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Queixas sobre a falta de estrutura

Moradores de cidades beneficiadas pelo Programa Mais Médicos reclamam das condições precárias das unidades hospitalares

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postado em 26/08/2013 08:00 / atualizado em 25/08/2013 14:17

Grasielle Castro /Correio Braziliense

Marcelo ferreira

Mais do que a demanda por profissionais é a estrutura precária dos hospitais que preocupa a população e os funcionários que trabalham nas unidades de saúde. Com a constante reclamação da falta de equipamentos, os selecionados no Programa Mais Médicos correm o risco de apenas triar pacientes que vão continuar entupindo os ambulatórios das grandes cidades. A empolgação do governo federal em acreditar que está dando um passo importante para resolver o problema da saúde no país ainda não se reflete nos profissionais e nos moradores dos municípios inscritos no programa.

A sensação imediata é de descrença. Sentada na porta do Hospital Municipal de Planaltina de Goiás, distante 55km do Palácio do Planalto, Maria das Graças Silva reclama de não conseguir marcar nenhum exame. “Está tudo suspenso. Não estão fazendo raios X, nem tirando sangue nem nada. Tudo sem previsão. Só marca para quem está internado e já não tem mais como esperar”, diz, inconformada.

Ao lado da aposentada, outras duas pessoas confirmam a má qualidade dos centros de saúde da cidade. “Até para conseguir remédio está complicado. Fiquei quase quatro horas para pegar uma cartela. Fui buscar o resultado de um exame, feito há 40 dias, e ainda não está pronto”, reclama a revendedora Maria Eleni de Andrade, 48. “Só venho ao hospital quando não tem mais jeito, porque sei que antes não vai resolver”, acrescenta.

A crença de que só casos de emergência são resolvidos não vale para Cláudia Ferro, 49, nem para a filha, Adriana, 26, às vésperas de ter o segundo filho, Na última sexta-feira, ela já aguardava havia três dias por uma cesariana. “Estava marcada para o dia 20 e até agora nada. A menina está aí sentindo dor e não tem médico para atender. Além disso, não tem equipamento, injeção e também não tem nem quem possa fazer um encaminhamento para eu levá-la a outro hospital”, critica. A solução encontrada por Cláudia foi pegar dinheiro emprestado e ir com Adriana para um hospital em Sobradinho, no Distrito Federal. “Se ela continuar aqui, ela vai morrer”, enfatiza a mulher.

Dona Eleni, que assistiu à cena, lamentou o fato. “É um absurdo ter que sair da cidade para resolver o problema, mas muita gente faz isso. Só que a gente paga imposto aqui, tinha que ter médico aqui”, pontua. Para ela, também não adianta trazer médico do exterior para resolver o problema. “Se eu já não entendo as palavras que os doutores daqui dizem, imagine como será com os de fora”, completa.

Bruno Peres

A análise dela é a mesma de Mônica Gomes, 36 anos, mulher do vaqueiro Rogério Dias. Moradora da zona rural de Formosa, ela e o marido fizeram duas vezes na semana passada a peregrinação até o Hospital Municipal de Formosa. “Se com os médicos brasileiros já é essa dor de cabeça, quem não conhece a realidade do país, as doenças daqui e mal fala a nossa língua vai resolver?”, questiona. Ela conta que os dois estiveram no hospital na terça-feira, porque ele caiu e estava sentindo uma dor muito forte. Na triagem, disseram que não precisava consultar o ortopedista, e os dois voltaram para casa. Na quinta-feira, a dor tinha se alastrado pelo corpo.

 

Preocupação
Todas essas histórias já estão no imaginário de Janaína de Oliveira, 27 anos. Recém-formada em medicina, conta animada que ela e mais três profissionais foram selecionados pelo Mais Médicos para atuar em Planaltina de Goiás, o palco dos dramas de Maria das Graças, Maria Eleni e Cláudia. “A atenção básica me atrai muito, mas eu já sei que a cidade não tem estrutura. Já ouvi relatos de que a estratégia de saúde familiar não está muito bem implantada, mas tenho o pensamento de que estando lá dentro, eu posso mudar”, confessa. Guilherme Brito, 25 anos, um dos 15 que trabalharão em Brasília vai além nas críticas. Para ele, o sistema está falido, principalmente porque a atenção básica não recebe o investimento que deveria. “Os governantes tapam o sol com a peneira. Para atender a população, é preciso estrutura. Não adianta simplesmente colocar o médico para atender, precisa de exame laboratorial, de estrutura física. Médico é só uma peça nesse sistema”, resume.

Mesmo com essa série de problemas, ele acredita que a experiência na atenção básica ajuda a suprir outra demanda da formação de médico. “Os cursos de medicina são voltados para a especialização, o que já é uma das raízes dos problemas da saúde. É importante ter a prática desde a base até a ponta”, diz.

Nas prefeituras, as condições para receber esses profissionais também é preocupação. O coordenador de gestão e planejamento da Secretaria de Saúde de Formosa, Caio William, reconhece que uma das grandes apostas do município é o Mais Médicos que enviará quatro profissionais para a cidade, mas diz que sabe das dificuldades. “Acreditamos que o programa vai desafogar um pouco os hospitais, mas estamos trabalhando na readequação das unidades de saúde. Temos um desafio grande, pegamos uma situação complicada”, reconhece. A promessa, entretanto, é de “inúmeras” mudanças. Em Planaltina de Goiás, parte da culpa sobre o sistema de saúde também recaiu sobre a prefeitura antiga. A prefeitura justifica que algumas ações estão atrasadas com o processo de transição de prefeito.

“Se eu já não entendo as palavras que os doutores daqui dizem, imagine como será com os de fora”

Maria Eleni de Andrade, revendedora

 

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