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CIÊNCIA

Ouro espacial

Flagrante de colisão entre duas estrelas reforça teoria de que o metal surgiu no Universo a partir de um fenômeno semelhante. Especialistas, contudo, ressaltam que há outras hipóteses para a origem do valioso material

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postado em 09/08/2013 16:00 / atualizado em 09/08/2013 11:27

Isabela de Oliveira /


Ilustração reproduz a colisão entre duas estrelas de nêutrons captada pelos equipamentos da Nasa: evento ocorrido a 3,9 bilhões de anos-luz da Terra (Dana Berry/SkyWorks Digital) 
Ilustração reproduz a colisão entre duas estrelas de nêutrons captada pelos equipamentos da Nasa: evento ocorrido a 3,9 bilhões de anos-luz da Terra


Na antiguidade, o ouro era considerado o metal dos deuses, capaz de refletir a energia celeste. Pelo visto, os antigos não estavam completamente errados, sugerem pesquisadores do Centro de Astrofísica de Harvard-Smithsonian, nos Estados Unidos. Segundo eles, o nobre metal pode mesmo ter vindo do céu. No entanto, não teria sido enviado por alguma divindade, mas resultado de uma explosão de raios gama curtos (GRB) causada pela colisão de duas estrelas de nêutrons. O grupo de especialistas chegou a essa conclusão depois de observar um desses surtos energéticos, captado recentemente pelas lentes do telescópio espacial Hubble e pelo satélite Swift, ambos da agência espacial dos Estados Unidos, a Nasa.

Ivan Ferreira, astrofísico da Universidade de Brasília (UnB), explica que estrelas solitárias como o Sol são bem mais raras do que as que se encontram, por exemplo, aos pares. Se, inicialmente, são massivas, com pelo menos 10 vezes a massa solar, no fim da evolução, elas se tornam estrelas de nêutrons. Em um sistema instável, os dois astros ficam cada vez mais próximos até colidirem, o que resulta em uma intensa emissão de raios gama, que dura menos que dois segundos.

O flagrante estudado ocorreu em 3 de junho, quando um brilho único surgiu a uma distância de aproximadamente 3,9 bilhões de anos-luz da Terra. “Se você considerar que são poucos fenômenos observados e que não duram muito tempo, cada evento é muito importante para descobrirmos o que acontece durante a colisão e o que sobra desse impacto. Daí a importância dessas medidas”, ressalta Ferreira, que não participou do estudo, coordenado pelo astrônomo Edo Berger.

Na pesquisa, a equipe de Berger sugeriu que a liberação de energia ocasionada por GRB pode gerar metais mais pesados do que o ferro. Os cientistas perceberam sinais da colisão pela duração do clarão GRB 130603B, como foi batizado o flash. O curto fenômeno durou dois décimos de segundo, mas pode ter sido o suficiente para gerar uma quantidade considerável de ouro, entre outros metais. “Acreditamos que a quantidade de ouro produzida e ejetada durante a colisão pode ser tão grande quanto a massa de 10 luas”, especula o líder da análise.

A equipe de Berger calcula que, após a colisão, aproximadamente um centésimo de material estelar foi ejetado e que um percentual disso seria de ouro. A partir da combinação da produção estimada de ouro por um GRB curto com o número de explosões dessa natureza que ocorreram ao longo da existência do Universo, Berger supõe que todo o ouro do Cosmos pode ter sido gerado dessa maneira. No entanto, Jorge Horvath diz que é necessário cautela para interpretar esse registro. Afinal, ainda que exista, pela primeira vez, uma evidência de colisão de estrelas binárias, não há como saber qual exatamente é o percentual de produção de ouro no processo.

Embora os raios gama tenham se dissipado rapidamente, o GRB 130603B exibiu outro brilho que se tornou cada vez mais fraco. A luminosidade registrada é outra evidência de que ocorreu a colisão das duas estrelas. Só esse fenômeno poderia gerar componentes radioativos que, ao decair, produziriam uma emissão infravermelha. Para Jorge Horvath, professor do Instituto Astronômico e Geofísico da Universidade de São Paulo (USP), essa é a grande novidade do registro.

Ele explica que estrelas de nêutrons são as cinzas de uma estrela massiva que já morreu. Elas têm, tipicamente, de uma a duas vezes a massa do Sol, porém comprimidas em uma esfera de raio similar à Esplanada dos Ministérios. “Ou seja, é como se toda a massa do Sol fosse empurrada para ocupar um espaço 100 mil vezes menor do que o atual”, explica o especialista.

Cautela
A também astrônoma Maria Elizabeth Zucolotto, do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), reitera que o fenômeno captado pelas lentes do Hubble é raríssimo de ser registrado, justamente por ocorrer em intervalos de tempo astronômicos. “Vemos apenas um pedacinho do céu e não há telescópio que consiga acompanhar tudo que ocorre por lá. Os pesquisadores olharam apenas uma pequena janela do Universo e, nesse exato instante, uma coisa incrível aconteceu. Essa é a grande novidade”, diz ela.

Zucolotto ressalta, no entanto, que há outras teorias que tentam explicar a origem do ouro na Terra. Uma delas defende que esse metal, na realidade, chegou ao planeta por meteoritos. “Há, inclusive, empresas que já planejam explorar os minérios de alguns asteroides que giram ao redor do Sol e estão próximos da Terra. Na mineração de asteroides, podem ser encontrados corpos fomados por ferro, ricos em elementos pesados do grupo da platina. Esses elementos aqui na Terra estariam próximos ao núcleo, que também é de ferro. Assim, os mineradores acham que seria mais fácil minerar um asteroide próximo da Terra”, diz.

Ivan Ferreira também acredita que as informações devem ser dosadas. Ele classifica como “um exagero descabido” dizer que foi esse processo de colisão de estrelas que produziu o ouro que encontramos na Terra. “Pode ter sido, assim como pode ter sido uma explosão de supernova. Também é demais dizer que temos certeza do processo, é algo que estamos aprendendo agora”, defende o pesquisador.
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