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CIÊNCIA

Caixões misteriosos ao lado do rei

Arqueólogos encontram, no estacionamento em que foi descoberta a ossada de Ricardo III, intrigante combinação de esquifes. Uma urna de pedra abriga outra de chumbo, que pode guardar os restos mortais de um frade ou de um cavalheiro

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postado em 31/07/2013 18:00 / atualizado em 31/07/2013 12:29

Paloma Oliveto


Especialistas retiram a tampa do caixão de pedra que escondia o de chumbo: não há inscrição visível, mas existe uma cruz presa no tampo metálico (University of Leicester/Reuters) 
Especialistas retiram a tampa do caixão de pedra que escondia o de chumbo: não há inscrição visível, mas existe uma cruz presa no tampo metálico


Poucos reis protagonizaram tantos mistérios quanto o último representante da Casa de York. A vida e a morte de Ricardo III são cercadas de interrogações que só agora, 500 anos depois de ele perecer na derradeira batalha da Guerra dos Rosas, começam a ser explicadas. Quanto mais os arqueólogos mexem nas camadas de terra que escondem o passado do monarca, mais enigmas aparecem. Agora, na fase final de escavações, surgiu um caixão de pedra, dentro do qual havia um outro esquife, de chumbo. Os pesquisadores acreditam se tratar dos restos mortais de um frade ou de um cavalheiro, que certamente foi enterrado com honrarias.

Ricardo III é um dos reis mais controversos da história britânica. Uma campanha difamatória patrocinada pelos Tudor e divulgada pelo dramaturgo Wil-liam Shakespeare fez com que o monarca passasse para a história como um tirano cruel e fisicamente monstruoso. A população o odiaria tanto que, quando ele morreu, em 1485, seu corpo teria sido jogado no Rio Soar. Desconfiando de que esse retrato do rei havia sido pintado por inimigos políticos, a Sociedade Ricardo III convenceu a Universidade de Leicester, a 160km de Londres, a investigar o local do túmulo dele. Se o encontrassem, era sinal de que boa parte do que se falava sobre ele não passava de lenda.

Em setembro do ano passado, a equipe de pesquisadores encontrou um corpo sob o estacionamento de um conjunto de prédios públicos de Leicester. Depois de uma ampla investigação, constatou-se que os restos mortais pertenciam a Ricardo III. O monarca foi reabilitado e até reconstituição de como seria o seu rosto ele ganhou. No lugar da aparência desprezível, como descrita por Shakespeare na peça que leva o nome do rei, a modelagem do crânio em 3D revelou que Ricardo era um homem bonito.

O estacionamento do Conselho Municipal de Leicester, onde se descobriu o túmulo do soberano britânico, foi construído sobre as ruínas de um mosteiro medieval, pertencente a uma ordem franciscana já extinta, a dos Greyfriars (“frades cinzas”, uma referência à cor do hábito usado por esses padres). De acordo com Richard Buckley, diretor de Serviços Arqueológicos da Universidade de Leicester, o duplo caixão descoberto agora pode abrigar um dos fundadores da ordem: Peter Swynsfeld, morto em 1272, ou William de Nottingham, que morreu em 1330. “Nós levamos o esquife para a universidade, onde vamos examinar o conteúdo dele com o mesmo cuidado com o qual avaliamos o esqueleto de Ricardo III. Não podemos correr o risco de, na pressa de investigar mais esse mistério, estragarmos os restos mortais”, diz. Outra possibilidade é de o corpo pertencer a sir William de Moton of Peckleton, um cavalheiro que teria sido prefeito de Leicester, morto entre 1356 e 1362.

Surpresa
O caixão de pedra, intacto, causou surpresa entre os arqueólogos. “Para todos nós, essa foi uma grande novidade. Ninguém da equipe jamais havia visto algo parecido, ainda mais tendo outro caixão dentro”, disse, em um comunicado, Mathews Morris, diretor do sítio arqueológico. Ele contou que a emoção da descoberta foi tão grande quanto a provocada pela escavação do esquife onde jazia Ricardo III.

Feito de calcário, o caixão tem 2,12m de comprimento, 0,3m de profundidade e largura variando de 0,6m (topo superior) a 0,3m (inferior, onde ficam os pés). Há oito dias, com o levantamento do tampo, tão pesado que foram necessárias oito pessoas para executar a tarefa, os arqueólogos descobriram a outra urna funerária, feita de chumbo. “Não há nenhuma inscrição visível no caixão, mas tem uma cruz soldada no metal”, contou Morris.

De acordo com Richard Buckley, assim que surgirem pistas sobre o ocupante do túmulo, os pesquisadores informarão o público. Desde o começo das escavações, o trabalho tem chamado a atenção até de quem não se interessa tanto por história. Para Buckley, o que mais tem fascinado as pessoas é o local inusitado sob o qual estava um túmulo real.

O estacionamento não foi escavado aleatoriamente. Na realidade, o local passou por uma reforma na década de 1950 e, naquela ocasião, um arqueólogo levantou a suspeita de que o monastério dos Greyfriars ficava sob o terreno, pois foram encontrados elementos típicos de um templo medieval, como pedaços de mosaicos e colunas. O historiador inglês John Rous, contemporâneo de Ricardo III, havia informado que o rei foi enterrado no mosteiro dos “frades cinzas” de Leicester e, pela descrição de onde ficava essa igreja, o arqueólogo imaginou ter descoberto o lugar do último repouso do monarca. Somente meio século depois, contudo, é que a suspeita foi confirmada.

Novo enterro
O corpo de Ricardo III permaneceu enterrado no coro da igreja, que foi fechada por Henrique VIII, soberano que rompeu com o catolicismo e fundou o anglicanismo. Com o passar dos séculos, o templo transformou-se em ruínas, sobre as quais construiu-se o estacionamento da sede do Conselho Municipal de Leicester. Os restos mortais do monarca serão enterrados novamente, agora com pompa real, na catedral de Leicester, no ano que vem. A Sociedade Ricardo III doou 10 mil libras (mais de R$ 30 mil) para a confecção da tumba de Ricardo III.

Mathews Morris destacou que, apesar da surpresa e do entusiasmo provocados pela descoberta do duplo caixão, a missão arqueológica não foi completamente bem-sucedida. “Um dos objetivos era encontrar alguma evidência da nave da igreja e o corredor que levava à ala oeste do coro. Nisso, nós falhamos. Na área que conseguimos investigar, essas partes estavam completamente destruídas. Essa é a natureza da arqueologia. Nunca temos um quadro completo”, explicou. Segundo ele, agora é hora de levar todos os artefatos encontrados, como mosaicos, cerâmicas e vitrais, além dos restos mortais, para serem catalogados e analisados.



Para saber mais

Reputação destruída


 (Andrew Winning/Reuters - 5/2/13) 


Filho do terceiro Duque de York, também chamado Ricardo, e da duquesa Cecília Neville, Ricardo III (foto) nasceu em 2 de outubro de 1452, no Castelo de Fotheringhay e perdeu o  pi aos 8 anos.  Foi criado pelo Conde de Warwick no Castelo de Middleham, onde aprendeu as artes militares. Em 1472, casou-se com Anne Neville, filha do conde, com quem teve Eduardo de Middleham, o Príncipe de Gales.

O irmão mais velho de Ricardo depôs Henrique VI em 1461, assumindo o trono como Eduardo IV. Duas décadas depois, o monarca morreu e foi sucedido pelo filho de 12 anos, Eduardo V. Ricardo assumiu a coroa como regente, sendo também responsável pela proteção dos sobrinhos Eduardo V e Ricardo, de 9 anos. Mas, descobriu-se que Eduardo IV era bígamo e que seus filhos com Isabel Woodville não poderiam assumir o reinado. O parlamento coroou Ricardo II em 6 de julho de 1483. Forças que se opunham à deposição dos filhos de Eduardo deflagraram uma rebelião para reverter a decisão e devolver o trono a Eduardo V, que morava com o irmão mais novo. Em setembro, surgiram rumores de que os príncipes haviam sido mortos a mando de Ricardo.

Os inimigos de Ricardo III começaram uma campanha a favor de Henrique Tudor, que culminou na Batalha de Bosworth Field, onde o rei foi morto. Durante a dinastia Tudor, a reputação de Ricardo III foi destruída. O ex-monarca foi tachado de traidor, tirano e cruel, uma imagem reforçada pela peça de William Shakespeare, mas rechaçada posteriormente por muitos historiadores. (PO)
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