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Correio Braziliense

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CIÊNCIA

Clima de guerra

Após analisar 60 estudos, pesquisadores concluíram que o aquecimento do planeta intensifica os conflitos sociais. No Brasil, ocupações irregulares de terras estariam ligadas a variações extremas de temperatura

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postado em 02/08/2013 16:00 / atualizado em 02/08/2013 11:15

Paloma Oliveto

 
 

Derretimento das calotas polares, aumento do nível do mar, desertificação, redução da biodiversidade… As consequências ambientais das mudanças climáticas são amplamente conhecidas, embora boa parte da população não as perceba como uma ameaça. Os termômetros elevados, contudo, provocam efeitos ainda mais devastadores que os observados na natureza. De acordo com pesquisadores da Universidade da Califórnia em Bekerley e da Universidade de Princeton, eles também esquentam os ânimos, impulsionando conflitos humanos, que vão da luta pela terra no Brasil à queda da civilização maia na América Central.

A conclusão dos cientistas, publicada na revista Science, é baseada na análise de 60 estudos sobre as influências das mudanças climáticas nas relações sociais, divulgados, na maioria, entre 2009 e 2011. Em lugares tão diversos como Brasil, Somália, Holanda, China, Estados Unidos, Tanzânia e Alemanha, entre outros, os cientistas encontraram evidências de que alterações bruscas no clima deflagram ou intensificam combates sociais, como invasão de propriedades rurais e até guerra civil. Além disso, influenciam embates interpessoais, incluindo assassinatos e estupros.

 De acordo com Solomon Hsiang, professor de políticas públicas da Universidade da Califórnia em Bekerley e principal autor do estudo, há algum tempo tem se investigado os efeitos do clima nos conflitos, mas não havia, até agora, uma unidade. “O que estava faltando era uma fotografia clara da história que esses estudos estavam nos contando. Depois de reanalisar os dados e padronizar o modelo estatístico, encontramos resultados impressionantes.”

Do Brasil, os pesquisadores utilizaram informações de um estudo conduzido também pela Universidade da Califórnia em Bekerley que analisou a possível relação entre ocupações irregulares de terra e eventos climáticos. O principal autor do artigo, Daniel Hidalgo, baseou-se nos relatórios periódicos divulgados pela Comissão Pastoral da Terra, órgão da Igreja Católica, referentes ao período de 1988 a 2004. Nesse período, foram 5.299 invasões documentadas. Depois de analisar diversas variáveis estatísticas, Hidalgo concluiu que a maior parte das ocupações seguiu eventos climáticos extremos, seja excesso de chuva ou seca.

Embora reconheça que as invasões agrárias são “extremamente complexas”, o cientista político destaca que “é mais fácil mobilizar trabalhadores sem terra para invasões à medida que a produtividade das plantações cai, assim como seus salários”. A análise de estudos como o de Hidalgo, realizados em outras partes do mundo, mostrou que não são apenas os ganhos financeiros reduzidos que impulsionam conflitos sociais mas também problemas como baixa disponibilidade de água, inundações e perda de rebanho, por exemplo.

Trinta e cinco artigos investigados pela equipe de Hsiang indicaram ainda uma forte relação estatística entre enchentes, estiagens e ciclones com guerras civis na África. De acordo com o pesquisador, independentemente da realidade de cada país, existem padrões muito semelhantes por trás da deflagração dos conflitos: eventos climáticos extremos levam à destruição, dificultam o acesso aos recursos naturais e semeiam pobreza, o que aumenta o risco de luta pela sobrevivência.

John O’Loughlin, professor de geografia da Universidade do Colorado que pesquisa o mesmo tema, analisou 16 mil conflitos ocorridos em nove países do Chifre da África, uma das regiões mais conturbadas do planeta, e constatou uma escalada da violência nas ondas de calor. “Esse estudo não traça paralelo entre aumento da violência urbana e calor. Na realidade, ele foi sobre como temperaturas mais altas causam danos agrícolas, forçando as pessoas a brigar com seus vizinhos por comida e outros recursos”, esclarece.

Outros artigos científicos analisados pelos pesquisadores da Universidade da Califórnia, porém, encontraram paralelos entre termômetros elevados e violência urbana, um fenômeno ainda não comprovado nem esclarecido. “Uma das ideias é a de que a temperatura pode afetar a regulação da produção, no cérebro, de serotonina e outros neurotransmissores”, diz Marshal Burke, coautor do artigo e estudante de doutorado do Departamento de Agricultura e Recursos Econômicos da Universidade da Califórnia em Bekerley.

Ainda que não tenham todas as explicações para a relação entre eventos climáticos e conflitos sociais, os cientistas políticos de Bekerley lembram, no estudo, que nem sempre há uma reposta rápida. “Vale a pena lembrar as análises estatísticas que identificaram, na década de 1930, uma proximidade entre uso de tabaco e o câncer de pulmão”, escreveram. Na ocasião, essas pesquisas foram desacreditadas. “Foram necessárias muitas décadas para que os mecanismos por trás disso viessem à tona.”

Três perguntas para

Marshall Burke,
coautor do estudo

Conflitos humanos sempre aconteceram — no Brasil, por exemplo, a luta pela terra é histórica. É correto dizer que o clima não causa os conflitos, mas pode intensificá-los?
Acreditamos que ambas as coisas estão corretas. Em alguns casos, o clima pode agravar conflitos existentes. Em outros, o clima pode, na realidade, começar os conflitos. A literatura sugere que as duas situações podem acontecer.

O senhor acha que os construtores de políticas públicas estão suficientemente alertas sobre a influência das mudanças climáticas nos conflitos humanos?
Esperamos que nossa pesquisa os ajude a ficar! Há algum tempo, tem havido um debate sobre isso. Nossa contribuição para a comunidade política é mostrar que existe uma forte relação entre clima e conflito em diferentes regiões e que esses conflitos também são diversos. Nós, definitivamente, esperamos que os políticos possam fazer algo a respeito.

Como as mudanças climáticas influenciam nos conflitos interpessoais?

Aparentemente, temperaturas extremas provocam uma forte resposta fisiológica nos seres humanos. A literatura sugere que, quando fica realmente muito quente, a cooperação se quebra e as pessoas se tornam mais agressivas e mais violentas. A literatura médica está tentando entender esse fenômeno, mas não está perto disso. Uma das ideias é a de que a temperatura pode afetar a regulação da produção, no cérebro, de serotonina e de outros neurotransmissores.

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