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CIÊNCIA

As flores não falam, mas "ouvem"

Experimento realizado na Universidade Federal de Viçosa constata que o canto das cigarras influencia as taxas de fotossíntese

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postado em 28/08/2013 12:24 / atualizado em 28/08/2013 12:25

Geórgea Choucair


 


Belo Horizonte — Pesquisa desenvolvida no Departamento de Biologia Geral da Universidade Federal de Viçosa (UFV) indica que as plantas podem responder ao barulho emitido por insetos. O estudo teve como base experimentos que usaram o efeito do som das cigarras nas trocas gasosas da espécie Impatiens walleriana, popularmente conhecida como beijinho ou maria-sem-vergonha. Os resultados, inéditos na área, mostram que a interação dos vegetais com outros seres vivos nas comunidades biológicas pode ser mediada pelo som.

Intitulado Plantas respondem ao som produzido por insetos? Uma abordagem ecológica de um fenômeno físico, o trabalho é parte da primeira dissertação de mestrado do Programa de Pós-Graduação em Ecologia da UFV (PPG Eco – UFV), defendida em  22 de julho. O autor, Raphael Jonas Cypriano, bacharel e licenciado em ciências biológicas, conta que o estudo segue a mesma linha de pesquisa realizada por ele durante a graduação. Em 2010, ele pesquisou o efeito da música no tomateiro. Utilizando música instrumental, Cypriano mostrou, experimentalmente, que o estímulo sonoro promovia aumento de fotossíntese (conversão da energia solar em compostos orgânicos) e crescimento. “Mas não é todo som que pode aumentar a fotossíntese da planta. Frequências diferentes, que podem estimular ou reduzir o crescimento dela”, diz Cypriano.

O novo estudo, segundo o pesquisador, utilizou uma metodologia inédita no mundo. Foram construídas 10 câmaras, cada uma constituída por duas caixas de madeira de tamanhos diferentes, colocadas uma dentro da outra e separadas por uma camada de lã de vidro (eficiente isolante acústico). Na caixa interna, havia fonte de luz e caixas de som, que emitiam o canto de cigarras, gravado por um engenheiro de som em uma reserva biológica localizada no câmpus da UFV. O ruído foi registrado no fim da tarde, horário em que esses insetos costumam ficar mais ativos.

“O objetivo foi saber se a planta alterava sua morfologia (forma) ou fisiologia (funcionamento) como resposta ao canto, o que poderia indicar que elas utilizavam esse som como fonte de informação sobre o ambiente físico”, explica Cypriano. A cigarra foi escolhida, segundo ele, pelo fato de produzir o maior volume sonoro da natureza. “Esse som é produzido no início da primavera, quando a maior parte das plantas começa a alterar sua fisiologia para a floração e a frutificação”, lembra.
 
Percepção
A orientadora do projeto, Flávia Maria da Silva Carmo, completa que “o som da cigarra é composto por uma banda de frequência de alta intensidade, contínua ao longo do tempo. Segunda ela, se as plantas podem reconhecer esse padrão de som, isso indica que elas também podem utilizá-lo como fonte acessória de informação sobre o ambiente. “As espécies vegetais percebem alterações de temperatura, luminosidade e chuva que ocorrem de uma estação do ano para outra e as utilizam, por exemplo, como indicação de  quanto o ambiente está favorável para sua reprodução. O canto das cigarras poderia ser mais uma forma de perceber o ambiente que as cerca”, observa.
O experimento ocorreu durante 10 dias, em que cinco plantas ficaram em caixas onde o barulho da cigarra era emitido, e outras cinco foram colocadas em cubos sem o estímulo sonoro. O primeiro grupo foi exposto ao ruído por uma hora durante a manhã e uma hora no período da tarde. “Analisamos, ao longo do tempo, a taxa fotossintética diária e verificamos que houve aumento significativo de fotossíntese nas plantas expostas ao som das cigarras em relação às demais”, observa Cypriano. Ele ressalta que a probabilidade estatística de o resultado obtido ter ocorrido devido a fatores não previstos ou ser obra do acaso é de 0,2%.
 
Mais fortes
A medida da taxa de fotossíntese das plantas foi feita por meio de um analisador de gás no infravermelho (IRGA, na sigla em inglês), aparelho que analisa as alterações nas concentrações de água e gás carbônico em uma pequena câmara. Depois de constatar que houve aumento na taxa de fotossíntese nos exemplares expostos ao som das cigarras, Cypriano fez uma nova experiência. Ele pegou a mesma gravação e desorganizou o padrão sonoro, recortando pequenos pedaços e colando em outros locais da gravação, deixando o som todo misturado. Com essa mudança, repetiu o experimento.

Nesse caso, o resultado foi contrário: houve redução da taxa de fotossíntese das plantas expostas ao som misturado em relação às plantas sem interferência sonora. “A conclusão é que as plantas podem reconhecer o som e a sequência temporal do canto das cigarras”, observa. Uma sutileza de alteração do som, diz, gerou resposta diferente. “A duração do som pode influenciar também. Se eu colocar o som o dia inteiro, por exemplo, pode ser que ocorra estresse”, calcula Cypriano.

“O que obtivemos não foi uma resposta ao estímulo puramente físico do som, uma vez que os sons misturados têm características físicas iguais às do som original das cigarras. Foi uma resposta fisiológica, relacionada com o reconhecimento das diferenças entre a organização dos dois sons”, afirma a professora Flávia Carmo. Segundo ela, ainda não é possível dizer qual é o mecanismo relacionado à resposta diferente da fotossíntese das plantas ao som original e ao som das cigarras misturado. “Mas está provado que alguma coisa diferente ocorre. Podemos afirmar que há uma alteração fisiológica nas plantas, e isso indica que elas respondem às diferenças entre os sons. Mas não sabemos ainda em que nível de organização isso ocorre, como também não podemos afirmar que as plantas ouvem”, diz.

A diferença entre os resultados obtidos na monografia (que mediu a reação de tomateiros à música) e na dissertação de mestrado é que, no segundo trabalho, existe a indicação de uma relação evolutiva entre os organismos, já que insetos e plantas têm coevoluído nos mesmos ambientes há milhões de anos. No experimento mais recente, também ficou evidente que há algum mecanismo de distinção entre os inúmeros sons que atingem as plantas em seus ambientes. “Mas muitas outras investigações ainda devem ser realizadas até que consigamos entender perfeitamente como isso ocorre”, observa Carmo.

Entrevistas

A segunda parte da monografia de Cypriano foi de entrevista com 19 professores de biologia vegetal e 16 do Departamento de Física da UFV sobre o tema estudado. De todos os entrevistados, 46% não acreditam que a música pode influenciar na taxa de fotossíntese das plantas; 34% acreditam que a música pode influenciar e 20% não souberam responder ao questionamento. “Alguns afirmaram que a música não influencia porque as plantas não têm ouvidos, sistema e nervos, e alguns falaram até que elas não têm emoções”, conta o pesquisador.
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