A vida acadêmica continua aos 80

Professora emérita da Universidade de Brasília ultrapassou a aposentadoria e continua a pesquisar cromossopatias. Tem especialização nos EUA e pós-doutorado na Holanda

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postado em 13/08/2013 18:00 / atualizado em 13/08/2013 12:24

Manoela Alcântara

Marcelo Ferreira
A aposentadoria compulsória, aos 70 anos, foi pouco para conseguir frear a vontade de Íris Ferrari de trabalhar, pesquisar, descobrir. Aos 82, ela é a docente mais velha em atividade na Universidade de Brasília (UnB). Por ser professora emérita, pode continuar a pesquisa com tranquilidade e tem os mesmos direitos dos outros empregados. Íris acorda todos os dias para dar continuidade ao projeto que iniciou em 1986. Ela foi pioneira na área de citogenética humana na capital. Formou a maioria dos profissionais que hoje desenvolvem serviços importantes na área em locais como o Hospital de Apoio de Brasília, a Rede Sarah Kubitschek e outros da Secretaria de Saúde.


Ela sabe de cor o nome dos alunos de pós-graduação que formou e cita onde eles trabalham. Atende ligações para resolver dúvidas em dissertações de mestrado, analisa amostras de pacientes para chegar aos diagnósticos de cromossomopatias. É impressionante a capacidade didática da professora cientista. Basta uma simples pergunta para ela transformar qualquer dúvida em conhecimento. Ela simplifica por meio de exemplos práticos o que é uma cromossopatia. “Se nasce uma criança com problema intelectual, por exemplo, e a família quer entender o porquê, fazemos toda uma análise para saber a origem disso. Com isso, ainda podemos fazer o diagnóstico de probabilidade de um próximo filho nascer com a doença”, esclarece.
A facilidade em falar sobre o assunto não é à toa. Ela dedicou a vida à pesquisa. Natural de Jaú (SP), começou a vida acadêmica na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP), em 1951. Graduou-se em clínica médica na primeira turma da instituição. Nessa época, fazia hematologia. Trabalhou na área, mas um professor da época a apresentou à citologia.

 

“Comecei nessa área e depois fiz especialização nos Estados Unidos. Passei dois anos lá com bolsa de estudos. Trabalhei com dois citogeneticistas e desenvolvi muito o assunto”, contou. Isso foi entre 1963 e 1965, na University of Wisconsin Madison. De volta ao Brasil, fez o doutorado na USP de Ribeirão Preto, com o tema Estudo de Aberrações Cromossômicas em Pacientes com Malformações Físicas Múltiplas e Retardo Mental.


Concluiu o pós-doutorado na University of Leiden, na Holanda. Aposentou-se como docente da USP e recebeu um convite do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ) para desenvolver a citogenética na UnB. “Tinha 54 anos. Topei o desafio. Saí de São Paulo, vim para Brasília. Nunca senti solidão aqui, como muitos relataram. Pelo contrário, fui muito bem recebida”, disse a professora.

Continuidade
Ela implantou o programa de atendimento gratuito no HUB na área da citogenética e ajudou cerca de 8 mil famílias a descobrirem por que o filho, a mãe, o pai ou algum parente tem deficiência intelectual, má-formação física e abortos de repetição, entre outros. Durante anos, Íris se dividiu entre as aulas no laboratório para pós-graduação e o diagnóstico. As análises são demoradas. É necessário conhecer todo o histórico da pessoa, além dos exames, para ter um veredicto.


Nos 26 anos de UnB, ela atendeu duas vezes na semana casos novos no HUB e continuava a pesquisar os antigos. Porém, há dois teve uma pneumonia diagnosticada tardiamente e chegou a ficar em coma. Foram 20 dias em uma cama de hospital, desta vez, não como doutora. “Depois disso, tive que reduzir o ritmo. Foi em 2011. Só agora estou voltando à ativa mesmo. Trabalho meio período, mas continuo pesquisando. A aposentadoria não significa descanso. Descanso quando vejo as pessoas serem atendidas, quando descubro novas coisas. Quero dar continuidade ao que iniciei quando vim para cá ”, relatou.


Em um armário cheio de casos, ela selecionou um para mostrar à reportagem do Correio como é o trabalho realizado no HUB. Escolheu uma ficha qualquer. Olhou o histórico da paciente. A análise começou em 2008 e terminou três anos depois. Por meio das pesquisas de cromossomos, descobriram que uma menina de 11 anos tinha uma síndrome que atrasa o desenvolvimento intelectual, a X frágil. “Hoje, o estudo por técnicas moleculares possibilita um diagnóstico rápido, mas analisamos tudo. Pedimos para a paciente fazer um desenho com objetivo de analisar a coordenação motora, entre outros.”
Solteira, a professora não teve filhos, mas o telefone não para. Ex-alunos, amigos, professores, todos têm um cuidado especial com Íris. Aos 82 anos quando questionada quando pretende parar de trabalhar, ela não sabe precisar. “Vou parar um dia e sei que vou me adaptar bem. Gosto de ler jornal, livros, descobrir coisas novas todos os dias. Mas quando? Ainda não parei para pensar nisso”, concluiu.

 

Prêmios e homenagens  

2006    Prêmio Cláudia — Mulher do Ano 2006 na Categoria Ciência (revista Cláudia)
2003    Um ideal no Sangue: Ensinar, Instituto de Ciências Biológicas (UnB)
2002    Professora Emérita, Universidade de Brasília
2001    Homenagem e reconhecimento pela contribuição ao desenvolvimento da pesquisa em mutagênese no Brasil, Sociedade Brasileira de Mutagênese, Carcinogênese e Teratogênese Ambiental.
2001     Homenagem — Sucesso dos cursos de pós-graduação da FMRP, Comissão de Pós-Graduação da USP de Ribeirão Preto (SP)

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