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Entorno está na fila para receber médicos

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postado em 10/07/2013 18:00 / atualizado em 11/07/2013 16:06

Étore Medeiros , Camila Costa , Luiz Calcagno

Monique Renne
O Ministério da Saúde divulgou ontem uma relação de 1.582 áreas consideradas prioritárias para o envio dos médicos que serão contratados no âmbito do programa anunciado pela presidente Dilma Rousseff, na segunda-feira. Metade das 22 cidades do Entorno do Distrito Federal está na lista. “Temos 26 médicos para 100 mil habitantes. Os moradores têm de pagar pelo atendimento particular ou recorrer à saúde pública do DF. Ainda não sabemos quantos médicos vamos receber, mas precisamos de, pelo menos, 15”, avalia Valber Tavares, secretário de Saúde de Santo Antônio do Descoberto (GO). Na verdade, para atingir o índice de 1,83 médico por grupo de mil habitantes, que é a média do Brasil — inferior, porém, a países como Argentina e Uruguai —, o município goiano teria de contar com mais 157 médicos.

No Novo Gama (GO), a situação é surpreendentemente oposta: “O pessoal vem do DF, principalmente de Santa Maria e do Gama, para ser atendido aqui, porque lá (no DF) falta médico. Como temos uma população de quase 100 mil pessoas, não dá para comportar toda essa gente”, explica o diretor do pronto-socorro da cidade, Delquias Pereira. Ele comemora a possível chegada de novos profissionais ao município. “Serão bem-vindos, claro. Mas precisamos, em primeiro lugar, de um hospital ou da ampliação do posto. Os novos médicos não terão sequer onde atender”, explica Pereira, lembrando que o local tem apenas dois consultórios, já ocupados pelos dois médicos que trabalham na unidade, por turno. Outra dificuldade apontada pelo gestor é a precariedade do material de trabalho. “A maioria dos nossos equipamentos já está ultrapassada. Estamos tão próximos de Brasília, mas parece que paramos no tempo”, lamenta.

A varredora de rua Regiane dos Santos Soares, 27 anos, saiu de Santa Maria rumo ao Novo Gama com o filho João Pedro, de 1 ano e meio. “Fui aos hospitais de Santa Maria e do Gama, mas estavam lotados. Muita gente acaba vindo para cá porque lá o atendimento é difícil. Aqui, nunca deixei de ser atendida”, atesta Regiane. Para ela, a vinda de médicos estrangeiros não é ruim, mas não gostaria de ver o filho ser atendido por um médico de outro país. “Não coloco meu filho na mão deles não, nem se forem da Europa. Vai que eles têm raiva da gente?”, comenta, desconfiada. Ao olhar novamente para o bebê, respirando com a ajuda de um nebulizador, acaba mudando de ideia. “Se só tiver eles para atender, vai ser o jeito”.

Willie Teles, 31, clínico geral, atua no Pronto-Socorro do Setor Leste, em Luziânia (GO). “Esse é meu também?”, pergunta à paciente Amanda Sousa, 18, sobre Bianca, de 2 meses, ao recebê-las no consultório. O médico conta que em 2012 fez praticamente todos os pré-natais da cidade, mesmo não sendo ginecologista, devido à falta de profissionais da área (leia depoimento ao lado). “Falta material para curativo, é difícil contar com exames laboratoriais…”, lamenta.

As outras seis cidades goianas do entorno do DF que têm prioridade no Programa Mais Médicos são Águas Lindas, Alexânia, Cristalina, Formosa, Pirenópolis e Valparaíso de Goiás. Fecham a relação do entorno os municípios mineiros de Unaí e Buritis. O Distrito Federal espera ser contemplado com pelo menos 100 médicos do programa, segundo o secretário de Saúde, Rafael Barbosa. “O foco será o fortalecimento da atenção primária, em todas as cidades, porque não temos 100% de cobertura em nenhuma”, explicou.

11
Número de cidades do Entorno incluídas no Programa Mais Médicos

Depoimento

 

Willie Teles, 31, clínico-geral do Pronto-Socorro do Setor Leste de Luziânia (GO)
“Sou clínico geral, mas, no ano passado, fiz praticamente todos os pré-natais de Luziânia, atendi gente até de outras cidades, pois aqui não tínhamos ginecologista. Eu namoro uma vaga em Jericoacoara (CE) desde antes de me formar, mas não tenho coragem de ir. O que acontece se alguém morre na minha mão? O juiz e o advogado não estão interessados se faltou equipamento, infraestrutura… Vão me responsabilizar. Por isso, ninguém quer ir para o interior. Acredito que o prioritário é melhorar a infraestrutura e reforçar as equipes do SUS, com profissionais de outras especialidades da área da saúde. Não quero parecer idealista, mas, desde que entrei no curso de medicina, já queria trabalhar na rede pública. Mas uma coisa é ter aulas práticas, na faculdade. Outra é assumir as responsabilidades que víamos os nossos professores assumirem. Eu não imaginava que seria tão difícil. É triste passar por isso, porque a gente sonha em diminuir o sofrimento das pessoas. Mas nenhuma dificuldade é insuperável quando recebemos o reconhecimento dos pacientes. Pretendo pensar assim até me aposentar.”

 

 

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