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CIÊNCIA

Comunicação global

Estudo mostra que a forma de expressar algumas emoções por meio da voz é semelhante em diferentes culturas, o que sugere um aspecto evolutivo nesse tipo de comportamento humano

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postado em 11/08/2013 16:00 / atualizado em 11/08/2013 14:11

Bruna Sensêve

 (Arte/CB/D. A Press) 


Humm! Tsc, tsc, tsc... Argh! Os sons emocionais fornecidos por uma pessoa podem mostrar muito mais do seu estado de espírito que seu rosto. Ao ouvir o barulho dessa forma de comunicação, qualquer pessoa pode facilmente identificar as emoções que ela exprime, como satisfação, desaprovação e nojo, respectivamente. Essas expressões fazem parte de uma herança primitiva da espécie humana e pode, inclusive, ser compartilhada por outros animais. A pergunta de uma equipe internacional de pesquisadores, no entanto, é quais delas podem ser encontradas em diferentes culturas e ainda assim manter seu significado original. Quais são comuns a todos os seres humanos?

A voz humana é uma das mais ricas fontes de informação emocional. As expressões vocais não verbais aparecem em duas formas principais: com modificações no tom de voz durante a fala e por meio de vocalizações não faladas, como a respiração, o choro, suspiros, grunidos, risadas, gritos e soluços. Em uma nova pesquisa, um grupo de cientistas usou essa gama de possibilidades, com a variação de entonação, intensidade e barulhos produzidos pelo aparelho fonador humano, para reproduzir 18 sensações, sendo metade delas positiva e a outra metade negativa. Para a tarefa, foram escalados atores de quatro países culturalmente distintos: Índia, Quênia, Cingapura e Estados Unidos. Eles foram instruídos a expressar as emoções da forma mais convincente possível, como fariam em situações reais de emoção. As vocalizações foram então gravadas e apresentadas a 29 voluntários suecos.

Os resultados, apresentados na revista Frontiers of Psychology, mostraram que, ao tentar interpretar as emoções positivas, os participantes suecos tiveram uma taxa de acerto de 39%. O índice pode parecer baixo, mas, segundo os autores, ele mostra que os voluntários conseguiram muitas vezes reconhecer as vocalizações de culturas distintas. Expressões de alívio foram as mais bem percebidas (70% de acerto), seguidas por lascívia (45%), interesse (44%), serenidade (43%) e uma surpresa positiva (42%). Felicidade (36%) e divertimento (32%) foram muitas vezes confundidas uma com a outra, o que sugere que elas são difíceis de separar. Juntas, essas duas últimas indicaram uma taxa de 60% de reconhecimento. As expressões positivas menos reconhecidas foram orgulho (22%) e afeição (20%).

De forma geral, as emoções mais difíceis e mais fáceis de serem interpretadas eram as mesmas nas diferentes culturas. Segundo os pesquisadores, isso sugere uma consistência intercultural. No entanto, eles observaram alguns casos que chamaram a atenção. “Por exemplo, os ouvintes suecos não perceberam com precisão vocalizações de divertimento feitos pelos atores indianos. Julgaram ser de surpresa”, exemplifica Petri Laukka, principal autor do estudo. Ele ressalta, contudo, que, ainda assim, é difícil afirmar que essa dificuldade se deva necessariamente a uma diferença cultural. “Temos de levar em conta a possibilidade de os atores indianos simplesmente não terem sido tão bem-sucedidos em retratar o divertimento”, diz.

Os mesmos procedimentos de estudo das emoções positivas foram realizados para analisar as formas negativas de sentimento. As taxas de reconhecimento se mostraram mais altas (45%) no total. O nojo foi a mais bem reconhecida (63%), seguida pela raiva e pelo medo (57%), tristeza (56%), surpresa negativa (53%) e desprezo (44%). A aflição (33%) foi frequentemente confundida com medo e tristeza. Outra confusão comum foi entre vergonha (21%) e culpa (20%). O mesmo fenômeno de variabilidade cultural foi visto para emoções negativas. Segundo Laukka, os ouvintes suecos tiveram dificuldade especial para reconhecer vocalizações de tristeza de indianos e quenianos, e de medo emitidas por norte-americanas e cingapurianos.

Sinais primitivos
 
De acordo com o trabalho de Lauk-ka, vocalizações não linguísticas são muitas vezes consideradas uma forma especial e “primitiva” de sinalização da emoção humana, funcional desde o momento do nascimento e, em muitos aspectos, semelhante a expressões animais. Ao mesmo tempo, estudos anteriores relataram taxas de reconhecimento modestos para afeição, culpa, orgulho e vergonha. Isso sugeriria que essas emoções podem não estar associadas a vocalizações altamente distintas.

“A culpa, o orgulho e a vergonha envolvem reflexão e avaliação do ser, o que faz com que essas emoções sejam mais dependentes das habilidades cognitivas complexas em comparação com as emoções básicas”, detalha Laukka. As culturas variam sobre como o ser é conceituado, e isso pode levar a interpretações culturais específicas de situações particularmente relevantes para as emoções autoconscientes, tais como orgulho e vergonha. “Há, portanto, uma possibilidade de que a variância cultural seja especialmente marcante para a manifestação de emoções autoconscientes.”

Segundo Orestes Diniz Neto, professor do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o estudo está inserido na linha de pesquisa da psicologia evolutiva, que surge basicamente da pergunta: quanto do comportamento humano é fruto da cultura e quanto tem uma natureza biológica, determinada evolutivamente. “Charles Darwin indica isso quando relata sua viagem a bordo do navio Beagle, por cinco anos, ao redor do mundo. Ele dizia que chegava a vários países, inclusive o Brasil, e não conseguia se comunicar com as pessoas por meio das palavras ou mesmo dos gestos”, lembra Diniz Neto. Gestos que podem parecer absolutamente naturais, como virar a cabeça para a direita e para a esquerda e indicar “não”, em outros países têm o sentido oposto. “Mas, por outro lado, ele conseguiu entender muito bem as expressões emocionais.”

Na década de 1960, o psicólogo norte-americano Paul Ekman fez uma série de pesquisas interculturais na busca por identificar se as expressões faciais tinham uma natureza culturalmente determinada, como se acreditava na época, ou se simplesmente eram uma forma de comunicação natural. “Ele descobriu que existem algumas expressões emocionais com as quais nascemos, como a raiva, o medo, o desgosto, a tristeza, que são, razoavelmente, universais”, conta Diniz Neto. Em estudo posterior, essa teoria foi confirmada pela observação de bebês cegos, sem a capacidade ou a possibilidade de registro de como essa emoções se apresentam, mas que representam as sensações da mesma maneira. “É o que nos leva à convicção de que uma parte das nossas emoções são realmente marcadas pelas nossa biologia e evolução.”

Emoções sob análise

Paul Ekman foi pioneiro no estudo das emoções e expressões faciais. Num estudo empírico usando seis critérios, Ekman foi considerado um dos 100 mais notáveis psicólogos do século 20. A investigação de Ekman analisa o desenvolvimento das características humanas e estados ao longo do tempo. O personagem Cal Lightman, da série de televisão
Lie to me, é baseado nele e em seu trabalho.

Palavra de especialista

Informação não verbal


“O rosto e a voz são as duas dimensões não verbais que trazem a maior quantidade de informações. O tom de voz tem uma expressividade muito grande com a ideia de que ela pudesse de fato caracterizar os aspectos emocionais em diferentes culturas. A psicologia evolucionista pressupõe exatamente que todos os comportamentos, as atitudes e as emoções têm uma história evolutiva, e é isso que se percebe em boa parte das pesquisas que são feitas hoje. Algumas características têm uma modulação, uma variabilidade cultural, e outras muitas, um padrão universal, compartilhado por diversas culturas entre todos os seres humanos. São justamente esses comportamentos que estão ligados aos mais primitivos, mais biológicos, dos seres humanos, e as emoções entram nessa categoria de manifestações que fazem parte da nossa bagagem biológica, relacionada à sobrevivência e ao relacionamento social. Na verdade, o que vamos perceber é que a linguagem acaba se sobrepondo a esses aspectos não verbais. Normalmente, as pessoas prestam muito mais atenção no conteúdo verbal, e o não verbal ocorre de uma maneira subliminar, não consciente. Então, as pessoas até percebem, detectam tudo, mas têm muita dificuldade de especificar o que está sendo sentido em algumas situações.”

Sandro Caramaschi, professor do Departamento de
Psicologia da Universidade Estadual de São Paulo em Bauru
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