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DESENVOLVIMENTO HUMANO »

Qualidade de vida emperra na educação

De 1991 a 2010, o Brasil deu um salto no ranking do IDHM, que mede as condições socioeconômicas dos municípios. Saiu de 0,493 (muito baixo) para 0,727 (alto) %u2014 avanço de 47,5%. Mas o ensino ruim freia o crescimento

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postado em 30/07/2013 18:00 / atualizado em 30/07/2013 12:03

Breno Fortes
Nas últimas duas décadas, o Brasil teve uma melhora significativa no Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM), que mede a qualidade de vida da população. Entre 1991 e 2010, o país saiu de um IDHM de 0,493 — considerado muito baixo — para 0,727 — alto —, um avanço de 47,5%. Três fatores compõem o índice: a esperança de vida ao nascer, o padrão de vida (medido pela renda per capita), e o acesso ao conhecimento, que avalia a escolaridade dos adultos e o fluxo escolar dos jovens. Embora a educação tenha sido a variável que mais evoluiu no período (128%), ela continua a puxar o freio de mão do desenvolvimento nacional, sendo o único setor avaliado que ainda não atingiu um patamar considerado alto.

Os dados do IDHM foi elaborado a partir de 180 indicadores levantados pelo Censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e fazem parte do Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil 2013, publicado ontem pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), em parceria com o Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea) e a Fundação João Pinheiro (FJP). O ministro-chefe interino da Secretaria de Assuntos Especiais (SAE), Marcelo Neri, que também preside o Ipea, destacou as mudanças de metodologia desta edição do IDHM. “Na década anterior, o índice media a alfabetização até os 15 anos e, agora, mede o ensino fundamental completo até 18 anos, por exemplo. Os protestos nas ruas mostram que se quer mais. Acho que o indicador coloca novos desafios para uma nova proposta de políticas públicas”. Neri reconhece que, apesar das mudanças positivas, “a fotografia ainda é ruim”, e que há muito a ser melhorado.

O professor de economia da Fundação Getulio Vargas de São Paulo (FGV-SP) Ernesto Lozardo destaca que a melhora nos indicadores registrada no últimos 22 anos é fruto do trabalho de governos anteriores. “O governo FHC criou as bases do crescimento ocorrido no governo Lula, que priorizou os projetos assistenciais, que ajudaram a melhorar a renda do brasileiro nas regiões mais pobres”, afirmou. Para Lozardo, as melhorias nas condições de saneamento básico explicam, por exemplo, a redução da mortalidade infantil, que passou de 44,68 crianças mortas no primeiro ano de vida por grupo de mil nascidas vivas, em 1991, para 16,7, em 2010. A evolução ajudou a elevar a esperança de vida ao nascer de 64,7 anos para 73,9 anos. No caso do rendimento dos brasileiros, houve um ganho de R$ 346,31 entre 1991e 2010, elevando a renda per capita para R$ 793,87.

 

Carlos Silva
Apesar de ressaltar a evolução dos índices educacionais, o ministro da Educação, Aloizio Mercadante, reconhece que velhos entraves precisam ser superados. Segundo ele, está sendo avaliada a redução do número de disciplinas no ensino médio, para enfrentar a evasão escolar. “O jovem, hoje, tem em torno de 13 disciplinas — alguns chegam a ter 19. É muita matéria”, disse o ministro.

Quantidade e evasão
Para especialistas, a massificação das matrículas explica a melhoria no índice nas duas últimas décadas, mas a baixa qualidade do ensino é um entrave para a permanência dos alunos. “Esse indicador é mais trágico do que imaginávamos. Apesar de toda a facilitação que se observa hoje nas escolas, no sentido da aprovação dos alunos, a evasão ainda persiste”, lamenta a professora Angela Branco, da área de psicologia escolar e desenvolvimento do Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília (UnB). Em Águas Lindas, município goiano do Entorno, apesar dos avanços no IDHM, o índice específico de educação continua baixo. E 13 dos 22 municípios do Entorno estão na mesma situação.

Angela Branco avalia que há uma distância grande entre a sala de aula e a realidade. “Muitas pessoas continuam achando que a educação é o caminho para um futuro melhor, mas existe muita desilusão por parte dos jovens. A qualidade e o conteúdo vistos nas salas de aula não abrem muitas perspectivas, então, eles acham que estão perdendo tempo”, avalia a acadêmica.

Aos 79 anos, avô de mais de quarenta netos e analfabeto, Pedro Augusto de Oliveira preza pela boa educação dos parentes, mas não vê empenho dos jovens. “As crianças de hoje em dia não estudam muito. Vivem se beijando por aí. Se as pessoas tivessem mais educação, a criminalidade seria menor”, especula. Segundo Ítalo Oliveira, 17 anos, que nunca repetiu ano na escola e está prestes a concluir o ensino médio, a infraestrutura precária e o método de ensino ruim prejudicam o sistema. “O Estado poderia oferecer, por exemplo, uma quadra de esportes melhor. O estudo em si também poderia ser muito mais eficiente”, elenca o neto de Pedro Augusto.

A faixa etária de maior adesão escolar (91,1%) vai dos 5 aos 6 anos, o que não significa que o ensino seja melhor. “As crianças de escolas públicas sofrem muito: não tem uniforme, o lanche é motivo de reclamação e os professores faltam sempre. Minha filha é bem tratada onde ela está agora”, acredita Alini Weleini, 22 anos, mãe de Cristielly, 5, que estuda em um colégio privado de Águas Lindas.

Mesmo matriculados, os amigos Yago Santos, 13, Starlem Pereira, 12, e Igor Santos, 14, não conseguem avançar como deveriam — os três já repetiram pelo menos um ano da vida escolar. “A responsabilidade é minha. Muitas vezes, os alunos não se esforçam”, conta Yago, que chegou a mudar para uma escola em Taguatinga. Mas, ainda desmotivado e sem dinheiro para a passagem, voltou para Águas Lindas.

Para Erasto Fortes, do Conselho Nacional de Educação (CNE), ainda levaremos muito tempo para ver mudanças significativas na educação. “A dívida social nessa área é tão grande que, por mais esforço que se faça, o resultado ainda é muito pequeno”, avalia. Ele defende uma “postura mais firme” do governo para a área, e cita o recente e polêmico Programa Mais Médicos. “Se oferecem R$ 10 mil para médico ir trabalhar no interior, por que não oferecer o mesmo para um professor?”, provoca. (Leia mais nas páginas 7 e 21)

Análise da notícia
Abismo histórico
As mudanças ocorridas nos últimos 20 anos na economia brasileira, que levaram o país a figurar entre as 10 maiores potências do planeta, podem ser percebidas no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) dos municípios brasileiros, divulgado ontem pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). A melhora no indicador no país reflete avanços proporcionados pelo forte crescimento da economia nesse período. Os governos de Fernando Henrique Cardoso e de Luiz Inácio Lula da Silva deram importantes contribuições nesse sentido. FHC, ao estabilizar a economia que penava com a hiperinflação, permitiu que fosses construídas as bases para a expansão do Produto Interno Bruto (PIB) nos anos seguintes. Graças aos ajustes feitos na economia pelo governo anterior, Lula conseguiu ampliar a política de distribuição de renda, unificando programas pontuais no carro-chefe do Bolsa Família. Mesmo assim, esse crescimento não foi suficientes para erradicar a pobreza no país.

Não é à toa que as diferenças regionais são facilmente percebidas na análise não só da média nacional do IDH como, também, nos três itens básicos do indicador: educação, longevidade e renda. As 34 cidades com os piores índices de desenvolvimento humano estão nas regiões Norte e Nordeste. As do Sul e do Sudeste permanecem na liderança, com as maiores pontuações. Brasília é o ponto fora da curva, no 9º lugar da classificação geral. Esse abismo da qualidade de vida entre as cidades do Norte/Nordeste e do Sul/Sudeste ainda é expressivo e, na avaliação do economista e professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) Ernesto Lozardo, “permanecerá existindo”, podendo até aumentar se não houver uma política de integração regional da infraestrutura de transportes para reduzir as dificuldades hoje existentes. (RH)

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