todos eram da UnB.

O que se pode esperar do movimento que foi às ruas?
A força de um novo modo de fazer interlocução no campo da política. O de ocupar a esfera pública, no caso a rua, considerando a dimensão simbólica que a expressão rua traz, ela é o lugar de acontecimento, de construção de cidadania e de construção do direito. Uma representação forte no imaginário poético e sociológico brasileiro, que tem valorizado esse âmbito de protagonismo. Lembrando Marshall Berman (filósofo estadunidense): “A rua é onde a multidão se transforma em povo e se faz sujeito da própria história”.

O protesto é heterogêneo: tem muitas vozes e uma pauta recheada de itens. Isso é bom ou ruim?
Tentar desqualificar essa presença pelo argumento da alienação, da falta de informação, é um erro. Com isso, se ignora um elemento crucial da experiência histórica e política, que é a relação entre a consciência real e a consciência possível. A real é aquela que você pode medir pela capacidade de responder a certas perguntas como: o que é a PEC 37? A possível é a que está subliminarmente incorporada na cultura de uma geração, na subjetividade de segmentos que acumulam experiências e transmitem-nas de vários modos. No tempo do impeachment, quando Collor pediu que se vestisse verde e amarelo, as diferentes gerações, politizadas ou não, saíram de preto. Não houve palavra de ordem para isso. Foi uma fusão dessa subjetividade possível, que se materializou numa grande mobilização.

O organizador da Marcha do Vinagre tem 17 anos. Estamos vendo uma geração politizada?
Muita gente tem também desqualificado a ação juvenil e estudantil sobre o pressuposto de que a conjuntura atual é descolada da ação política. É outra consideração falsa. A política pode ser feita de muitas maneiras. Quando a gente imagina que ela não se realiza, é porque a gente não a reconhece quando é feita de forma não tradicional.

Brasília tem histórico de lutas?

A comunidade do Paranoá lutou pelo direito à moradia, muita gente não  lembra. Em Brasília, para além do planejar do urbanismo, há um protagonismo da história na qual os sujeitos reivindicam a polis para construir cidadania. Na Vila Telebrasília, o outdoor de aparência tosca, na porta da comunidade diz: “Aqui tem história”. Nunca vi nada assim, em outro lugar do mundo. Também trabalhamos a pedagogia das virtudes, como o exemplo da faixa de pedestres. Foram as crianças que cobraram dos pais o respeito à regra, não por medo da multa, mas por cidadania.

O que esse processo diz sobre a sociedade atual?
Essa presença fortalece a ideia de democracia direta, que já havia sido experimentada quando na transição da ditadura para um governo civil, abrindo espaço constituinte, para pensar outra forma de valorização da participação popular, permitindo que o povo fosse finalmente reconhecido como a fonte principal da política e do direito. A soberania popular é o que se revela nesse processo, com tal força que os poderes derivados dessa soberania (Executivo, Legislativo e Judiciário) estão correndo atrás e buscando legitimidade.

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