SIGA O
Correio Braziliense

publicidade

CIÊNCIA

Inimigos não só das pragas

Série de artigos publicada na revista Science alerta para o impacto do uso de agrotóxicos, que vai do desequilíbrio ecológico a prejuízos à saúde humana

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 16/08/2013 18:00 / atualizado em 16/08/2013 12:39

Paloma Oliveto

São mais de 7 bilhões de bocas para alimentar e uma produção agrícola crescendo em ritmo lento. Com 25,7% das crianças em estado de desnutrição, o mundo não pode abrir mão dos pesticidas, substâncias químicas que protegem a lavoura, mas também podem envenenar os ecossistemas. A perspectiva de um mundo ainda mais superpovoado em 2050 — 9 bilhões de habitantes, de acordo com as estimativas — e as evidências dos malefícios desses produtos para a saúde das pessoas e para o meio ambiente colocam a ciência em alerta. Em um especial da revista Science, especialistas afirmam que é urgente o desenvolvimento de tecnologias mais seguras, que afastem as pragas sem colocar o planeta em risco.

Clemens Lamberth, bioquímico da suíça Syngenta Crop Protection, uma das maiores produtoras mundiais de agrotóxicos e fabricante de um pesticida banido recentemente pela Comissão Europeia, admite que, “apesar do arsenal moderno de proteção química disponível para agricultores e fazendeiros, o grande desafio de fornecer segurança alimentar (…) vai testar as capacidades inovadoras da indústria e da academia”. Autor de um dos artigos publicados na Science, ele lembra que, além do crescimento populacional, o mundo passa por um período de eventos climáticos extremos, com desertificação, secas e tempestades, o que aumenta a preocupação sobre a produção de alimentos.

Ao mesmo tempo, as pragas se tornam cada vez mais resistentes, e as ervas daninhas avançam pelos campos. É quase irresistível imaginar que produtos químicos mais pesados poderiam acabar com o problema. Contudo, pesquisas indicam que as substâncias usadas atualmente na lavoura já podem provocar desequilíbrios ambientais graves, mesmo que, nos últimos 50 anos, tenham sido aprimoradas — hoje, 10g cobrem um hectare, o equivalente a 1% do necessário em 1960. Os efeitos colaterais observados são diversos: vão de alterações hormonais e comportamentais a disfunções na reprodução e extinção iminente de espécies (veja acima).

Abelhas
Em abril, a União Europeia decidiu proibir, por dois anos, o uso dos três pesticidas mais usados no mundo, que estavam dizimando populações de abelhas. A regra, que começa a valer em dezembro, visa a proteger não apenas o inseto, mas a própria segurança alimentar: estima-se que as abelhas sejam responsáveis por 80% da polinização de plantas de interesse agrícola. Sem elas, a produção seria muito prejudicada.

No Brasil, de acordo com Luis Rangel, coordenador de agrotóxicos do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), no ano passado, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) reavaliou os artigos científicos sobre esses produtos. A conclusão foi que as pesquisas existentes não são suficientes para indicar se eles provocam a morte em massa de abelhas. Enquanto novos estudos são realizados, Rangel conta que algumas medidas têm sido tomadas, como evitar a aplicação em época de florada. O agrônomo lembra que esses pesticidas, da classe dos neonicotinoides, não fazem mal à saúde humana e foram inseridos no mercado justamente para substituir substâncias utilizadas até a década de 1980 que, embora inócuas para o meio ambiente, eram bastante danosas ao homem.

Segundo Kathrin Fenner, bioquímica do Instituto Federal de Tecnologia e Ciências Aquáticas da Universidade da Suíça, o problema é que nem todas as nações em desenvolvimento fazem como o Brasil. Apesar dos planos de expansão agrícola, o país segue as recomendações da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) sobre o banimento dos chamados produtos de alto perigo. “A FAO estima que meio milhão de toneladas de pesticidas obsoletos ainda sejam usadas em regiões em desenvolvimento da Ásia, da África e da América Latina”, conta Fenner, coautora de um dos artigos publicados na Science.

A Índia, por exemplo, permite o comércio dos monocrotofós, agrotóxicos organofosforados responsáveis, em julho, pela morte de 23 crianças. Os estudantes de 4 a 14 anos convulsionaram logo após comerem  batatas tratadas com esse produto químico. Acusado de ter sucumbido ao lobby dos fabricantes, o governo indiano afirmou que o controle do pesticida é rígido, mas não convenceu a FAO. “Os produtos altamente perigosos não devem estar disponíveis para os pequenos agricultores, que não têm o conhecimento e os pulverizadores adequados”, divulgou o órgão da ONU, em um comunicado.

Controle biológico
Estima-se que 2,5 milhões de toneladas de ingredientes pesticidas sejam aplicados anualmente em todo o mundo. O Brasil é o maior usuário desses produtos, com um mercado de quase US$ 10 bilhões, sendo US$ 2 bilhões referentes apenas ao controle da ferrugem da soja. A doença, registrada em plantações de todas as regiões do país, inviabilizaria a produção de uma das mais importantes commodities brasileiras, caso não houvesse proteção contra o fungo Phakopsora pachyrhiz.

O coordenador de agrotóxicos do Mapa afirma que a saída é o manejo integrado, no qual os pesticidas biológicos entram na estratégia de controle, diminuindo gastos financeiros e a toxidade das aplicações. Luis Rangel conta que esses produtos têm sido usados de forma intensa nas plantações de cana-de-açúcar, para combater o fungo e a lagarta. “E não é por serem sustentáveis; os produtores precisam disso para diminuir os custos”, diz. Os pequenos agricultores também têm aderido a essa alternativa — para Rangel, é um reflexo da pressão social. “As pessoas não aceitam mais produtos com alto nível de perigo”, acredita.

Esses pesticidas ainda representam uma pequena fatia do mercado, mas políticas de incentivo conseguiram aumentar a participação que era de 1,5% em 2008 para 5% atualmente. A meta é chegar a 10% em 2020. Rangel destaca a importância da adesão às substâncias biológicas nos pontos de revenda, onde os agricultores adquirem os pesticidas. Ele acredita que, ao perceberem que precisarão gastar menos com a aplicação dos químicos, mais caros, os produtores sejam convencidos.

Embora reconheça que os pesticidas biológicos resolvem o problema da toxidade, o bioquímico Lawaence P. Wackett, da Universidade de Minnesota, acredita que a solução ainda está longe. “Nós não conhecemos completamente os efeitos dos inseticidas na vida selvagem. Apesar de os biológicos não apresentarem danos diretos, há evidências de que provocam distúrbios na interação entre predadores e presas”, sustenta. “Apesar dos esforços para aumentar a especificidade dos inseticidas, ainda não há um composto que ataca a praga sem afetar a vida ao redor. É isso que a ciência precisa alcançar”, acredita.

Mal de Parkinson

Também na edição desta semana da Science, Freya Kamel, pesquisadora dos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA, assina um comentário no qual defende a necessidade de se intensificar os estudos sobre a associação entre pesticidas e o mal de Parkinson. Há diversos artigos científicos que mostram a relação entre o uso de produtos nas plantações e o risco aumentado de desenvolvimento de doenças neurodegenerativas, mas até agora ninguém sabe dizer qual é a ligação exata entre os dois fatores.
Tags:

publicidade

publicidade