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Correio Braziliense

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Conexão Berlim-Estrutural

Admitidos por teste em escola superior de dança na Alemanha, país onde moram desde 2011, dois jovens de cidades carentes do DF precisam de ajuda para as passagens aéreas. Na Europa, seguirão carreira no balé clássico

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postado em 29/08/2013 16:00 / atualizado em 29/08/2013 11:49

Mariana Laboissière

Glauber Lucas Mendes Silva (de branco) e Matheus Vaz ( de preto) com as alunas do Projeto Educar Dançando: repassando experiência  (Daniel Ferreira/CB/D.A Press) 
Glauber Lucas Mendes Silva (de branco) e Matheus Vaz ( de preto) com as alunas do Projeto Educar Dançando: repassando experiência

Aos 13 anos, eles saíram de comunidades carentes do Distrito Federal e embarcaram rumo à Alemanha. O passaporte estava na ponta dos pés: o balé clássico. Hoje, aos 16, eles residem na capital do país europeu e não fazem planos de regressar ao Brasil. Além disso, acreditam ter talento de sobra para continuar em solo estrangeiro. Este ano, Glauber Lucas Mendes Silva e Matheus Vaz conseguiram passar em uma prova para trilhar o ensino superior alemão em dança. Mas a falta de patrocínio deixa incerta, inclusive, a volta para Berlim. De férias em Brasília, eles buscam, a princípio, ajuda para arcar com as passagens, que custam aproximadamente R$ 5 mil cada uma (veja Solidariedade).

 As portas para uma nova vida se abriram para os dois garotos do DF quando eles ainda eram crianças. Foi a partir do projeto da Associação Cultural Educar Dançando que eles viram a oportunidade de realizar o sonho de fazer da dança uma profissão ficar mais próxima. “Com as aulas, notaram que éramos diferentes e poderíamos ter grandes chances lá fora”, destacou Matheus, que faz treinos desde os 7 anos. “Em 2009, fomos para Berlim pela primeira vez. Foi um período de adaptação. Ficamos três meses com uma monitora do projeto e, em 2011, voltamos em definitivo”, completou o amigo Glauber, que descobriu o programa aos 9 anos.

 Ao longo dos oito anos de história do projeto (veja Para saber mais), os dois meninos foram os primeiros e, até hoje, os únicos estudantes a fazerem tal intercâmbio por meio da dança. “Mesmo assim, queremos abrir as portas para outros talentos”, adiantou a coordenadora da iniciativa, a professora Maria Mazzarello. Atualmente, o Educar Dançando reúne 70 alunos. Todos eles são moradores de áreas de vulnerabilidade do Distrito Federal, como é o caso da Estrutural, cidade de Matheus; e de Samambaia, cidade de Glauber. “A nossa proposta é socioeducativa e cultural. Além de promover a inclusão, buscamos resgatar a autoestima das crianças assistidas. Ao mesmo tempo, primamos por uma educação diferenciada”, emendou.

Quando voltarem à Alemanha, Glauber e Matheus terão mais três anos de aperfeiçoamento pela frente. Passado esse período, eles completam a graduação e se tornam bacharéis. A partir daí, poderão trabalhar profissionalmente com o balé. Agora, precisam encontrar um meio para regressar a Berlim. “Eles tinham dois patrocínios: um era daqui do DF, mas foi cortado; o outro era lá da Alemanha, que permanece”, detalhou a professora. “Acontece que, mesmo sendo mantida essa ajuda externa, eles não se comprometem com as passagens”, frisou.
 

Glauber (E) e Matheus, em foto de 2009, nas ruas de terra da Estrutural: início aos 9 e aos 7 anos (Cadu Gomes/CB/D.A Press - 30/4/09) 
Glauber (E) e Matheus, em foto de 2009, nas ruas de terra da Estrutural: início aos 9 e aos 7 anos

Disciplina
Nesses anos de Alemanha, os garotos dizem não ter enfrentado qualquer problema. Pelo contrário. Glauber, inclusive, descreve os alemães como um povo acolhedor. Além disso, ambos retratam o país como organizado e seguro. Nesse momento, as comparações com o Brasil são inevitáveis. “Não temos medo de andar na rua nem de sermos assaltados. Temos acesso a coisas que nunca teríamos aqui. É bem diferente”, concluiu Matheus. “Aprender a língua foi um pouco complicado. Mas sorte a nossa que o professor de alemão para estrangeiros falava um espanhol muito próximo do português”, arrematou Glauber, que afirma já dominar bem o idioma.

 Nem mesmo a rigidez nem a disciplina da dança clássica assustaram os rapazes. Eles estudavam algo em torno de 13 horas por dia. De um lado, Matheus atribui o sucesso à criação que teve. De outro, Glauber responsabiliza o senso de independência. “Sempre tive horário para tudo em casa e sou organizado”, comentou Matheus, filho do meio de uma família de três irmãos. “Nunca gostei que as pessoas fizessem as coisas por mim. Além do mais, quero me destacar, ser o melhor da turma”, exemplificou o segundo, que é filho único.

 Antes de passarem para o ensino superior em dança, eles cursavam, na Alemanha, o equivalente ao ensino médio brasileiro, além de terem as aulas específicas da modalidade artística. O alojamento onde ficavam se situa no câmpus da instituição, local em que fizeram várias amizades, inclusive com brasileiros. O ambiente, segundo eles, é bastante diferente das residências onde moravam no DF.
 
Futuro
 Enquanto Matheus está indeciso quanto à companhia que pretende ingressar no futuro, Glauber faz planos para integrar no grupo do Royal Ballet, de Londres. “As melhores companhias estão em países europeus, assim como os melhores bailarinos. Por isso, a única coisa que sei é que pretendo seguir carreira fora do Brasil, onde terei mais contato com pessoas desse meio”, argumentou Matheus. Glauber concorda. “Lá (Europa), a cultura é encarada de forma diferente. As pessoas vão a apresentações de balé, além de frequentarem teatros, irem a exposições. Isso é um hábito deles, diferentemente do que ocorre no Brasil”, comparou.

 As famílias dos garotos nunca estiveram na Alemanha. Por isso, Matheus e Glauber tiveram de se acostumar com a distância. A saudade? Segundo eles, dá para matar de vez em quando. Nesses quase três anos fora, vieram quatro vezes ao DF. “Agora já estamos acostumados, mas, sempre que dá, a gente se fala, principalmente pela internet”, relatou Matheus. “Minha mãe é que sofre mais, por eu ser filho único, mas torce muito por mim”, completou Glauber.

Para saber mais

Turmas na Asa Norte

O Educar Dançando é uma iniciativa da Associação Cultural Educar Dançando. Iniciou-se em 2006 como um projeto de extensão da Universidade de Brasília (UnB). E, a partir deste ano, passou a ser também um programa do Instituto Federal de Brasília (IFB). A Escola Superior de Dança de Berlim é parceira, e a ação conta ainda com o apoio da Administração Regional e da Escola Classe nº 2, ambas da Estrutural. Antigamente, as aulas ocorriam no câmpus da UnB Darcy Ribeiro, na Asa Norte, mas, atualmente, ocupam sala na sede do IFB, na SGAN 609, durante a semana. Nas segundas, nas quartas e nas sextas-feiras, as turmas são das 14h às 17h; e, nas terças e nas quintas-feiras, das 9h30 às 11h30.

Solidariedade

Os interessados em ajudar Glauber e Matheus a voltar para continuar os estudos na Europa podem entrar em contato com a professora Maria Mazzarello pelos telefones: (61) 9988-8400 e 9994-4504.
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