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Vidas transformadas

A vida é mais complicada para quem troca de sexo. Mesmo assim, os transexuais seguem em frente e, aos poucos, começam a conquistar espaço na sociedade

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postado em 15/07/2013 18:00 / atualizado em 15/07/2013 11:19

Gustavo Moreno

Durante alguns anos, quando o estudante Marcelo Caetano, 23 anos, estava na faculdade ou passeando no shopping, preferia se segurar para ir ao banheiro em casa. Quando precisava de uma roupa nova, ia até a loja e adquiria o produto sem experimentar. Preferia fazer o teste em casa a usar os trocadores nos estabelecimentos comerciais. Se a nova compra não caísse bem, voltava à loja e trocava. Atualmente, está tendo dificuldades em assinar um contrato de estágio: como atuará em dois órgãos do governo, vai precisar de dois crachás com o nome, direito que talvez não seja garantido porque Marcelo, como exige ser chamado, não é o nome que consta no registro de nascimento. “Se eu não conseguir esse crachá, não vou assinar”, afirma.

Problemas com esses hábitos simples fazem parte da rotina dos transexuais, especialmente quem ainda não concluiu a chamada “passagem”, que é quando o tratamento hormonal está começando e a aparência deixa dúvidas sobre o gênero da pessoa. É comum evitar banheiros públicos, por medo de comportamentos hostis de ambos os sexos. Quem ainda não conseguiu mudar o nome de registro para o social sofre diariamente em bancos, cartórios, entrevistas de emprego e até no trabalho.

O principal problema enfrentado é na hora de formalizar o registro da carteira de trabalho: muitos empregadores, ao perceberem que estão conversando com alguém que mudou de sexo, não cogitam a contratação. Muita gente acaba nas ruas. “As pessoas não querem recrutar a gente, somos marginalizadas”, descreve Letícia Pires, 42. Ela trabalha como cabeleireira e maquiadora, e tem planos de abrir o próprio salão, para tirar outras mulheres trans de situações degradantes.

Janine Moraes

A servidora comissionada Vitória Régia, 29, passou por duas experiências malsucedidas para encontrar trabalho. Ela ainda não conseguiu mudar os documentos para o nome que escolheu, mas não tem problemas em esclarecer que aquele registro masculino é dela. Nas duas entrevistas em que foi rejeitada, os selecionadores mal falaram com ela e informaram que telefonariam avisando do resultado. Vitória ficou sem resposta. “Fiquei chateada, porque eu sabia que era por causa da minha aparência. É bom ser mulher, mas emprego é muito importante. Eu estudei para quê?”.

 

Trâmite
O nome social passa a constar nos registros automaticamente depois da cirurgia de mudança de sexo. Na rede particular, o procedimento custa entre R$ 20 mil e R$ 30 mil. Apesar de ser um atendimento que o Sistema Único de Saúde (SUS) cobre, o serviço não é oferecido no DF. “Nós não entendemos a transexualidade como uma doença, mas é uma situação que pode levar a um distúrbio de adaptação. A inadaptabilidade social da pessoa e o desconforto emocional passam a ser uma preocupação nossa”, explica o secretário adjunto de Saúde, Elias Miziara. Atualmente, o Hospital Universitário de Brasília (HUB) oferece atendimento psicológico a essas pessoas.

Mesmo sem passar pela cirurgia, os transexuais podem entrar na Justiça para provar que vive como o sexo oposto. A educadora Ludymilla Santiago, 30, mudou todos os documentos com o nome que escolheu há dois anos. Depois da alegria em mostrar a carteira de identidade, ela percebeu que ainda precisa da cirurgia para se sentir completa. “Essas mudanças são preponderantes para mim, mas é muito caro e eu preciso me sustentar. No DF, a coisa é muito precária. Esse processo é sofrido, doloroso”, descreve.

Liberdade
Nem todos os casos de transexuais são permeados por brigas familiares e violência. A história da servidora pública Bianca Moura, 42 anos, logo deve terminar em final feliz: ela é a quarta da fila de espera para a cirurgia em Goiânia. “Naquele corpo masculino, eu não me sentia à vontade. Aos 25 anos, cheguei ao meu limite de tolerância. Resistia à transformação, porque via aquilo como algo negativo”, lembra. Depois que se afirmou como Bianca, a resposta em casa foi positiva: os parentes a enxergam como mulher. Concursada, ela é respeitada no trabalho e tem a guarda de dois sobrinhos, que cuida como se fossem filhos.

O sentimento de libertação conquistado por Bianca é ponto comum entre todos os transexuais. Vitória, por exemplo, se diverte com cantadas de homens na rua. “É um reconhecimento. A gente fala tanto em como ser trans é difícil, mas é uma vida muito feliz também”, garante. Outra alegria é poder ajudar aos semelhantes. Segundo Ludymilla, o trabalho é satisfatório diante da esperança de que a sociedade torne-se mais tolerante para as gerações futuras. “Sou uma minoria mal- aceita. O racismo existe nesse país há 500 anos, essas questões não desapareceram. Mas sou feliz pela luta e pelo empoderamento que isso me deu”, garante.

Para saber mais
Denúncias
Em seis meses, o Núcleo de Atendimento Especializado às Pessoas em Situação de Discriminação Sexual, Religiosa e Racial (Nudin), da Secretaria de Desenvolvimento Social e Transferência de Renda, atendeu quase o mesmo número de ocorrências registradas em 2011 e em 2012. Nos dois anos anteriores, a média de atendimentos mensal era de 275 casos, sendo 192 ligados ao preconceito sexual e 134 especificamente relacionados a travestis e transexuais. De janeiro a 11 de julho, o Nudin contabilizou 250 atendimentos mensais — 182 casos de questões sexuais e 127 travestis e transexuais.

O histórico de violência sofrido por essas pessoas envolve transfobia institucional e familiar, prostituição, abuso e exploração sexual e dependência química. De todas as pessoas trans atendidas nos últimos 30 meses, apenas sete conseguiram emprego formal, e a maioria só conseguiu com o apoio do Nudin. O nível de escolaridade costuma ser baixo, e algumas são praticamente analfabetas. A participação dos homens trans também é tímida: apenas quatro procuraram ajuda na secretaria.

 

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