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Frutos do cerrado durante o ano todo

Pesquisadora da Unicamp desenvolve técnica que transforma o leite de babaçu e o pequi em pó. Com a metodologia, as propriedades nutritivas dos alimentos podem ser aproveitadas por um período mais longo e não apenas na época de colheita

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postado em 26/08/2013 16:00 / atualizado em 26/08/2013 11:03

“Fiquei feito criança, com tanta abundância, com tanto babaçu.” O trecho da cantiga de roda brasileira fala de uma fruta do cerrado muito comum no Maranhão, no Piauí e na Mata Atlântica. O excesso de que fala a canção, contudo, não vale para o ano todo. O período em que o produto fica disponível na natureza só dura de agosto a janeiro. Pensando em prolongar o consumo do alimento, a pesquisadora Audirene Amorim, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), criou um método para transformar o leite de babaçu, extraído de suas amêndoas, em pó. A técnica conserva as propriedades nutricionais da fruta e pode ser usada em outras espécies. Amorim já a aplicou com sucesso também no pequi.

Maranhense, nascida na cidade de Cocais, a especialista conta que tinha especial interesse em usar as frutas do estado durante o ano todo. “Como sou da região amazônica que pega um pouco de cerrado, sempre tive vontade de trabalhar com esses produtos. Eles fazem parte da minha culinária. Porém, são sazonais, não estão disponíveis o ano todo. Levei a ideia de transformá-los em pó para meu doutorado”, explica Amorim.

O método adotado por ela se chama secagem por spray drying ou aspersão, um processo que já existe e é utilizado na fabricação de produtos como leite em pó, sucos, medicamentos e sabão. A pesquisadora explica que o maior problema enfrentado por ela na adaptação do método foi a composição do babaçu e do pequi. “Esses produtos são ricos em açúcares e óleos, o que dificulta muito a secagem. Então adaptamos a técnica”, conta. Isso foi feito com o uso de um equipamento homogeneizador tipo Turrax para quebrar as moléculas e facilitar a secagem. A máquina é usada para misturar elementos em altíssima rotação, como um mixer.

Além do homogeneizador, foram utilizados produtos conhecidos como microencapsulantes, dos quais a goma arábica e o amido modificado são exemplos. “Os encapsulantes ajudam a manter as moléculas do pequi e do leite do babaçu, garantindo as suas características nutricionais. Após a secagem, por aspersão, fazemos esse processo de microencapsulação, adicionamos essas substâncias e o que resulta é o pó, tanto do pequi como do leite do babaçu”, destaca.

Saúde

Com a metodologia, Amorim conseguiu alcançar seu maior objetivo: preservar as propriedades das frutas por mais tempo. “Acredito muito no produto e espero que seja desenvolvido pelas indústrias. Durante o trabalho, conseguimos preservar cerca de 80% das propriedades por quatro meses. Porém, acredito que possa conservar as propriedades por mais tempo, já que utilizamos os pontos mais extremos de conservação”, destaca a autora do estudo.

Para o professor do curso de nutrição da Universidade Católica de Brasília (UCB) Marcus Serqueira, a técnica implementada poderia ser muito útil na alimentação de crianças, por exemplo, dada as propriedades nutritivas das frutas do cerrado. “O pequi tem muita vitamina A, que serve para evitar problemas de visão e auxiliar no crescimento e no desenvolvimento intelectual. Usar essa fruta em pó para fazer bolos, doces e compor merendas para crianças que moram em escolar rurais, por exemplo, seria excelente”, destaca.

Serqueira diz ainda que muitas frutas do cerrado possuem nutrientes riquíssimos que não são bem aproveitados. “Muitos frutos não são explorados por darem somente em épocas muito curtas. Por isso, trabalhos como esse são importantes, já que, desse modo, poderemos explorar o valor nutritivo dessas plantas por um período de tempo muito maior. Às vezes, deixamos de comer alimentos saudáveis não só por maus hábitos, mas também pela pouca disponibilidade”, destaca.

Industrialização

Paulo Stringheta, professor do curso de engenharia de alimentos da Universidade Federal de Viçosa (UFV), ressalta que a técnica possui um custo elevado, mas que é válida devido à capacidade de preservação de valores nutricionais dos alimentos. Em sua opinião, uma adaptação poderia ajudar no processo de industrialização. “Para produtos como o babaçu e o pequi, não é recomendável comercialmente, uma vez que se trata de produtos de baixo valor comercial e de consumo restrito e regionalizado. Ao mesmo tempo, pode ser um processo adequado para a preservação do valor nutricional e dos compostos bioativos, como os antioxidantes, presentes nesses e outros frutos”, acrescenta.

Stringheta também destaca que esse tipo de secagem vem sendo feita por outras instituições e segue como uma tendência na área de pesquisa alimentícia. “Outras universidades desenvolvem trabalhos semelhantes. Aqui na UFV, há diversas teses com uso da técnica para a produção de extratos concentrados de frutas vermelhas como o de casca de jabuticaba, de camu-camu e de açaí, entre outros.”

Amorim declara que o próximo passo da pesquisa é seguir em busca de parceiros. “Agora, queremos desenvolver esses produtos industrialmente. Estamos à procura de empresas que trabalhem com produtos em pó, por exemplo. Quanto ao custo, ainda estamos estudando, mas acredito que não seja muito alto, pois são matérias-primas de baixo custo”, destaca.
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