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CIÊNCIA

Memórias implantadas

Grupo de pesquisadores consegue criar falsas recordações em ratos por meio de estimulação cerebral. O experimento mostra que o processo das lembranças irreais é igual à evocação dos eventos verídicos

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postado em 26/07/2013 18:00 / atualizado em 26/07/2013 10:44

Paloma Oliveto

Durante mais de uma década, Jean Piaget acreditou que havia sido vítima de tentativa de rapto aos 2 anos. A lembrança do quase sequestro era, aliás, sua memória mais antiga. Ele se recordava de detalhes, como estar sentado na cadeirinha, vendo a babá defendê-lo do bandido, enquanto este arranhava o rosto da heroína. Em seguida, um policial de capa e cassetete conseguiu evitar o crime. O fato era contado frequentemente pela babá, por familiares e por outras pessoas que tinham ouvido falar no caso. Contudo, isso jamais aconteceu. Quando o psicólogo infantil francês estava na adolescência, a empregada escreveu uma carta, confessando que havia inventado tudo. “Escutei a história na infância, a projetei para o passado em forma de memória visual, que era a memória de uma memória, mas falsa”, contou Piaget mais tarde.

Recordar algo nunca ocorrido é comum e pode acontecer com pessoas de qualquer idade. Muitos indivíduos nem sequer percebem que determinadas lembranças foram criadas, pois as cenas e até os sons evocados pelo cérebro surgem com a mesma nitidez e grau de detalhamento das memórias reais. Agora, pesquisadores do Centro de Circuitos Genéticos Neurais Riken-MIT, uma parceria entre cientistas japoneses e americanos, demonstraram como o processo de implantar falsas recordações se dá no nível neuronal. Para isso, eles utilizaram uma tecnologia de ponta, a optogenética, que usa pulsos de luz para identificar e estimular redes dentro do cérebro. O resultado do estudo foi publicado na edição desta semana da revista Science.

De acordo com os neurocientistas, as memórias são armazenadas em sistemas celulares comparados a pecinhas de Lego. Quando a pessoa se recorda de uma sequência de eventos, o cérebro reconstrói o passado juntando os “tijolos” de dados, mas somente o ato de acessar as lembranças já modifica e distorce a realidade. Juntando uma fonte externa ao processo — no caso de Piaget, foi a babá —, a probabilidade de haver confusões é ainda maior. “A memória é algo extremamente não confiável”, comenta Susumu Tonegawa, diretor do Centro de Circuitos Genéticos Neurais Riken-MIT e professor do Instituto de Ciências Cerebrais Riken, no Japão.

No laboratório, os cientistas ativaram uma região do cérebro de ratos previamente associada pela equipe à memória episódica, aquela que armazena experiências passadas. Enquanto isso, os ratos ficavam no box A, um ambiente no qual se sentiam seguros, pois não havia nada de ameaçador por perto. Em seguida, os roedores foram movidos para o box B, onde o mesmo grupo de células foi estimulado, de forma a reativar a recordação da primeira gaiola. Simultaneamente, foram aplicados choques nas patas dos roedores. Dessa forma, eles associaram a evocação do primeiro ambiente ao desconforto da descarga elétrica de média intensidade. Quando voltaram para o box A, as cobaias exibiram sinais de medo, mesmo que jamais tivessem recebido choques naquele local (veja infográfico). Todo o processo foi mapeado por meio da optogenética.

Mapeamento inédito
Uma das principais constatações do grupo de pesquisadores é de que, verdadeira ou falsa, a memória se forma da mesma maneira. “Foi impressionante notar que a recordação falsa recrutou os mesmos centros cerebrais do medo, como a amígdala cerebelosa, associada à lembrança de algum episódio ruim que realmente aconteceu. Pelo menos em relação aos ratos, a falsa memória provoca sensações iguais às de uma memória real”, destaca Tonegawa.

“A pesquisa foi muito interessante porque nos mostrou exatamente como funciona o processo de reconstrução de um evento. Isso é a memória, a reconstrução do mundo que experimentamos”, afirma Steve Ramirez, aluno de graduação do laboratório de Tonegawa, que assina o artigo como primeiro autor. Segundo ele, essa foi a primeira vez que se conseguiu mapear, como em um passatempo de ligar pontos, a formação de uma memória falsa. “Já se realizaram estudos de imagem com humanos, mas nem a ressonância magnética funcional, um dos exames mais sofisticados utilizados em pesquisas neurocientíficas, consegue delinear as diversas regiões do hipocampo responsáveis por gerar a memória”, conta.

Ramirez diz que um dos objetivos da equipe de cientistas é reforçar a ideia de que a memória não pode ser considerada um “papel carbono”, reproduzindo fielmente um acontecimento. “Nossa esperança é que, ao propor uma explicação neural para o processo de geração das falsas memórias, o trabalho que fizemos tenha aplicações práticas, como nas Cortes”, diz. “Jurados e magistrados precisam de evidências de que, por mais real que aparente, um fato recordado por uma testemunha pode não ser verdadeiro”, alega. “A memória humana não é como uma memória de computador, não está certa o tempo todo. Há muitas ocasiões em que as pessoas acreditam estar completamente seguras a respeito de um evento passado, embora ele possa sequer ter acontecido”, concorda Roberto Cabeza, neurocientista da Universidade de Duke que pesquisa a formação de memórias.

Falhas no testemunho
De acordo com Steve Ramirez, quase três quartos dos primeiros 250 americanos cujas condenações penais foram anuladas graças ao exame de DNA haviam sido vítimas de falso testemunho ocular. O professor da Faculdade de Psicologia do Uniceub Sérgio Henrique Alves conta que a falsa memória pode se formar sozinha, com base em referências pessoais do indivíduo, ou serem induzidas. “Dependendo de como se conduz um interrogatório, ele pode confundir a pessoa”, diz. “Se uma pessoa sofre um assalto, ela guarda a informação do assaltante na cabeça. Passa-se um tempo e ela vai à delegacia, onde mostram fotos de suspeitos, fazem um retrato falado ou a colocam para fazer um reconhecimento. Qual dessas memórias a pessoa vai usar? Já existem até tentativas de usar técnicas de entrevistas policiais que não estimulem a falsa memória”, conta.

O professor do Uniceub recorda de um fato ocorrido nos Estados Unidos que destruiu uma família. Uma jovem começou a ter pesadelos com o próprio pai e, induzida por sessões de hipinose, criou a falsa memória de ter sido abusada sexualmente por ele. “Ela chegou a acreditar que engravidou duas vezes e que o pai fez o aborto”, conta Alves. Aos poucos, a jovem se reaproximou do pai, que, àquela altura, já havia sido até expulso da igreja que frequentava. O homem submeteu a filha a um exame ginecológico, que provou que ela era virgem. Ele, entretanto, havia feito vasectomia pouco depois do nascimento da jovem. “Se não tivesse essas evidências físicas, seria muito mais difícil inocentá-lo”, lembra Sérgio Henrique Alves.

Mesmo fatos mais corriqueiros podem ser “implantados” no cérebro. Uma experiência clássica de formação de falsas memórias, conta o psicólogo, é a do shopping. A pessoa que está conduzindo o teste pede ao voluntário que relate como se perdeu no shopping na infância. Este diz que jamais se perdeu, mas é informado de que o fato aconteceu e ouve detalhes a respeito. Passado algum tempo, o voluntário armazena esses dados como se fossem verdadeiros. Alves explica que todas as pessoas, independentemente da idade e de qualquer outro fator, estão sujeitas à criação de falsas memórias.

Rastros químicos

No ano passado, o cientista japonês Susumu Tonegawa mostrou que as memórias são estocadas em redes de neurônios que deixam traços químicos, os engramas, relacionados a cada uma das experiências vivenciadas. Há muito tempo a neurociência desconfiava da existência dos engramas, mas Tonegawa conseguiu, em dois estudos também publicados na Science, identificar as células que os compõem e, assim, reativar recordações
usando a optogenética.
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