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Correio Braziliense

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Joias buriladas no silêncio

Jovem surdo é contratado como trainee em joalheria na Asa Norte e comunica-se com os colegas por meio de gestos e palavras escritas. Entre alicates e maçaricos, ele ajuda a família, que mora em Ceilândia

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postado em 12/07/2013 17:00 / atualizado em 12/07/2013 13:12

Ana Pompeu

Gustavo Moreno
O trabalho com a produção de joias não exige necessariamente o sentido da audição. Sem ela, no entanto, qualquer profissão pode encontrar um obstáculo a mais. O apoio da família, o preparo de professores, a disposição dos colegas e a própria postura do surdo integram uma lista de fatores que podem minimizar a deficiência. Samuel Antunes Queiroz, de 21 anos, é surdo, teve uma oportunidade e soube aproveitá-la. Quando todas as vagas de emprego eram braçais, ele encontrou no curso de ourivesaria uma forma de tirar proveito das habilidades manuais.

Hoje, é ourives em uma joalheria na 214 Norte. Trabalhando como trainee desde 1º de abril, produz as peças da loja com outros dois profissionais. Tudo começou quando ele soube, por uma professora, sobre um curso técnico na área. Samuel estuda o 2° ano do ensino médio no Centro Educacional 6, em Taguatinga. No primeiro momento, não entendeu bem do que se tratava. Por meio de Gleiciane Melo, intérprete de Língua Brasileira de Sinais (Libras), o jovem relatou o processo: “Contei a minha mãe e ela foi até a escola perguntar à diretora. Só então nós entendemos melhor, e eu fiquei curioso. Conversei muito com a minha mãe para decidir se faria. Tive medo de não conseguir conciliar com a escola e de não dar conta”. As aulas eram de segunda a sexta, no período da tarde.

Pontualidade

A Associação Brasileira de Gemas e Joias (Abragem) promoveu as aulas entre outubro e março deste ano, dentro do projeto de capacitação Passaporte de Superação. Durante seis meses, Samuel saía do Condomínio Privê, na Ceilândia, pela manhã, e seguia para a escola gratuita em Taguatinga. De lá, o destino era a 909 Sul. O Colégio Caseb serviu de espaço para o projeto. “Um curso de ourivesaria custa, em média, R$ 5 mil, além das peças e dos materiais que o aluno precisa comprar. Normalmente, são embaixadores, altos funcionários públicos aposentados que fazem como hobby. O mercado precisa de pessoas capacitadas”, destacou o presidente da Abragem, Harilton Vasconcelos.

Samuel teve a sorte de descobrir um talento numa área que tem demanda por profissionais. Ele gostou de aprender o ofício (veja Para saber mais). Depois de uma visita da turma à joalheria da Asa Norte, a proprietária, Vânia Ladeira, decidiu abrir uma vaga para um deles. Quando se formou, ele foi selecionado. “O acabamento foi o primeiro critério que avaliei. As peças dele eram muito benfeitas, mas também gostei do jeito dele”, lembra. Para Vânia, a escolha foi acertada. “Ele é um jovem focado, sempre pontual e assíduo”, completa ela. A empresária acrescenta que são necessários anos de experiência no ofício para ser perito e conta que Samuel se deu muito bem com a peça ícone da loja, a aliança Mil Arcos, que leva soldas discretas e difíceis de fazer.

A joalheria tem quatro anos e Samuel é o primeiro deficiente a ser contratado. “A experiência é muito rica para todo mundo. A partir do momento em que estamos convivendo com o diferente, precisamos nos adaptar. Isso estimula a criatividade. Ele precisa me entregar as peças que eu peço. Tanto ele quanto nós teremos que nos adaptar a essa realidade”, analisa a empresária.

A intenção é fazer com que os outros funcionários estudem Libras. Diego Rafael de Souza, de 29 anos, trabalha com ourivesaria há 17 e é o tutor de Samuel na oficina. “Quando dou uma carona para ele até a Rodoviária, a gente tem mais tempo e eu vou pegando uma palavra ou outra”, contou Diego.

Caneta e bloco

Quem está de fora pode imaginar que a maior dificuldade seja a comunicação. O jovem, no entanto, não confirma essa ideia preconcebida. “O meu colega se esforça para conversar comigo. Todos tentam me perguntar como foi meu dia. Eles se preocupam, cuidam de mim”, relatou ele, que se esforça para dar conta de peças mais difíceis. Além de fios, pedras, alicates e maçarico, caneta e bloquinho também são objetos essenciais no dia a dia da oficina. E com desenhos, algumas palavras escritas, outros gestos em Libras, Samuel entende, se faz entender e se sente integrado no ambiente de trabalho.

Quem convive com o ourives diz que ele parece viver num mundo só dele. Samuel faz movimentos tímidos, mas não esconde, porém, o orgulho de ter conquistado um emprego e um salário. “Venho de uma família simples. Nessa condição e sendo surdo, só apareciam trabalhos braçais. Procurei emprego antes. Hoje, ajudo como posso a minha mãe. Já pude comprar brinquedos para a minha irmã, ajudar os meus irmãos”, alegra-se.

Ele recebe um salário mínimo para uma jornada de cinco horas diárias. “É uma satisfação muito grande ver um filho com necessidades especiais em um trabalho de que ele gosta. Sempre me preocupei com o futuro dele, mas, hoje, estou esperançosa”, disse a mãe ,Vilma Rodolfo de Queiroz, de 41 anos. Samuel é o primogênito de quatro filhos.

Ourives são artistas. Eles trabalham com peças delicadas e deles são exigidos não menos que a perfeição. Diego de Souza, por exemplo, lidou com xilogravura quando morava no Ceará, além de esculturas em vidro e peças de gesso. Samuel não foge à regra. Ele aprendeu a desenhar sozinho e se dedicou a aprimorar os traços no fim da década de 1990. Talvez faça uma faculdade na área de artes, mas a prioridade é o trabalho. Ele se encontrou na oficina da joalheria e deve fazer um curso superior se for possível conciliar os dois, porque será importante para o crescimento profissional.

Para saber mais

Técnica antiga

A ourivesaria é uma das atividades mais antigas e importantes do mercado de pedras preciosas e se trata da técnica na qual as joias e os ornamentos são produzidos artesanalmente. O trabalho é feito com metais preciosos (especificamente prata e ouro). Peças em ouro foram encontradas em sítios arqueológicos no mar Egeu, em torno de 2500 a.C. No Egito Antigo, já se produziam trabalhos altamente detalhados. Na Idade Moderna, os profissionais tinham prestígio perante os reis e toda a Corte. O ourives é responsável por todo o processo de fabricação, que passa por martelagem, modelagem, soldagem e refinamento. O ofício é diferente do designer de joias. Esses profissionais projetam, ordenam, planejam a produção em série das peças da joalheria, com prioridade à função estética, conforto e durabilidade.
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