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Aniquiladores de famílias

Em países como os EUA e a Inglaterra, especialistas alertam para o aumento do número de homens que atentam contra a vida dos filhos. Esses indivíduos ainda são um mistério para a ciência por não terem um padrão claro de comportamento e motivação

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postado em 26/08/2013 08:00 / atualizado em 25/08/2013 14:13

Paloma Oliveto

Em extremos opostos, dois crimes semelhantes mobilizaram as populações de duas pequenas cidades brasileiras no início do mês. Muitos Capões, no Rio Grande do Sul, e Quixelô, no Ceará, foram surpreendidas pela notícia de que um pai havia atentado contra a vida da própria filha. No município gaúcho, o tiro de espingarda disparado por Rogério Groll, 33 anos, atingiu fatalmente a menina, que tinha apenas 1 ano. Já a criança do Nordeste conseguiu escapar. A bala disparada por Cosme Alves Florêncio, também 33, pegou o neném de 1 ano e 8 meses de raspão. Em ambos os casos, a tragédia terminou em suicídio dos homens.

No Brasil, não há estatísticas sobre homicídios cometidos por pais — o crime de infanticídio, esse sim tipificado, refere-se a mães que matam seus filhos recém-nascidos, em consequência da depressão pós-parto. Na Inglaterra, os relatos sobre o assunto publicados em jornais vêm aumentando tanto que chamaram a atenção da cientista social Elizabeth Yardley, vice-diretora do Centro de Criminologia Aplicada da Universidade de Birmingham. “Nos anos 1980, menos de uma criança ao ano era morta por um dos pais. Ao longo da última década, os números cresceram para dois ou três por ano. Apesar de mães serem capazes de matar seus filhos, a vasta maioria dos assassinatos — 59 de 71 casos reportados — é cometida pelos homens. Eu os chamo de aniquiladores de famílias, porque seu sangue frio leva à destruição de seus lares”, conta ao Correio.

Depois de pesquisar as páginas policiais de jornais ingleses de 1980 a 2012, Yardley publicou o perfil de homens que matam os filhos na revista especializada The Howard Journal of Criminal Justice. Ao contrário do que se possa imaginar, a maioria desses pais não portava problemas mentais nem estava em situação de risco social. A grande parte, 71,2%, por exemplo, tinha emprego. As ocupações eram boas, incluindo chefs, policiais e executivos.

Os crimes se desenrolaram no local em que as crianças deveriam se sentir mais seguras: as próprias casas. Estatisticamente, a maioria dos homicídios ocorreu nos meses de agosto — férias na Europa — e aos domingos. “Nós levantamos muitos dados, mas o mais tenebroso talvez seja o fato de que a incidência de assassinatos cometidos por pais está se tornando comum. Os números aumentam rapidamente, de maneira alarmante”, afirma a criminologista de Birmingham.

Divergências

Embora esse tipo de crime seja pouquíssimo estudado, sendo considerado, de acordo com Yardley, um dos mais misteriosos existentes, alguns especialistas têm tentado desvendá-lo. Há três anos, o sociólogo Jack Levin, professor da Universidade de Northeastern, nos EUA, publicou o levantamento de uma década que incluiu 211 casos ocorridos no país. Diferentemente do que defende a criminologista britânica, Levin argumenta que há uma forte relação entre os homicídios e o desemprego. De acordo com ele, aniquiladores de família seriam homens perturbados pela ideia de que falharam no desempenho do papel esperado pela sociedade.

“Geralmente, são pessoas abusadas sexualmente na infância e que, quando crescem, tendem a criar uma versão idealizada de família, que eles nunca experimentaram. Quando a crise econômica atinge um ápice, com empregos em baixa e muita tensão social, é mais difícil manter esse papel de controle”, afirma. Outra diferença do estudo de Levin e do conduzido por Yardley é o perfil etário desses homens. Enquanto a maioria dos homicidas pesquisados na Inglaterra é formada por jovens pais, entre 30 e 39 anos, no levantamento americano, a grande parte dos assassinatos havia sido cometida por homens de meia-idade, com filhos pequenos.

Elizabeth Yardley concorda que a sensação de estar no controle é tão importante para os aniquiladores de família que, quando algo foge ao planejado, eles decidem que está na hora de colocar um fim na história que acreditam protagonizar. Contudo, as estatísticas dos crimes ocorridos no Reino Unido apontaram o desmantelamento do casamento, e não do papel de provedor econômico, como principal motivo por trás dos homicídios. Com base em bilhetes de despedida deixados pelos pais que se suicidaram depois dos crimes e em investigações conduzidas pelos jornais, ela constatou que 66,1% dos assassinatos ocorreram porque o casamento havia acabado ou estava perto do fim. Em segundo lugar, com 16,9%, constaram os problemas econômicos. A criminologista, porém, destaca que é pouco provável que uma causa única mova esses homens.
“Por meio da análise dos nossos resultados, fica claro que os aniquiladores de família mapeados por nossa amostra são marcadamente diferentes daqueles discutidos anteriormente”, diz o artigo publicado por Yardley. “Já se pintou a figura de um aniquilador triste e frustrado, aquele cuja vida foi caracterizada por uma longa história de derrotas. Enquanto isso pode ser até relevante em alguns casos, não se aplicou aos que investigamos. Inclusive, a maior parte dos aniquiladores se encontrava em um estágio alto de sucesso profissional”, continua. Outra diferença fundamental é a idade das crianças atacadas pelos pais: média de 6,4 anos no estudo inglês, e de 2 no levantamento de Jack Levin. “Na nossa amostra, as crianças não eram mortas acidentalmente quando os pais tentavam enquadrá-las por alguma questão de disciplina. Isso foi verificado por outros pesquisadores, mas não por nós”, destaca Elizabeth Yardley.

Categorias

Adam Lyne, também pesquisador da Universidade de Birmingham e coautor do estudo inglês, diz que essas diferenças significam que os aniquiladores de família podem ser divididos em diferentes categorias: egoístas, desapontados, anômicos e paranoides. No primeiro caso, o homem culpa a parceira pelo fim da família, é possessivo, narcisista e controlador. “Os desapontados são aqueles que acreditam que foram abandonados por suas famílias, que falharam de alguma forma e, como nossa análise mostrou, não necessariamente financeiramente. Eles não deixam de ser egoístas, pois veem a família como uma simples extensão de seus desejos e aspirações”, observa Lyne.
Os anômicos, por sua vez, se encaixariam no perfil observado pelos especialistas americanos: ao falir financeiramente, acreditam que a morte é a única saída. Os paranoides são os menos identificados pela pesquisa de Birmingham — apenas 5,1% dos homicidas. Nesse último caso, eles acreditam que há uma ameaça externa à família e que matar a companheira e os filhos é uma forma de protegê-los. “O que parece ligar cada uma dessas subcategorias é a necessidade de exercer poder e controle”, acredita Lyne. Mesmo os com distúrbio mental se encaixariam nessa característica, pois tendem a pensar que apenas eles podem resolver a situação de risco imaginária.
Phillip Hodson, membro da Associação Britânica de Psicoterapia, diz que o filicídio mexe com a cabeça das pessoas e dos próprios especialistas porque é difícil imaginar que um pai possa “se distanciar tanto das fronteiras da moralidade a ponto de matar suas próprias crianças”. “Esse é um fenômeno sobre o qual pensamos, pensamos e não conseguimos encontrar muitas explicações. Muitas vezes, tentamos encontrar uma denominação para esses homens, o chamamos de loucos, de infelizes, de traídos… Talvez isso seja mais fácil de engolir do que reconhecer a realidade assustadora de que um homem ‘normal’ pode assassinar seus próprios filhos, motivado por coisas absolutamente banais”, opina.

 

Esse é um fenômeno sobre o qual pensamos, pensamos e não conseguimos encontrar muitas explicações. Muitas vezes, tentamos encontrar uma denominação para esses homens, o chamamos de loucos, de infelizes, de traídos… Talvez isso seja mais fácil de engolir do que reconhecer a realidade assustadora de que um homem ‘normal’ pode assassinar seus próprios filhos, motivado por coisas absolutamente banais”

Phillip Hodson, membro da Associação Britânica de Psicoterapia

 

Classificação

Na busca por compreender melhor o fenômeno dos aniquiladores de família,
pesquisadores ingleses propuseram quatro categorias para classificar essas pessoas

» Egoístas: culpam a parceira pelo fim da família, são possessivos,
narcisistas e controladores

» Desapontados: acreditam que foram abandonados por suas famílias, que falharam
(financeiramente ou de alguma outra forma)

» Anômicos: ao falir financeiramente, acham que a morte é a única saída

» Paranoides: acham que há uma ameaça externa à família e que matar a companheira
e os filhos é uma forma de protegê-los

Fonte: Adam Lyne, pesquisador da Universidade de Birmingham

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