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CIÊNCIA

Perto da parceira e longe dos conflitos

Dois estudos analisam a fundo a monogamia em mamíferos. Segundo cientistas dos EUA, os machos adotam a prática para proteger a fêmea dos rivais. Pesquisadores do Reino Unido acreditam que a postura evita que os filhos sejam mortos por adversários

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postado em 30/07/2013 18:00 / atualizado em 30/07/2013 11:42

Paloma Oliveto

De todas as espécies de mamíferos existentes no planeta, 9% são conhecidamente monogâmicas. O grupo, que inclui o homem e outros primatas, além de alguns tipos de roedores, chachais, lobos e mangustos, intriga biólogos e antropólogos há muito tempo. Do ponto de vista evolutivo, não faz sentido que os machos se mantenham fiéis às parceiras. Isso porque, enquanto elas gestam a cria, eles poderiam perpetuar as próprias características genéticas, cruzando com outras fêmeas. A resposta científica para o fenômeno ainda está longe de ser consenso: ontem, artigos divulgados por diferentes equipes de pesquisadores britânicos nas revistas Pnas e Science ofereceram duas explicações distintas para a monogamia.

Enquanto um grupo aposta na proteção dos filhotes, o outro sustenta que a prática foi uma estratégia dos machos para não perder a parceira. Os cientistas esclarecem que não estão falando de homens e mulheres, embora os humanos façam parte do grupo de mamíferos monogâmicos. “Nesse tipo de pesquisa, nós procuramos entender o que aconteceu durante a evolução do ancestral comum a todos os mamíferos que adotaram um único par durante o período de reprodução. Estamos falando de algo ocorrido milhões de anos atrás e, além disso, de um conceito bem definido de monogamia social, ou seja, uma fêmea e um macho férteis que procriam durante várias temporadas reprodutivas”, explicou, em uma entrevista coletiva, Dieter Lukas, do Departamento de Zoologia da Universidade de Cambridge.

A pesquisa de Lukas, publicada na Science, é o estudo mais aprofundado, em termos de quantidade de dados, já realizado a respeito da monogamia. Os cientistas utilizaram informações de 2,5 mil espécies de mamíferos cujas características são bem documentadas, e dividiram os animais em três classes: solitários (68%), monogâmicos (9%) e aqueles que vivem em grupos (23%). Com modelos estatísticos, dados históricos e análise filogenética — ramo que estuda a evolução das espécies sob o ponto de vista genético —, eles determinaram que as primeiras fêmeas de mamíferos hoje monogâmicos viviam, majoritariamente, sozinhas. “Elas não eram sociáveis e não se relacionavam bem com outras da espécie, por isso viviam bem longe umas das outras”, contou o pesquisador.

Nessas condições, para ter várias parceiras, o macho precisava, literalmente, correr de um lado para o outro. Além do cruzamento propriamente dito, ele tinha de defender a companheira dos rivais. Sob o risco de ficar sem nenhuma, o mamífero monogâmico ancestral encontrou na fidelidade a forma mais segura de lidar com a situação. “Há cerca de 30 anos, começaram os estudos intensos sobre a monogamia social e conhecemos pelo menos 15 artigos comparativos que buscam entendê-la. O que diferencia o nosso dos demais é que nos baseamos em uma amostra muito grande, uma definição bastante clara do que é monogamia e de um tipo de modelo estatístico e computacional que não existia há até pouco tempo. Quinze anos atrás, a abordagem que utilizamos seria impossível”, destacou, na coletiva de imprensa, o coautor do estudo, Tim Clutton-Brock.

O zoólogo ressaltou que os resultados não podem ser aplicados a humanos. “Primeiro que nem há um consenso se os seres humanos são mesmo monogâmicos. Devido ao fato de todos os símios africanos serem polígamos e viverem em grupo, é provável que o ancestral comum dos hominídeos também fosse adepto da poligamia”, disse Clutton-Brock. De acordo com ele, alterações nos padrões alimentares dos primeiros Homo sapiens teriam diminuído a densidade populacional de fêmeas e, para não arriscar a ficar sem descendentes, os homens podem ter adotado a monogamia.

“É preciso destacar que nosso estudo não fornece ideias sobre quando e sob quais circunstâncias a monogamia evoluiu em humanos”, concordou Lukas. “É possível, inclusive, que a monogamia tenha emergido, no caso de homens e mulheres, há muito pouco tempo, sendo um arranjo cultural bastante recente. Não existe uma resposta clara a respeito e é importante ter isso em mente”, frisou.

Infanticídio
O outro artigo, publicado na Pnas, concentrou-se nos primatas e defende outra teoria. Para Christopher Opie, antropólogo da University College London, a monogamia é uma estratégia evolutiva para reduzir a ameaça de infanticídio por parte de outros machos rivais. Os pesquisadores também usaram métodos estatísticos para avaliar três hipóteses anteriormente associadas à monogamia entre primatas: evitar que a fêmea copule com outros machos, aumentar a possibilidade de reproduzir e contribuir com o cuidado da prole, protegendo a cria de outros animais que poderiam matá-la. Foram estudadas 230 espécies de primatas.

De acordo com Opie, a explicação mais apropriada é a de que os machos encontraram na fidelidade à parceira uma forma de evitar que rivais exterminassem seus filhotes. “Recém-nascidos são mais vulneráveis quando dependem exclusivamente das mães”, disse. Segundo ele, a análise não exclui a possibilidade de a monogamia também ser uma estratégia de manutenção da parceira, assim como sustenta a pesquisa publicada na Science. “Nós nos concentramos no estudo de primatas”, destaca Opie, lembrando que o estudo conduzido por Dieter Lukas e Tim Clutton-Brock analisa mamíferos em geral.

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