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CIÊNCIA

Novos testes com vacina brasileira contra o HIV

O efeito da substância desenvolvida por pesquisadores da Universidade de São Paulo será avaliado em macacos ainda neste semestre. Depois, os cientistas planejam realizar experimentos em humanos. A terapia pode evitar a transmissão do vírus

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postado em 06/08/2013 18:00 / atualizado em 06/08/2013 11:08


Os linfócitos (verde) são alvo do HIV (vermelho). Com a vacina, essas células de defesa ficariam protegidas  (NIAID/Divulgação) 
Os linfócitos (verde) são alvo do HIV (vermelho). Com a vacina, essas células de defesa ficariam protegidas


Neste semestre, começarão os testes em macacos de uma vacina brasileira contra o HIV. Essa última etapa de avaliação pré-clínica do imunizante terá duração prevista de 24 meses e o objetivo de encontrar o método mais eficaz para ser usado em humanos. Concluída essa fase, poderão ter início os primeiros ensaios clínicos. A vacina, denominada HIVBr18, foi desenvolvida e patenteada pelos pesquisadores Edecio Cunha Neto, Jorge Kalil e Simone Fonseca, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). Atualmente, o projeto é conduzido no Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Investigação em Imunologia (INCT-III) e seguirá para a colônia de macacos rhesus do Instituto Butantan.

A principal vantagem de fazer testes em primatas é a semelhança com o sistema imunológico humano e o fato de os animais serem suscetíveis ao SIV, vírus que deu origem ao HIV. Segundo Cunha Neto, a ideia é testar diversos métodos de imunização para selecionar aquele capaz de induzir a resposta imunológica mais forte e, então, testá-lo em humanos. Além da vacina de DNA, os experimentos incluem a implantação de moléculas imunizantes dentro de outros vírus vacinais para testar o melhor veículo de entrega (vetor) ao indivíduo, como o adenovírus de chimpanzé, a vacina da febre amarela ou o MVA — sigla em inglês para modified vaccinia ankara, produzida a partir de uma forma modificada do vírus.

O ensaio clínico de fase 1, que seguirá os testes com macacos, deverá abranger uma população saudável e com baixo risco de contrair o HIV, acompanhada de perto por vários anos. Nesse estágio, além de avaliar a segurança do imunizante, o objetivo será verificar a magnitude da resposta imune desencadeada e por quanto tempo os anticorpos permanecem no organismo. Se a HIVBr18 for bem-sucedida nessa primeira etapa da fase clínica, ela poderá despertar interesse comercial. A esperança dos cientistas é atrair investidores privados, uma vez que o custo estimado para chegar à terceira fase dos testes clínicos — a última antes da comercialização da vacina — é de R$ 250 milhões. Até o momento, somando o financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) do governo federal, foram investidos cerca de R$ 1 milhão no projeto.

Há 12 anos
O trabalho de desenvolvimento da vacina brasileira contra o HIV teve início em 2001, sob a coordenação de Cunha Neto. Ele e o pesquisador Jorge Kalil analisaram o sistema imunológico de um grupo especial de portadores do vírus, que mantinha o HIV sob controle por mais tempo e demorava para adoecer. No sangue dessas pessoas, a quantidade de células específicas do sistema imune, chamadas linfócitos T do tipo CD4 — o principal alvo do HIV — permanecia mais elevada que o normal. Elas são responsáveis por acionar outros tipos de linfócitos (do tipo CD8), produtores de toxinas que matam as células infectadas e, assim, combatem a infecção.

Estudos posteriores mostraram que um tipo específico de linfócito TCD4 poderia também ter ação citotóxica sobre as células infectadas. “Os portadores de HIV que tinham as TCD4 citotóxicas conseguiam manter a quantidade de vírus sob controle na fase crônica da doença”, relatou Cunha Neto. Com essa informação, os cientistas realizaram uma série de experimentos, durante anos, com células em cultura dos pacientes com HIV e camundongos. No teste mais recente, feito com ratos e ainda não publicado, os pesquisadores avaliaram a capacidade de essa nova vacina reduzir a carga viral no organismo. “O HIV normalmente não infecta camundongos. Então, pegamos um vírus chamado vaccinia — que é aparentado do causador da varíola — e colocamos dentro dele antígenos do HIV”, contou Cunha Neto à Agência Fapesp.

Nos animais imunizados com a vacina, a quantidade do vírus modificado encontrada foi 50 vezes menor que a do grupo de controle. Agora, estão sendo realizados experimentos para descobrir se, de fato, a destruição viral aconteceu por causa da ativação das células TCD4 citotóxicas. Os cientistas estimam que, no estágio atual de desenvolvimento, a vacina não eliminaria totalmente o vírus do organismo, mas poderia manter a carga viral reduzida ao ponto de a pessoa infectada não desenvolver a imunodeficiência e não transmitir o vírus. Segundo Cunha Neto, a HIVBr18 também poderia ser usada para fortalecer o efeito de outras vacinas contra a Aids, como a desenvolvida pelo grupo do imunologista brasileiro Michel Nussenzweig, da Universidade de Rockefeller, em Nova York, feita com uma proteína do HIV chamada gp140. (Leia Para saber mais).

Para saber mais

Combinação
de anticorpos


Em outubro do ano passado, o brasileiro Michel Nussenzweig, membro da Academia Americana de Ciências na Universidade Rockefeller, em Nova York, publicou na revista científica Nature o desenvolvimento de uma vacina capaz de manter os níveis de HIV abaixo dos detectáveis durante mais tempo que os tratamentos atuais. Nos experimentos, Nussenzweig usou a combinação de cinco potentes anticorpos monoclonais (células clonadas a partir de células de defesa do organismo). O composto foi administrado em camundongos “humanizados”, que dispunham de um sistema imunológico idêntico ao humano, permitindo, assim, que as cobaias fossem infectadas pelo vírus HIV. Estima-se que essa é uma fórmula que poderá evitar a infecção de novas células.
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