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A Primavera Jovem

O maior acesso à educação e mais gastos com eventos esportivos, bem como a difusão das redes sociais, encorajam a juventude brasileira a ser engajada e participar dos protestos de rua e dos virtuais. É o que confirma a Pesquisa Nacional Sobre Perfil e Opinião da SNJ

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postado em 13/08/2013 18:00 / atualizado em 13/08/2013 12:14

Étore Medeiros

As pautas e reivindicações levantadas pelas manifestações que atravessam o país, desde junho, demonstram a falta de sintonia entre o que querem adolescentes e jovens adultos, e a prática institucional de partidos e governos. A difusão da internet e das redes sociais, somada ao contexto internacional de protestos, deflagrado desde 2011, com a Primavera Árabe e o movimento Occupy Wall Street, são apontados como combustíveis dos movimentos de rua no Brasil. Fatores internos, no entanto, como maior acesso à educação e os gastos com megaeventos esportivos, são coprotagonistas na explosão de revolta da juventude.

“Nos últimos 10 anos, houve uma ampliação significativa do acesso das classes populares à educação. A moçada que está na rua é fruto deste período”, analisa Leila Chalub, coordenadora do Observatório da Juventude da Universidade de Brasília (UnB). Para Paulo Carrano, coordenador do Observatório Jovem da Universidade Federal Fluminense (UFF), quanto maior o grau de escolarização de uma sociedade, maior a disposição ao engajamento.

Leila avalia que há “um rompante de indignação e uma certa dificuldade” dos jovens em reconhecer as instituições políticas. “Parece que há uma desconfiança generalizada”, arremata. “O modelo de política de hoje não me representa”, resume Gerusa Diniz, que participa da organização dos maiores protestos no Rio de Janeiro, desde junho, e acredita que a adesão em massa às manifestações deu-se pela violência desproporcional promovida pelas polícias militares. “Quanto mais a gente vai protestar próximo aos locais da Copa, por exemplo, maior é a repressão. Isso desencadeia uma revolta nas pessoas e aumenta o movimento. Mas, ao mesmo tempo em que foi o incômodo que fazia isso, as pessoas iam tomando consciência das pautas”, avalia a carioca.

O professor Carrano, da UFF, confirma que muitos protestos estão relacionados com a noção de que as cidades não podem “ser negociadas de fora para dentro”, pois os megaeventos têm consequências na vida das pessoas. Ele acredita que a violência policial gerou uma nova pauta. “O enfrentamento entre jovens e policiais, que agem de maneira truculenta e pouco cidadã, promoveu uma agenda própria, que é a desmilitarização das polícias”, acredita.

Pesquisa

De acordo com a recém-lançada Pesquisa Nacional Sobre Perfil e Opinião dos Jovens Brasileiros 2013, da Secretaria Nacional de Juventude (SNJ), da Presidência da República, a violência e o despreparo das polícias foram citados entre os cinco problemas que mais incomodam aos jovens — um em cada quatro entrevistados queixou-se desse item. A maior questão foi a corrupção, apontada por dois em cada três jovens como a mais problemática para o país. A pesquisa entrevistou jovens de 15 a 29 anos, entre abril e maio deste ano e constatou que, mesmo antes de irem às ruas, eles já estavam certos do que desejavam: melhores serviços públicos, mais transparência na prestação de contas e participação na tomada de decisões.

Segundo o documento, 91% dos entrevistados acreditam que a juventude pode mudar o mundo, e que, para 45% deles, as mobilizações de rua são a melhor forma de efetivar as transformações necessárias. “Os jovens se deram conta da força que têm e querem lutar, mas sem caráter organizativo. Há um desejo de participar, mas de forma mais solta, menos engajada em cores partidárias”, avalia Leila Chalub, da UnB. E, para Carrano, as assembleias horizontais populares — momento em que manifestantes debatem livremente—, são uma prova de que os jovens querem uma participação mais direta no processo de decisão política, e distância da estrutura partidária, seja de esquerda seja de direita, ambas fortemente hierarquizadas. “Os partidos de esquerda que levaram bandeiras aos protestos foram hostilizados porque foram os que participaram. Se os (partidos) de direita participassem, também seriam rejeitados. A galera não quer aparelhamento pelos partidos, não quer ser massa de manobra”, defende Gerusa, 30 anos.

O documento da SNJ também revelou que 65% dos jovens tiraram ou pretendem tirar o título de eleitor, antes dos 18 anos. “O que vamos ser daqui a duas ou três décadas tem a ver com o que os jovens de hoje são. É um pouco paradoxal: eles não confiam nos partidos, mas se colocam disponíveis para as eleições. Essas manifestações podem ter o efeito positivo de gerar uma maior preocupação e mais consciência na hora de votar”, defende Carrano. Gerusa, por sua vez, não é tão otimista: “O brasileiro ainda não foi educado para as urnas. Não vai ter esse reflexo”.

Para Leila, os políticos acreditavam que poderiam fazer um conjunto de políticas para a juventude, sem ouvi-la. “Agora, as classes políticas deverão ter mais cautela em lidar com os nossos jovens. Não temos uma só juventude. São grupos diferenciados, que buscam direitos muito específicos, depois das primeiras pautas, mais genéricas”, analisa. Os protestos do Rio de Janeiro são um exemplo disso. “Hoje (segunda-feira), os cariocas devem ir às ruas em defesa de quatro Comissões Parlamentares de Inquérito (CPI): a dos ônibus, a da construtora Delta, a dos helicópteros do Cabral, e a da Copa, com foco no Rio de Janeiro”, lista Gerusa.
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