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O privilégio de ter dois pais

Os padrastos também podem comemorar o dia de hoje. Em muitas famílias, eles são figuras fundamentais, mesmo quando os originais estão presentes. Basta ter paciência e boa vontade para a convivência ser a melhor possível

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postado em 11/08/2013 12:44 / atualizado em 11/08/2013 12:46

Ariadne Sakkis

Viola Júnior

Não há dia do calendário dedicado a eles. Não que isso os impeça de serem homenageados todo segundo domingo de agosto, quando se celebra o Dia dos Pais. A figura do padrasto acompanhou as mudanças nos arranjos familiares do mundo moderno. Aquela boa e (até certo ponto) nova história de juntar os meus e os seus e torná-los nossos filhos. Quando a fusão dá certo, muita gente tem a sorte de contar com dois “pais”.

São 18h de sexta-feira, Terminal 2 do Aeroporto Internacional Juscelino Kubitschek. O voo que chega de Belém (PA) traz Pedro Alberto Bignelli, 52 anos, para a alegria da família que ele construiu com a servidora pública Maria Sílvia Rossi, 44, desde 2009. Pietra é a caçula. Tem 3 anos e é filha do casal. As irmãs Tainá Brederode Sihler Rossi, 16 anos, e Juliana Rossi Brederode Sihler, 11, vieram da união de Maria Sílvia com o primeiro marido. Mas o homem que vem andando pelo portão de desembarque é o outro pai que elas encontraram na vida. “Desde o início do ano, ele viaja o tempo todo. A gente odeia”, reclama, com saudades, Tainá.

Pedro recorda, em detalhes, a primeira vez que conheceu as filhas de Maria Sílvia. Foi numa pizzaria, na confraternização do trabalho dos dois. “Olhei para a Tainá, e a empatia veio à primeira vista. Não sei… foi como se estivesse escrito que a gente deveria se encontrar”, conta. “Ele é um exemplo para mim. Eu o vejo como pai”, explica a jovem de 16 anos.

Com Juliana, demorou um pouco mais. Mas sem que nada fosse forçado pelos adultos: a amizade e o afeto entre eles ocorreram naturalmente. “A única coisa que não gosto é que ele não deixa a gente fazer cosquinhas nele. Mas sei que tenho sorte, porque tenho dois pais. Juro que não é por que ganho o dobro de presentes”, diz Juliana. O pai biológico das duas vive em Recife. Elas não chamam Pedro de pai. Mas só é difícil falar. Nas cartas e bilhetes que escrevem para ele, a palavra está lá.

De vez em quando, a família fica um pouco maior. É quando Luca, filho de Pedro de uma relação anterior, sai do interior de São Paulo para passar uma temporada na casa do pai em Brasília. A relação do Pedro com Luca também melhorou, explicam todos, por influência das meninas, que se dão muito bem com o menino de 11. “Me sinto privilegiada. O arranjo encaixou sem que precisássemos fazer qualquer esforço. E isso é raro”, afirma Maria Sílvia. O presente para celebrar a data ainda não tinha sido comprado até sexta-feira, porque as filhas queriam escolher com a ajuda do pai.

 

Os nossos
O apartamento teve de ser grande o bastante para caber os quatro filhos da enfermeira e bioquímica Paula Frassineti Guimarães de Sá, 45 anos, e a filha do fisioterapeuta Marcelo César Machado de Carvalho, 37. Claro, além do casal, junto desde 2010. Eles conseguiram reconfigurar a família com harmonia e sucesso. De Paula, vieram Ana Paula, 24 anos; Ana Verônica, 21; Pedro Henrique, 18; e João Victor, 14. De Marcelo, apareceu Luana, 10, que passa alguns dias da semana com eles.

Ana Paula explica que o convívio com Marcelo sempre foi tranquilo. “Acho legal, porque temos duas figuras masculinas diferentes. Acrescenta muito”, acredita. Para Ana Verônica, o segundo casamento da mãe acrescentou não apenas a presença de um homem na casa. “Fez muito bem para a minha mãe. E ele é um cara que participa, dá conselhos”, conta. Entrar para a família exigiu mudanças por parte dele. “Você abre mão de muitas coisas. É outra cultura, outra educação. E eu sou minoria. São cinco contra um”, brinca. No início do namoro, o casal e os dois meninos fizeram uma viagem para a Europa, o que ajudou a formar os laços entre eles.

No geral, Marcelo é bastante envolvido na vida dos enteados. Quando acontece algo que desagrada ao fisioterapeuta, ele prefere recorrer a Paula para algum tipo de correção. O contrário ocorre quando a questão envolve Luana. “Claro que me considero uma figura paterna, um exemplo para eles, mas respeito um certo limite”, esclarece. A fórmula encontrada por eles tem dado certo.

Tirando o futebol, é difícil encontrar algum assunto que desperte a discórdia entre o estudante (flamenguista) Kayo Benincasa, 23 anos, e o fuzileiro naval (vascaíno) José Luiz da Silva Cândido, 46. Enteado e padrasto se dão muito bem. Para Cândido, Kayo e a família que ele fez ao se casar novamente substituem o espaço deixado por outros familiares, atualmente no Rio de Janeiro, sua cidade-natal. “Sim, acolhi o Kayo, mas também fui acolhido pelo meu sogro. Como meu pai mora no Rio, acabei adotando o meu sogro como pai. Vou comemorar o dia dos pais com eles”, conta. Desde a separação dos pais, a convivência de Kayo com o pai é menos frequente. “Acho que tenho mais afinidade com o Cândido do que com o meu pai. É convivência. Ele é um cara que sempre me ajudou, me deu conselhos quando precisei”, diz o estudante.

Palavra de especialista

Referências distintas

“Falando grosseiramente, temos quatro tipos de pai: o biológico; o social, que fornece experiência para a criança; o pai provedor, que financeiramente ajuda a cuidar da criança; e o pai perante a lei. Numa família nuclear tradicional, o pai biológico é isso tudo. Mas é difícil ter isso no mundo contemporâneo. O padrasto não é o pai biológico, mas pode ser o pai social e provedor. Quando o padrasto chega à família em que a criança ainda é nova, tem até 3 anos, consolidar a relação é mais fácil. Quando isso ocorre na adolescência, o jovem já está habituado com aquele modelo de família e é mais difícil. Se a mãe é viúva, a situação é uma, mas, se houve separação e tem um pai biológico, pode ser complicado. Duas situações podem ocorrer: o pai biológico pode deixar os filhos de lado e se dedicar mais àqueles oriundos de um novo casamento, ou pode haver conflito.”

Maria Auxiliadora Dessen, professora do Instituto de Psicologia e coordenadora do Laboratório de Desenvolvimento Familiar da UnB 

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