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CIÊNCIA

O Ártico pelo ralo

Segundo estudo da Holanda e da Inglaterra, o derretimento das geleiras no extremo norte da Terra pode causar um prejuízo para o mundo de US$ 60 trilhões. O impacto financeiro será maior na África, na Ásia e na América do Sul

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postado em 25/07/2013 12:12

Paloma Oliveto


Mudanças no Ártico atingem o clima da Terra e o comportamento dos oceanos: a estimativa é de que não exista mais gelo sobre a água em 2050 (Steven C. Amstrup/Divulgação) 
Mudanças no Ártico atingem o clima da Terra e o comportamento dos oceanos: a estimativa é de que não exista mais gelo sobre a água em 2050


Se as consequências ambientais não sensibilizam, o peso no bolso pode ter um grande impacto sobre a conservação do Ártico. Com essa ideia, pesquisadores da Universidade de Roterdã, na Holanda, e da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, foram atrás dos prejuízos financeiros decorrentes da degradação de um dos ambientes mais afetados pelo aquecimento do planeta. Eles constataram que o preço do derretimento de gelo, cada vez mais acelerado, poderá ser de US$ 60 trilhões, quase o valor movimentado pela economia mundial no ano passado, que foi de US$ 70 trilhões. Isso considerando os danos provocados apenas pela emissão de metano, gás estocado sob o solo congelado.

Uma conta que será paga pelos mais pobres: “As consequências financeiras serão distribuídas pelo globo, mas cerca de 80% das catástrofes relacionadas ao clima afetarão os países mais pobres da África, da Ásia e da América do Sul”, alertaram os pesquisadores, em um artigo publicado na revista Nature. O cálculo foi feito levando em consideração as perdas econômicas decorrentes de períodos extensos de estiagem, cheias e tempestades previstos para ocorrer na próxima década.

O cálculo também considera o que será gasto com saúde pública, pois diversas doenças, como enfermidades respiratórias e infecciosas, aumentam em consequência da temperatura elevada. “Todas as nações precisam se preocupar com as mudanças no Ártico. Todas serão, de alguma forma, afetadas”, alertou, em uma coletiva de imprensa, Peter Wadhams, chefe do grupo de pesquisas sobre o Oceano Ártico da Universidade de Cambridge. De acordo com o cientista, a rápida degradação da região pode deflagrar uma “bomba-relógio econômica”.

Nos últimos 11,3 mil anos, poucas vezes o planeta esteve tão quente — hoje, a temperatura está mais alta do que foi em 80% do longo período de 113 séculos, segundo um estudo da Universidade de Harvard que reconstituiu o clima da Terra graças a registros geológicos. No início do Período Holoceno, a Terra era 2ºC mais quente do que agora, como consequência da onda de aquecimento que derreteu boa parte do gelo do planeta. Cinco mil anos atrás, contudo, a tendência se inverteu, com um esfriamento de 0,7°C. O clima ficou estável até que, há 100 anos, os termômetros marcaram 0,7°C a mais, em um curto espaço de tempo. No Hemisfério Norte, onde a atividade industrial foi mais intensa desde o fim do século 19, esse aumento foi ainda maior: 2ºC. Segundo as projeções da ONU, até 2100, a temperatura global poderá crescer de 1,1ºC a mais de 6ºC, dependendo do quanto os países conseguirão frear a emissão de gases de efeito estufa.

Regulador de oceanos
Uma das regiões mais afetadas pelas mudanças climáticas é o Ártico, que, do extremo norte, regula o comportamento de todos os oceanos e o próprio clima da Terra. A água proveniente do Oceano Atlântico, por exemplo, entra pela Noruega, onde é esfriada e se torna menos salina, para depois ser redistribuída pelos demais oceanos que existem no mundo. “O desaparecimento iminente do gelo do Ártico durante o verão terá implicações enormes para as mudanças climáticas”, alertou Wadhams. A Administração Nacional do Oceano e da Atmosfera dos EUA estima que, antes de 2050, não exista mais gelo cobrindo as águas do Ártico na estação do calor.

O derretimento do permafrost, o solo congelado característico dessa região, tem sido esperado com grandes expectativas econômicas por Estados Unidos, Rússia, Dinamarca e Canadá, países que dividem o Ártico. Não devido ao lado catastrófico, mas pelos recursos naturais riquíssimos que, por enquanto, não podem ser explorados. Acredita-se que até 30% do petróleo do planeta esteja lá. Além disso, há gás natural e carvão em abundância.

É justamente a existência de grandes quantidades de gás que preocupa os cientistas. Sem a camada de gelo, a substância será lançada na atmosfera. Pelos cálculos dos pesquisadores de Roterdã e de Cambridge, a emissão de 50 gigatoneladas de metano ao longo de uma década provocará os prejuízos de US$ 60 trilhões. O modelo usado no estudo segue o método Stern Review on the Economics of Climate Change, aplicado atualmente pela Agência de Proteção Ambiental dos EUA, o ministério do meio ambiente americano. “Sem medidas de mitigação, não haverá escapatória. Pelo ritmo atual de derretimento, o mundo pode aguardar essas perdas”, advertiu Chris Hope, coautor do estudo e especialista em políticas públicas da Universidade de Cambridge.

Também coautora do artigo, Gail Whiteman, da Universidade de Roterdã, disse na coletiva de imprensa que, mesmo que as emissões de metano sejam menores do que o previsto no estudo, prejuízos econômicos vão ocorrer. “Nem o Fórum Econômico Mundial nem o Fundo Monetário Internacional reconhecem atualmente os perigos econômicos associados às mudanças no Ártico. Nosso conselho é: ‘prestem mais atenção’”, afirmou.

Também na Antártida

Pela primeira vez, cientistas documentaram uma aceleração na taxa de derretimento do permafrost em uma região da Antártida em que a camada de gelo era, até agora, considerada estável. De acordo com os cientistas que detectaram o fenômeno, isso faz com que o continente gelado se aproxime da realidade do Ártico, onde a rapidez da dissolução das calotas tem sido recorrente. Os dados foram monitorados na região dos Vales Secos de McMurdo, entre 2001 e 2012. De acordo com Joseph Levy, pesquisador da Universidade do Texas em Austin e autor do estudo publicado na Scientific Report, durante o período, a taxa de derretimento aumentou 10 vezes, comparado à média histórica da época geológica atual. “O que os dados nos dizem é que o gelo está desaparecendo. Ele está derretendo em uma taxa cada vez mais veloz”, disse. Levy explicou que não há sinais nos registros geológicos de que algo semelhante tenha acontecido no passado. “Essa é uma mudança dramática e recente.”
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