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O apelo eleitoral do Mais Médicos

Especialistas acreditam que o programa do governo tem potencial para se transformar em uma espécie de Bolsa Família no quesito popularidade e, consequentemente, angariar votos em 2014

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postado em 26/08/2013 08:00 / atualizado em 25/08/2013 14:21

João Valadares , Renata Mariz

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O Programa Mais Médicos, a grande aposta da presidente Dilma Rousseff para imprimir uma marca à gestão e recuperar a popularidade perdida nos últimos meses, estará no centro do debate eleitoral durante a campanha presidencial em 2014. Cientistas políticos ouvidos pelo Correio apontam que a iniciativa — com previsão de investimento de R$ 26 bilhões até 2026 — pode ter o mesmo efeito eleitoral do Bolsa Família, programa de transferência de renda turbinado no governo Lula, se as barreiras jurídicas que ameaçam o andamento do plano forem derrubadas. A capilaridade do Mais Médicos, que englobará 3.511 municípios de todas as regiões do país, é apontada como o principal combustível para alavancar votos.

Por enquanto, os presidenciáveis Marina Silva (sem partido) e Eduardo Campos (PSB-PE) adotaram uma postura de cautela em relação ao tema. A avaliação é de que críticas, neste momento, podem não ser compreendidas pela população que sofre com a falta de médicos no país. O Correio tentou ouvir a opinião dos pré-candidatos, mas nenhum deles foi localizado pelas respectivas assessorias para falar sobre o assunto. Já o senador Aécio Neves (PSDB-MG) criticou ontem a contratação de médicos estrangeiros. Segundo ele, a importação “é tapar o sol com a peneira”. “Temos um governo paliativo, que promove soluções midiáticas. Não tenho preconceito quanto à origem dos médicos, o que me causa estranheza é remunerar um governo autoritário (Cuba) e não saber quanto recebem os médicos”, disse.

Cientista político e professor do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper), Celso Melo classifica como uma “grande coincidência” o fato de o Programa Mais Médicos ter sido lançado recentemente. “Olha o momento: depois das grandes manifestações nas quais o tema da saúde apareceu fortemente, às vésperas das eleições de 2014 e com um ministro da Saúde potencialmente candidato ao estado de São Paulo. É muita coincidência”, destaca Melo.

Segundo ele, o programa em questão carrega um componente eleitoreiro forte não somente devido ao momento em que é lançado, mas também por centrar em um aspecto de muito apelo para a população carente: a presença de um médico. “Não importa se vai continuar não tendo laboratório, máquina de exames, sala de cirurgia. O indivíduo vai ver que há um médico. Isso tem um forte impacto, e o governo sabe disso. É mais fácil que investir em saneamento, infraestrutura, segurança e educação, aspectos intimamente ligados com a saúde”, avalia Melo.

Já o cientista político e historiador Francisco Fonseca, professor da Fundação Getulio Vargas em São Paulo, observa o uso político do programa também por parte de quem o ataca. “A classe médica tem sido motivada por interesses corporativistas e setores da oposição como forma de desqualificar o governo. Só que há dados sistemáticos mostrando a carência desses profissionais nos rincões do país, de forma que, se o programa for bem-sucedido, ficará difícil argumentar contra”, analisa Fonseca.

Para a população-alvo do programa, destaca o especialista, pouco importa se o governo usará de forma eleitoreira o programa. “O sujeito que vive no interior, onde, de fato, não há médicos, vai se beneficiar da assistência. Então, é claro que (o programa) poderá resultar em votos, pois os governos são avaliados pelo que fazem e pelo que não fazem”, diz Fonseca. O cientista político e professor da Universidade de Brasília (UnB) David Fleischer avalia que há um risco eleitoral para quem critica o Mais Médicos. “As associações de médicos, por exemplo, não correm esse risco. Elas não precisam de votos. É claro que o programa pode ser uma marca forte do governo. No próximo horário gratuito do PT, acredito que eles já vão falar sobre o assunto.”

Segurança jurídica
O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, falou ontem sobre os entraves judiciais do programa. “Temos muita segurança jurídica do que nós estamos fazendo. Acho que quem tem críticas ao programa, pode fazer sugestões para o aprimorar, mas não venham ameaçar a saúde da nossa população, que não tem médico.” A declaração foi feita no Posto de Saúde nº 1 da Estrutural, durante o lançamento do Dia D de mobilização para a vacinação infantil (leia mais na página 24).

Padilha ainda assegurou que o foco do programa é exclusivamente o atendimento à população sem acesso a esse tipo de serviço. “Nós sabemos que estamos tendo uma atitude corajosa e que precisava ser feita”, afirmou, negando qualquer caráter eleitoreiro ao programa. “Faremos aquilo que outros países do mundo já fazem há muito tempo, que é trazer médicos estrangeiros quando não se tem número suficiente de brasileiros para atender a população”, acrescentou.

Nos últimos dias, começaram a desembarcar médicos para os 701 municípios sem atendimento profissional em todo o país. A maioria vem de Cuba e deve atender as cidades do interior do Brasil, principalmente na Região Norte.

“O sujeito que vive no interior, onde, de fato, não há médicos, vai se beneficiar da assistência. Então, é claro que (o programa) poderá resultar em votos, pois os governos são avaliados pelo que fazem e pelo que não fazem”

Francisco Fonseca, professor da Fundação Getulio Vargas

Radiografia
15.460
Número de médicos que o governo brasileiro tentará importar

3.511
Quantidade de cidades previstas para serem atendidas

63%
Proporção dos municípios brasileiros que devem receber médicos estrangeiros

1.740
Número de profissionais que começarão a trabalhar em setembro

516
Quantidade de municípios que receberão os primeiros profissionais
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