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CIÊNCIA

A promissora biotecnologia

O setor ganha força no país por meio dos esforços de pequenas e grandes empresas em busca de inovação. A criação de testes para o diagnóstico precoce de doenças, e o aperfeiçoamento de vacinas estão entre os destaques

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postado em 05/08/2013 16:00 / atualizado em 05/08/2013 10:49

Paula Carolina /DIRED

Pesquisador da Labtest, que produz e comercializa reagentes que auxiliam no diagnóstico de exames: novidade é um marcador que indica lesões renais precoces 
Pesquisador da Labtest, que produz e comercializa reagentes que auxiliam no diagnóstico de exames: novidade é um marcador que indica lesões renais precoces


Belo Horizonte — Da saúde humana à animal, passando pelo meio ambiente e pela agroindústria, a biotecnologia está mais presente em nossa vida do que normalmente se imagina. O setor vem se desenvolvendo a passos largos, e o Brasil, conseguindo destaque em algumas áreas. Fundamentado em pesquisa e carente de recursos, o segmento tem nas parcerias os maiores aliados. Grandes, médias e pequenas empresas do país, que atuam nos mais distintos ramos de atividade, compartilham os efeitos benéficos dessa força.

Em Minas Gerais, a Labtest, pertencente à Associação Mineira de Empresas de Biotecnologia e Ciências da Vida (Ambiotec), produz e comercializa reagentes e equipamentos para auxiliar no diagnóstico de exames. A mais recente e importante novidade da empresa ao segmento médico é o NGAL, um marcador que acusa lesões renais precocemente por meio de exame de sangue ou de urina, possibilitando o tratamento de doenças que, se descobertas tardiamente, têm o potencial de cura bastante comprometido. O desenvolvimento do marcador é fruto de parceria com uma empresa da Dinamarca, onde também é considerado uma novidade.

O NGAL, também chamado de lipocalina associada com gelatinase de neutrófilos humanos, é uma substância química sintetizada pelo organismo. “A lipocalina é uma proteína que, se alterada, aparece no sangue quando há uma lesão renal”, explica o farmacêutico e bioquímico Fúlvio César Facco, gerente de inovação da Labtest. “O processo acontece da seguinte forma: o rim tem células que fazem a filtração dos elementos químicos do sangue, mas essas células podem ir morrendo aos poucos e o rim vai perdendo a função. E, quando há lesão dessas células, existe a liberação do NGAL no sangue. Esse marcador que desenvolvemos tem a função de quantificar a quantidade de NGAL liberada, que é um indício de que o rim foi lesionado”, completa. “E isso pode ser diagnosticado tanto pelo exame de sangue como pelo de urina.”

A revolução do NGAL está no fato de os marcadores existentes até hoje — o mais comum é a creatinina — somente conseguirem diagnosticar a doença quando ela está em estágio avançado. “Se há uma alta concentração de creatinina, que também indica lesão renal, o problema já está agravado. Com o NGAL, é possível tomar conhecimento da situação quando há uma lesão mínima, em estágio bem inicial. O paciente pode ser tratado e deixar de ter o problema, ou seja, ficar curado”, compara Facco.

O problema é que o marcador tem o preço alto, comparado a exames comuns. Para exemplificar, o gerente de inovação da Labtest explica que o custo para o laboratório que vai fazer o exame é cerca de 50 vezes maior do que de um exame de glicose, o que dificulta o acesso do produto ao mercado como um todo. Segundo Facco, a empresa está em negociação para comercializar o produto com grandes hospitais do Brasil, como o Albert Einstein e o Hospital das Clínicas, ambos de São Paulo, além de algumas clínicas de nefrologia. Para o paciente, considerando que o NGAL ainda não foi assimilado pelos planos de saúde, ele estima que o exame custaria entre R$ 75 e R$ 100. Um exame simples de glicose custa em torno de R$ 20.

Para o presidente do Departamento de Nefrologia da Associação Médica de Minas Gerais, Fernando das Mercês de Lucas Júnior, o marcador é importante principalmente por abrir a possibilidade de evitar os casos de insuficiência renal. Ele avalia, porém, que o exame não é para todos os pacientes com problema renal. “É uma técnica muito recente. Não é para ser usado indiscriminadamente. É mais para casos de insuficiência renal aguda e nesse cenário o custo-benefício vale a pena”, pondera. Fernando cita como exemplo um paciente idoso que acabou de sair de uma cirurgia cardíaca. “Essa é uma doença que tem grandes chances de se desenvolver no pós-operatório. E, se você ficar esperando, perde a chance de um diagnóstico precoce. Então, é um caso em que esse exame se aplica.”

Sem sacrifício
A Bios também colhe os frutos da aposta em biotecnologia e conhecimento especializado. “Somos uma empresa que surgiu da necessidade do mercado. Eu e uma amiga trabalhamos seis anos na indústria produtora de vacina e tínhamos o conhecimento amplo desde o desenvolvimento do produto na bancada ao registro no Ministério da Agricultura, o licenciamento e a comercialização. Quando saímos dessa empresa, o mercado nos procurou para a prestação de serviços de consultoria”, conta Luciana Aramuni Gonçalves, proprietária do investimento.

Mas a grande visibilidade da empresa veio depois de um trabalho desenvolvido por demanda da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), quando a Bios fez o desenho da cadeia de valor do setor de biotecnologia da Região Metropolitana de Belo Horizonte. “Nosso trabalho virou um documento usado por todos os setores de negócio do país. Criamos uma cadeia de valor que divide os passos para a produção de cada tipo de produto relacionado ao setor de biotecnologia”, orgulha-se Luciana, também doutoranda em veterinária na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

É exatamente no doutorado da UFMG que deverá ser desenvolvido outro importante produto da área de biotecnologia. Em parceria com o Ministério da Agricultura, Luciana desenvolve um projeto cujo objetivo é “substituir os testes de potência de vacina in vivo”. Ou seja, criar testes sorológicos in vitro que permitam acabar com o uso de cobaias (animais vivos) para a produção de vacinas veterinárias. Sem poder entrar em detalhes sobre o projeto, já que o doutorado está previsto para terminar em janeiro de 2016, a futura doutora exemplifica a possível aplicação do doutorado, previsto para ser finalizado em janeiro de 2016. “Posso dar um exemplo que não faz parte do projeto. A vacina contra a raiva é testada em camundongos. É um teste muito cruel porque são usados bebês das cobaias e a inoculação é intracerebral. O projeto que desenvolvo é para que os testes sejam feitos sem que se usem animais para a análise dos resultados.”

“Nosso trabalho virou um documento usado por todos os setores de negócio do país. Criamos uma cadeia de valor divide os passos para a produção de cada tipo de produto relacionado ao setor de biotecnologia”
Luciana Aramuni Gonçalves, proprietária da Bios

Para saber mais

Visibilidade internacional
O intercâmbio de informações, além da possibilidade de convênios com especialistas de todo o mundo que atuam na área, é uma importante ferramenta de desenvolvimento quando se trata de tecnologia. A Associação Mineira de Empresas de Biotecnologia e Ciências da Vida (Ambiotec) planeja até o fim de setembro firmar um convênio de cooperação com a Associação das Empresas de Biotecnologia da Espanha (ACBio). A parceira vai permitir que empresas de ambos os países façam negócios entre si. “Além disso, a Espanha é o portão de entrada da Europa para projetos da União Europeia”, lembra a coordenadora executiva da Ambiotec, Vanessa Silva da Silva. Para o fim deste ano, está prevista a participação da Ambiotec na Biolatin, um evento realizado em Bogotá voltado para a promoção de rodadas de negócios entre empresas da Europa e da América Latina.

 

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