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O legado de Portinari

Alunos da UnB produzem trabalhos em uma prensa que pertenceu a um dos maiores artistas brasileiros; grupo Gravura em Foco oferece oficinas gratuitas sobre a linguagem

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postado em 28/08/2013 12:20

 (Gustavo Moreno/CB/D.A Press) 


Poucos sabem a história da prensa da marca alemã Mansfeld usada para impressão em litografia no ateliê do Departamento de Artes Plásticas da Universidade de Brasília (UnB). Mesmo quem a utiliza todos os dias desconhece que a máquina pertenceu ao artista Cândido Portinari (1903-1962) e era utilizada por ele para reproduzir imagens por meio de matrizes de pedra calcária.

 (Projeto Portinari/Divulgação) 

 (Projeto Portinari/Divulgação) 

No alto, a prensa alemã, herança de Portinari; acima, zincografia sobre papel (1939), ponta seca sem papel (1942) e litografia (1956) do artista (Projeto Portinari/Divulgação) 
No alto, a prensa alemã, herança de Portinari; acima, zincografia sobre papel (1939), ponta seca sem papel (1942) e litografia (1956) do artista


A história da máquina na UnB começou com a própria inauguração da universidade, em 1962. Foi Darcy Ribeiro, um dos fundadores e primeiro reitor da instituição, quem a trouxe para Brasília. “Darcy Ribeiro fez a articulação política para trazer a prensa, que estava no Rio de Janeiro, em um ministério”, conta Glênio Bianchetti, professor da instituição à época e responsável pelos últimos arranjos para a transferência do equipamento.

Durante a década de 1980, havia no departamento professores específicos de litografia para lidar com a prensa. Com a saída deles, a máquina ficou parada por pelo menos cinco anos. Segundo o professor de introdução à gravura na UnB, Eduardo Belga, as aulas de litografia foram retomadas no primeiro semestre deste ano, após concurso para professores. Atualmente, Belga e a professora Andrea Campos de Sá, conhecida por Capi, ministram aulas no ateliê. Mas nem mesmo eles sabiam da procedência da prensa.
“Isso agrega um valor histórico maior. É uma história interessante”, diz Capi, acrescentando que manusear a máquina não é complicado. “O mecanismo é simples. Não tem nenhum problema. A manutenção pode ser mais delicada, por causa da antiguidade do equipamento”, diz Capi, que começou a dar aulas na universidade no semestre passado.

Litografia

A técnica consiste em marcar com lápis óleo na pedra porosa molhada. A imagem nasce, então, a partir do princípio de repulsão entre água e óleo. O custo da pedra é alto, uma vez que se trata de um material raro, vindo da Bavária, na Alemanha. A UnB possui alguns exemplares da pedra, que pode ser reutilizada. A alternativa é a chapa usada em impressão off set, que garante resultado muito próximo ao da pedra, segundo explica a professora Capi.

Há uma discussão acadêmica se a imagem registrada por meio de matriz de pedra é grafia ou gravura. A professora explica que a polêmica se dá porque na litografia o artista desenha — e não retira material da matriz, como acontece nos trabalhos com madeira (xilogravura) ou metal (calcogravura), por exemplo. “Essa discussão existe. No entanto, ocorre uma gravação química que faz um pequeno desnível, mas é uma coisa microscópica. No sentido generalizado, porém, é uma gravura, porque é uma reprodução de imagem. Daí o fato de ser tão utilizada no século 19, por se aproximar muito do desenho e da pintura”.

Peças raras

Diferentemente dos murais e das pinturas, o trabalho de Portinari com técnicas de gravura e grafia é pouco conhecido. As litografias do artista, portanto, são peças raras de colecionadores. Portinari também fez trabalhos de gravura com técnicas em  água-forte, água-tinta e ponta seca, além de ter experimentado linguagens como zincografia e serigrafia. Em Brasília, a Caixa Cultural possui uma serigrafia sobre papel, em policromia. A peça, intitulada São João Batista, foi feita em 1957, e está em reserva técnica no acervo da instituição. A obra do modernista está sendo catalogada pelo Projeto Portinari, dirigido por João Candido Portinari, filho do artista.

Diversidade

Uma prensa, matrizes de madeira, metal, acrílico ou borracha, além de gravuras secando em barbantes. São esses os objetos que chamam a atenção de quem visita a Casa Rosa, do Museu Vivo da Memória Candanga. O espaço é usado como ateliê pelo grupo Gravura em Foco, composto por oito gravadores que se reúnem para trocar experiências e também oferecem oficinas gratuitas para interessados em aprender a arte de gravar. As possibilidades são incontáveis e fazem brilhar os olhos dos artistas que aproveitam os momentos de reunião para aprender novas técnicas. O Gravura em Foco existe há três anos e nasceu a partir de um grupo de gravadores que costumavam se encontrar no Espaço Renato Russo, na 508 Sul.

Integrantes do Gravura em Foco: troca de experiências na arte de gravar (Gustavo Moreno/CB/D.A Press) 
Integrantes do Gravura em Foco: troca de experiências na arte de gravar


A gravadora Marisa Matos, por exemplo, conta que trabalha com gravuras há treze anos e desenvolveu algumas técnicas, como as matrizes de cerâmica. A artista coleciona histórias bem-sucedidas e já participou de diversos eventos específicos de gravura. No espaço, todos trabalham com diversos materiais, mas claro que há preferências. No caso de Eliana Leonir, os trabalhos com xilogravura e acrílico ganham destaque no rico portifólio. Já Naná Souza gosta de fazer experimentos em metal e testar novos efeitos. O trabalho de Cecile Martins se concentra na xilogravura, em que consegue ângulos e formas diferentes. “Eu faço o que me chama a atenção. Enxergo no meu trabalho muita geometria, gosto muito de formas geométricas”, diz a artista.

A artista plástica Lêda Watson criou, em 1989, o primeiro clube de gravadores de Brasília e, de lá para cá, tem desenvolvido trabalhos importantes em gravura em metal, que lhe renderam a participação como representante de Brasília na 15º Bienal de Gravuras de Sarcelle, na França. “Tem sido uma atuação ininterrupta”, diz ela, destacando o papel das bienais. Este ano, sete gravadores foram convidados para participar da 16ª edição. “É bom que a cidade saiba que está sendo representada fora do país”, destaca Lêda, que tem experimentado técnicas novas, a partir de informações e materiais que trouxe da França, como a gravura em metal sem utilização do ácido.

Lêda Watson criou o primeiro grupo de gravadores da capital, em 1989 (Ed Alves/CB/D.A Press) 
Lêda Watson criou o primeiro grupo de gravadores da capital, em 1989


Como gravadora, desde 1970 Lêda participa de exposições coletivas e individuais no Brasil e no exterior. Desde 2002, retomou o ensino da gravura em seu próprio ateliê, expondo periodicamente com suas alunas. “A gravura é uma opção de arte autêntica e democrática. Como tive oportunidade de adquirir experiência, tenho obrigação moral de repassar para todo mundo o que aprendi. Não importa se sou ou não boa gravadora, mas tenho que passar adiante o que sei.”
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